Versos de Bulhão Pato
Capítulo XLII
Ouvi uma falla, e o que ella dizia
Agora acordado não posso eu dizer.
Não posso contar-te, só pude sentil-a;
Não posso contar-t'a senão a sonhar:
No sonho innocente, no sonho d'amores, Do qual, duvidosa, julgavas córar.
Não posso contar-t'a, nem sei se acordado O que ella dizia se póde entender;
Eu sei que sonhando, pensei que era sonho, E agora acordado a não posso esquecer.
Mas tu porque escondes a face córada?
Não tem nada o sonho que faça córar,
É todo singelo, é todo innocente;
Que importa um abraço, se é dado a sonhar?
Mas tu não te escondas, que eu fico em silencio; Não quero offender-te a casta isenção;
Não torno a contar-te depois de acordado O sonho innocente do meu coração.
Janeiro de 1847.
XLII