Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 72 de 94

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Versos de Bulhão Pato

Capítulo XXXIX

E as romanticas donzellas,

Que andam sempre a declamar!

Janeiro de 1862.

 

XXXIX

AMOR E DUVIDA

 

Quando essa pallida frente

Por momentos pensativa

Cai ás vezes de repente,

E se amortece a luz viva

Que nos teus olhos resplende,

Sinto que est'alma se accende

De um fogo, de uma paixão,

Que me desvaira a razão!

A terrivel incerteza,

Esta duvida constante,

Desapparece um instante!

Creio em ti:—foge a tristeza

Que todo o meu ser domina;

Torno á vida, e livre aspiro

Num mundo que se illumina

Da encantada luz do amor!

Depois, se um flébil suspiro

Vem de teus labios á flor,

Oh! como então és amada!

Como tens aos pés rendida

Toda a força d'esta vida

Que por ninguem foi domada!

Mas é só por um instante!

Volta depois a incerteza,

Quando assume o teu semblante,

Aquella glacial frieza,

Que desalenta, que opprime,

Que faz profunda tristeza,

E destroe quanto é sublime!

Um dia no firmamento

O sol vívido brilhava,

E a aragem com brando alento

Entre as ramas suspirava!

Era ali, naquelle val,

Que parece destinado,

Para esconder na espessura

Os segredos da ventura!

O coração agitado

Nesse instante te pulsava,

E uma tristeza mortal

O semblante te anuviava.

Allucinado buscava

A causa d'onde nascia,

Quando um gesto, uma expressão

Me disse que eu só podia

Tirar-t'a do coração!

Sem mais ver, nem mais pensar

Com que delirio a teus pés

Me viste rendido então!...

Quem podia duvidar

Vendo a ingenua timidez

Do teu inspirado olhar?!

Os labios não revelaram

O que havia em nossas vidas,

Mas as vistas confundidas

Com que eloquencia fallaram!

Chegára a noite; do ceo

Vi scintillar uma estrella;

Era brilhante, e era bella,

Mas um presagio mortal,