Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 33 de 94

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Versos de Bulhão Pato

Dever

 

Sê bem vinda estação melancolica!

Sê bem vinda! minh'alma abatida,

No teu seio procura essa vida,

Que tão bella, e tão breve passou!

Oh! são estes os campos formosos,

É bem este o deserto mosteiro,

Onde ouvíra o adeus derradeiro

Que teu peito anhelante soltou!

Já nas folhas do bosque frondoso

Se desbota a risonha verdura,

E co'a aragem que á tarde murmura,

Vão caindo dispersas no chão.

Já nos campos de todo cessaram,

Os modilhos da ingenua avesinha,

Que nas moitas espessas se aninha,

Presentindo a invernosa estação.

Que saudade na luz que desmaia,

Nestes campos sem viço nem flores,

Quando á tarde os incertos fulgores

Do sol tibio resplendem no ceo!

Que saudade na aragem agreste,

Que deriva do cimo do monte,

E no azul d'este vasto horisonte,

Onde pallida a lua rompeu!

Foi aqui nestas margens viçosas

Hoje tristes, desertas, sombrias,

Que sorriram os unicos dias,

Para mim de ventura e de amor;

Quando tu inspirada a meu lado

Caminhavas com tremulo passo,

E firmando-te alegre ao meu braço

Davas graças da vida ao Senhor.

Era aqui, junto á cruz mutilada,

Aos extremos reflexos do dia

Quando o sino da ermida se ouvia

Dar signal da singela oração,

Que tu vinhas prostrar-te soltando

Com voz flebil a prece sentida,

Pelo bem, pelo amor, pela vida,

Dos que a sorte deixou na afflição.

E depois nos meus olhos cravando

Os teus olhos de pranto orvalhados

Os protestos mil vezes jurados,

Vinhas mais uma vez proferir;

Nesse esforço baldado do espirito,

Que nas frases da terra procura

Expressar a celeste ventura,

Que sómente se pode sentir.

E pensar que este ceo de delicias

Se acabou para nós na existencia!

Que não temos mais nada que a essencia Da saudade que d'elle ficou!...

Ver que a mão de um poder sobrehumano, Nos traz cegos do mesmo delirio,

E votarmos a vida ao martyrio,

Porque o mundo um fantasma creou!!

Pois se Deus quiz ligar nossas almas,

Se é fatal que ellas sejam unidas,

Queres tu desprender duas vidas

Que se acharam irmãs ao nascer?

Vês que foi a suprema vontade

Que as juntou num abraço divino,

E ousas tu, desvairada e sem tino,

Separal-as á voz do dever!

O dever?! O dever mais sagrado E mais santo que temos no mundo,

É mantermos o affecto profundo

Que d'um sopro divino nasceu;

Attentar contra a sua existencia,

Debelar sem piedade essa vida,

Não será como ser suicida

E affrontar a vontade do ceo!?

Sobre as aras de um templo mentido,

Num altar pelos homens creado,

Vais queimar quanto ha puro e sagrado,

Por um falso julgar da razão!

Sem pensar no teu crer insensato

Que não póde jámais ser extincto,

Este amor tão profundo que eu sinto

E tu sentes co'a mesma paixão!

..................................

Oh! de novo a meu lado, querida,

Volve, em quanto no ceo e na terra,

Nos agrestes perfumes da serra,

A suave estação respirar!

Volve pois, porque as veigas frondosas

Não perderam de todo a verdura,

E inda a mesma infinita ventura

Neste sitio has de agora encontrar.

Setembro de 1856.