Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 8 de 94

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Versos de Bulhão Pato

A Julia

 

 

(Da Paquita)

 

Naquella deserta ermida,

Que alveja na serrania,

Deu signal, Julia querida,

O sino da Ave-Maria.

Este som tão conhecido

Da nossa innocente infancia,

Como agora vem sentido

Trazer-me viva á lembrança,

Toda essa doce fragrancia

D'aquelle existir d'então!

Ai! lembrança não, saudade!

Saudade Julia, tão funda...

Mas tão grata, que me innunda

De ventura o coração.

Espera... se neste instante

Mandasse á terra o Senhor,

Anjo de meigo semblante,

E aos dias d'aquella edade

Nos tornasse o seu amor...

Oh! responde-me, querida,

Se quanto depois na vida

De bello nos ha passado,

Não devera ser trocado

Por esses dias em flor?!

Que lá vão! lembras-te ainda?

Tu risonha doidejavas,

Por entre as moitas de flores

Como ellas fragrante e linda.

Quando o som pausado e lento

D'Ave-Maria escutavas, Então naquelle momento

Aos pés da Cruz te prostravas!...

Que fronte de anjo era a tua

Vista ao reflexo amoroso

Dos frouxos raios da lua!

Uma tarde, ao pôr do sol,

No recosto pedregoso

Do monte nos encontrámos;

Lembras-te! essa hora bateu,

Porem nós mal a escutámos!

Os olhos, tu perturbada,

Baixavas, e no semblante

Não sei que luz te brilhava,

Eu sei que naquelle instante

O prazer me enlouqueceu.

Oh! fatal loucura aquella!

Tinha-me ali tão perdido,

Que, sem mais ver, delirante

Nos braços te arrebatei.

Não sei por onde vagava,

Nem quanto, nem como andei;

Só me lembra que a ventura

Ali real me fallava,