Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 46 de 94

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Versos de Bulhão Pato

Capítulo XVI

É um'hora encantada a que precede

O derradeiro adeus do sol explendido!

Na pompa de seus raios fulgurantes,

Parece escarnecer da scena horrivel

Que se aproxima de seu termo agora.

Curvado aos pés do monge, em voz sumida Hugo profere a derradeira prece,

Prece contricta, humilde, fervorosa.

Nessa fronte inclinada e pensativa

Bate um raio de luz, porém mais vivo,

Mais brilhante reflecte sobre a lamina,

Que proxima da victima responde

Por um forte, mas lugubre, reflexo.

Como est'hora suprema é dolorosa!

O crime fôra atroz, justo o castigo;

Mas comtudo o supplicio nesse instante

Faz gelar de terror quem o contempla!

XVII

As orações extremas acabaram;

O filho ao pae traidor, o audaz amante,

Tudo emfim confessou. Rapidas tocam

As horas no seu ultimo momento.

As ondadas madeichas de cabello

Já cairam no chão. O nobre manto

Bordado pelas mãos de Parisina,

Não deve acompanhal-o á sepultura.

Tentam vendar-lhe o rosto, não consente Esta final affronta. O seu orgulho,

Comprimido no mais intimo d'alma

Pela expressão de fria indifferença,

Acorda nesse instante, repellindo

A mão do algoz que vem cobrir-lhe os olhos.