Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 49 de 94

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Versos de Bulhão Pato

A Valsa

 

 

Venceste: sou teu, bem ves

Quão facil foi a victoria!

Cahi-te rendido aos pes.

E sem disputar a gloria.

Aos golpes da tua mão Expuz logo o coração!

Venceste: sinto nas veias

Correr o sangue agitado:

Todo o fogo do passado

Já nos sentidos me ateias.

Submisso, humilde, sugeito

Ao teu estranho poder

Existe todo o meu ser!

Em ti palpita o meu peito;

E a razão que me delira,

Em ti vive, em ti respira,

Com teu imperio a rendeste;

Sou teu: venceste, oh! venceste!

Quanto tempo decorreu

Desde aquell'hora maldita?

Quanto tempo est'alma afflicta

Na angustia se debateu,

Sem que um sorriso, um olhar

A viesse consolar!

Em vão buscava no ceo

As scintillantes estrellas;

Não via em nenhuma d'ellas

Nem formosura, nem lume,

E no prado por mais bellas

Que se ostentassem as flores,

Para mim não tinham cores,

Nem encantos, nem perfume!

..........................

Uma tarde, era o sol posto,

Vi-te assomar á janella;

Depois inclinar o rosto

Sobre a mão graciosa e bella,

E contemplar fascinada,

A natureza encantada.

A aragem com brando alento

Agitava os teus cabellos,

E julguei nesse momento

Ver-te á flor dos olhos bellos

Estremecer cristalina

Uma lagrima divina!

Sobre o cimo flexuoso

Do monte se reflectia

Ainda o clarão saudoso

Do brando expirar do dia,

Quando afogueada rompeu

A lua no azul do ceo.

Teu seio battia inquieto,

E eu senti no coração

A chamma do antigo affecto

Rebentar como um volcão!

De repente os olhos teus

Se volveram para os meus.

Quizemos fallar, a voz

Nenhum a poude soltar;

Mas que não dissemos nós

Naquelle inspirado olhar!...

Uma só vez na existencia

O diz a muda eloquencia!

........................

........................

Entrei no baile! a alegria

Saltava no teu semblante,

Quando a valsa delirante

Rompeu no vasto salão!

Era aquella melodia,

Que tanta vez a teu lado

Me fez batter agitado

De enthusiasmo o coração!

Ergueste a fronte animada,

E em teu rosto se trocou

A pallidez namorada

Pelo fogo da paixão!

Como o teu olhar fallou

Antes que dissesse a voz:

«Oh! tua outra vez eu sou!»

Depois no giro veloz

Da dança vertiginosa,

Como a tua voz formosa

Sobresaltada tremia!

Como em tua alma eu vivia!...

É que nesse instante Deus

Quiz unir as nossas vidas

Por um amplexo dos ceos!

No horisonte esmorecidas

As estrellas desmaiavam