Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 27 de 94

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Versos de Bulhão Pato

A Visão do Baile

 

Foi num baile que a viste cercada

De perfumes, de luz, de harmonia,

Onde viva, impaciente alegria,

Nos semblantes andava a saltar;

E ella triste, abatida, indolente

Entre as pompas da festa encantada,

Co'a tristeza na face estampada,

E infinita saudade no olhar.

Ai! que luz! que expressão nesses olhos

Quando instantes nos teus se cravaram!

De repente em tropel acordaram

Mil affectos no teu coração!

E debalde a seu lado quizeste

Revelar o que n'alma sentias,

As palavras, a voz eram frias

Para aquella infinita paixão.

D'essa noite os instantes voaram,

Entre amor, entre gloria e ventura,

E no fim com que immensa ternura,

Seu olhar para ti se volveu!

É que havia chegado o momento

De deixar essa estancia inundada

Dos primeiros clarões da alvorada,

Que já vinha rompendo no ceo

Mas depois, quando o sol d'esse dia

Desmaiava nas veigas virentes,

Quando as aves soltavam gementes

A voz doce nas balsas em flor,

Não a viste assomar á janella,

E sorrindo, mirar-te um instante?

Não brilhava naquelle semblante,

Um sublime reflexo de amor!?

No sonoro recinto do templo

Quando as preces sinceras subiam,

Quando os hymnos sagrados se ouviam

Aspirando suaves aos ceos,

Não ouviste dizer-lhe: «Sou tua,

Ante Deus, ante os olhos do mundo

Que este affecto suave e profundo,

Vem do ceo e é bemdicto de Deus!»

Hoje pois, que na luz d'esses olhos,

Nessas fontes de amor e candura,

Encontraste na terra a ventura,

Cuidas tu em deixal-a, e partir?

Oh! não vês que é fatal o destino,

Que chegou para ti essa hora

De encontrar a mulher seductora

Que te deve encantar o porvir?

Ai, poeta, debalde procuras

Esquecer a visão adorada;

Ai! debalde! tua alma inspirada

Outra igual neste mundo encontrou!

São irmãs, e co'a mesma ternura

Viverão abraçadas no mundo,

Num affecto sincero e profundo

A suprema vontade as juntou!

31 de Março de 1857.