Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 44 de 94

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Versos de Bulhão Pato

Capítulo XIV

No fundo de minh'alma achal-a injusta.

«No peccado nasci, morro na infamia;

Por onde começou, termine a vida.

Errando o filho, o pae tambem errára;

Num, castigas os dois. Perante os homens Eu, quem sabe? serei o mais culpado,

Porém Deus julgará entre nós ambos.»

XIV

Cruzando as mãos no peito Hugo fizera

Resoar os grilhões, e d'entre os chefes,

Que a sala do palacio povoavam,

Não houve um só, que ouvindo esse ruido Deixasse de tremer. Depois cravaram

Sobre a fatal beldade a vista a um tempo.

Parisina, infeliz! pallida e fria,

Immovel como estatua de alabastro,

Dissemos que assistíra á scena horrivel,

Da perdição do amante. Os olhos fixos,

Scintillantes, abertos, desvairados,

Nem sequer por instantes se volveram.

Nem uma vez as palpebras, cerrando-se, O fito olhar velaram; mas em torno

Das pupillas azues, e resplendentes,

Sem cessar se alargava o alvo circo!

Uma lagrima a custo conglobada,

Lentamente das palpebras saía,

Tremendo sobre a franja das pestanas:

Quem o sabe contar? nesse momento,

Os que a viam, pasmavam, não podendo Crer que a olhos de humana creatura,

Fosse dado verter tão grossas lagrimas!

Quiz fallar, mas a voz morreu cortada:

Comtudo no som cavo que soltára,

Nesse longo suspiro, parecia

Que vinha o coração; apoz instantes

Tentára inda outra vez, porém debalde!

Do mais fundo do peito a voz partira

Num grito, num gemido prolongado,

E depois como a pedra, como a estatua

Derrubada da base, como tudo

O que é de vida falto emfim caíra

Digno emblema do tumulo da esposa,

Do traído senhor da casa d'Éste!

Porém não da mulher que sente n'alma

O remorso do crime, e nelle segue

Pelo ardor dos desejos instigada.

Do lethargo fatal tornára em breve,

Mas não para a razão; cada sentido

Por dor intensa fôra aniquilado.

Como das cordas do arco humedecidas

Lassas da chuva, as settas disparadas

Vão bater ao acaso, assim do cerebro

As magoadas fibras só soltavam

Desvairados, e vagos pensamentos.

O passado, e porvir! Ermo o passado!

Nas trevas do porvir apenas via

Um sinistro clarão, de espaço a espaço,

Semelhante ao do raio quando fende

As nuvens conglobadas no horisonte,

E cai sobre um logar deserto e triste.

Gelada de terror sentia n'alma

O peso do remorso; que existiam

A vergonha, o peccado, na consciencia,

Uma voz mal distincta lh'o lembrava;

Que a morte estava ali pairando livida

Sobre alguem, nesse instante o presentia.