Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 82 de 94

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Versos de Bulhão Pato

Capítulo XLV

VOLTAS

 

(Improviso)

 

Entre as flores da campina

Correm uns certos rumores.

Que tu, rosa purpurina,

És a inveja das mais flores.

F. C. M.

És rosa, bem vês; o aroma

Que do teu seio rescende,

A cor que a folha te accende,

A inveja que ao rosto assoma

De todas as outras flores,

Não t'o diz, quando no prado,

Aos primeiros resplendores

Do sol que tem despontado,

Ergues a fronte singela,

Mas ah! quão graciosa e bella?!

O lyrio que á sombra nasce,

Quando te sente e te aspira,

Não sabes como delira!!

Não tens visto tanta vez

Naquella timida face

Redobrar a pallidez?

E o rouxinol namorado

Que, assim que a lua derrama

Seu doce clarão no val

Por entre a viçosa rama,

Desprende a voz immortal

Improvisando inspirado

O seu hymno nupcial

Á noiva que Deus lhe ha dado!

Por quem suspira anhelante?

Por quem trémulo se inclina

Sobre a veia cristalina?

Quem procura nesse instante?

—És tu, rosa purpurina!

És tu, sim; porém a cor

Que tinhas tão viva outr'ora,

Porque a vais perdendo agora?

Dize, oh rosa, a occulta dor

Que te faz tão tristemente

Pender a encantada frente!

Agora entre as outras flores

Correm uns certos rumores...

Quaes são, não sei; mas ouvi

Que as mais bellas da campina

(Por quem és tão invejada)

Quando hoje chamam por ti,

Dizem—rosa namorada,

E não—rosa purpurina.

12 de Maio de 1860.