Versos de Bulhão Pato
Capítulo XIV
No fundo de minh'alma achal-a injusta.
«No peccado nasci, morro na infamia;
Por onde começou, termine a vida.
Errando o filho, o pae tambem errára;
Num, castigas os dois. Perante os homens Eu, quem sabe? serei o mais culpado,
Porém Deus julgará entre nós ambos.»
XIV
Cruzando as mãos no peito Hugo fizera
Resoar os grilhões, e d'entre os chefes,
Que a sala do palacio povoavam,
Não houve um só, que ouvindo esse ruido Deixasse de tremer. Depois cravaram
Sobre a fatal beldade a vista a um tempo.
Parisina, infeliz! pallida e fria,
Immovel como estatua de alabastro,
Dissemos que assistíra á scena horrivel,
Da perdição do amante. Os olhos fixos,
Scintillantes, abertos, desvairados,
Nem sequer por instantes se volveram.
Nem uma vez as palpebras, cerrando-se, O fito olhar velaram; mas em torno
Das pupillas azues, e resplendentes,
Sem cessar se alargava o alvo circo!
Uma lagrima a custo conglobada,
Lentamente das palpebras saía,
Tremendo sobre a franja das pestanas:
Quem o sabe contar? nesse momento,
Os que a viam, pasmavam, não podendo Crer que a olhos de humana creatura,
Fosse dado verter tão grossas lagrimas!
Quiz fallar, mas a voz morreu cortada:
Comtudo no som cavo que soltára,
Nesse longo suspiro, parecia
Que vinha o coração; apoz instantes
Tentára inda outra vez, porém debalde!
Do mais fundo do peito a voz partira
Num grito, num gemido prolongado,
E depois como a pedra, como a estatua
Derrubada da base, como tudo
O que é de vida falto emfim caíra
Digno emblema do tumulo da esposa,
Do traído senhor da casa d'Éste!
Porém não da mulher que sente n'alma
O remorso do crime, e nelle segue
Pelo ardor dos desejos instigada.
Do lethargo fatal tornára em breve,
Mas não para a razão; cada sentido
Por dor intensa fôra aniquilado.
Como das cordas do arco humedecidas
Lassas da chuva, as settas disparadas
Vão bater ao acaso, assim do cerebro
As magoadas fibras só soltavam
Desvairados, e vagos pensamentos.
O passado, e porvir! Ermo o passado!
Nas trevas do porvir apenas via
Um sinistro clarão, de espaço a espaço,
Semelhante ao do raio quando fende
As nuvens conglobadas no horisonte,
E cai sobre um logar deserto e triste.
Gelada de terror sentia n'alma
O peso do remorso; que existiam
A vergonha, o peccado, na consciencia,
Uma voz mal distincta lh'o lembrava;
Que a morte estava ali pairando livida
Sobre alguem, nesse instante o presentia.