Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 77 de 94

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Versos de Bulhão Pato

Capítulo XLII

Ouvi uma falla, e o que ella dizia

Agora acordado não posso eu dizer.

Não posso contar-te, só pude sentil-a;

Não posso contar-t'a senão a sonhar:

No sonho innocente, no sonho d'amores, Do qual, duvidosa, julgavas córar.

Não posso contar-t'a, nem sei se acordado O que ella dizia se póde entender;

Eu sei que sonhando, pensei que era sonho, E agora acordado a não posso esquecer.

Mas tu porque escondes a face córada?

Não tem nada o sonho que faça córar,

É todo singelo, é todo innocente;

Que importa um abraço, se é dado a sonhar?

Mas tu não te escondas, que eu fico em silencio; Não quero offender-te a casta isenção;

Não torno a contar-te depois de acordado O sonho innocente do meu coração.

Janeiro de 1847.

 

XLII