Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 42 de 94

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Versos de Bulhão Pato

Capítulo XII

Oh! por ella tambem, nesse momento,

Derramára o infeliz amargo pranto,

Se de tantos a vista a não cercasse.

A dor que o devorava, parecia

No mais intimo d'alma adormecida;

A fronte macilenta e transtornada,

Conservava-se altiva. Por mais forte,

Mais acerbo que fosse o seu tormento,

Não quizera humilhar-se na presença

D'aquella multidão que o comtemplava.

A companheira bella de infortunio,

Não se atrevia a olhar. Ao recordar-se

Das horas do passado, do seu crime,

Da vingança de um pae, do seu destino,

E sobre tudo do destino d'ella,

Não ousava lançar sobre esse rosto

A desvairada vista, receando

Que, cedendo ao remorso, revelasse

Quanto o seu coração fôra culpado.

XII

Azo emfim sólta a voz:

«Ha pouco ainda,

Numa esposa e num filho resumia

Toda a minha ventura neste mundo.

A aurora dissipou tão bello sonho!

Antes do pôr do sol, nem um nem outro

Me devem pertencer. Quebrem-se embora, As ligações mais caras da minh'alma!

Hugo! um padre te espera, e depois d'elle A justa punição do teu peccado.

Ergue preces ao ceo antes que o lume

Das estrellas se accenda no horisonte:

Talvez te dê perdão. Mas neste mundo

Não existe logar onde possâmos

Nós ambos respirar. Adeus, não quero