Versos de Bulhão Pato
A Valsa
Venceste: sou teu, bem ves
Quão facil foi a victoria!
Cahi-te rendido aos pes.
E sem disputar a gloria.
Aos golpes da tua mão Expuz logo o coração!
Venceste: sinto nas veias
Correr o sangue agitado:
Todo o fogo do passado
Já nos sentidos me ateias.
Submisso, humilde, sugeito
Ao teu estranho poder
Existe todo o meu ser!
Em ti palpita o meu peito;
E a razão que me delira,
Em ti vive, em ti respira,
Com teu imperio a rendeste;
Sou teu: venceste, oh! venceste!
Quanto tempo decorreu
Desde aquell'hora maldita?
Quanto tempo est'alma afflicta
Na angustia se debateu,
Sem que um sorriso, um olhar
A viesse consolar!
Em vão buscava no ceo
As scintillantes estrellas;
Não via em nenhuma d'ellas
Nem formosura, nem lume,
E no prado por mais bellas
Que se ostentassem as flores,
Para mim não tinham cores,
Nem encantos, nem perfume!
..........................
Uma tarde, era o sol posto,
Vi-te assomar á janella;
Depois inclinar o rosto
Sobre a mão graciosa e bella,
E contemplar fascinada,
A natureza encantada.
A aragem com brando alento
Agitava os teus cabellos,
E julguei nesse momento
Ver-te á flor dos olhos bellos
Estremecer cristalina
Uma lagrima divina!
Sobre o cimo flexuoso
Do monte se reflectia
Ainda o clarão saudoso
Do brando expirar do dia,
Quando afogueada rompeu
A lua no azul do ceo.
Teu seio battia inquieto,
E eu senti no coração
A chamma do antigo affecto
Rebentar como um volcão!
De repente os olhos teus
Se volveram para os meus.
Quizemos fallar, a voz
Nenhum a poude soltar;
Mas que não dissemos nós
Naquelle inspirado olhar!...
Uma só vez na existencia
O diz a muda eloquencia!
........................
........................
Entrei no baile! a alegria
Saltava no teu semblante,
Quando a valsa delirante
Rompeu no vasto salão!
Era aquella melodia,
Que tanta vez a teu lado
Me fez batter agitado
De enthusiasmo o coração!
Ergueste a fronte animada,
E em teu rosto se trocou
A pallidez namorada
Pelo fogo da paixão!
Como o teu olhar fallou
Antes que dissesse a voz:
«Oh! tua outra vez eu sou!»
Depois no giro veloz
Da dança vertiginosa,
Como a tua voz formosa
Sobresaltada tremia!
Como em tua alma eu vivia!...
É que nesse instante Deus
Quiz unir as nossas vidas
Por um amplexo dos ceos!
No horisonte esmorecidas
As estrellas desmaiavam