Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 90 de 94

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Versos de Bulhão Pato

Diante do tumulo de Salvador Corrêa de Sá (Visconde d'Asseca) e de sua filha.1

Diante do tumulo de Salvador Corrêa de Sá

(Visconde d'Asseca) e de sua filha. 1

 

«Não sabe o que é padecer,

Quem o filhinho que adora

Não viu ainda morrer!»

(A. Garrett)

—«Bem sei que era exilio a terra

Para ti, anjo do ceo!

Porém, filha, abandonar-me

Quando toda a minha vida

Era a luz d'um olhar teu!

Ouvir essa voz infante,

Ver a impaciente alegria

De teu candido semblante!

«Deixar-me assim na existencia

Triste, só, desamparado,

Aquella flor de innocencia!

Que lhe fiz? tinha-a cercado

De quanto amor neste mundo

Pela mão da Providencia

A peito de homem foi dado!

Oh! que affecto tão profundo!

E tu pudeste partir?

Pois não tiveste piedade

D'esta solemne amargura,

D'esta infinita saudade?

Vi-te inda olhar-me, e sorrir,

Erguer os olhos aos ceos,

No instante de proferir,

O fatal e extremo adeus!...

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«Oh! volve outra vez a mim,

Desce á terra, anjo do ceo,

Vem dar-me a ventura emfim!

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Olha: o vivo sol de Abril

Já nestes campos rompeu;

As rosas desabroxaram;

O rouxinol desprendeu

A voz em saudosos cantos;

Os sitios onde passaram

Os teus descuidados annos,

Não os vês cheios de encantos?

São estes! a mesma fonte,

Ferve alem; naquelle outeiro

O mesmo casal alveja;

As ramas do verde olmeiro,

Dão sombra á modesta igreja

Onde tu vinhas resar,

Quando o som da Ave-Maria,

N'hora meiga do sol posto,

De vaga melancolia

Toldava teu bello rosto!

Tudo o mesmo!?... esta inscripção!...

Este nome!... anjo do ceo,

Este nome, filha, é teu!!

Oh! meu Deus, por compaixão,

Na mesma pedra singela,

Juntae o meu nome ao d'ella!»—

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E Deus ouviu a oração...

O mesmo tumulo encerra

Filha e pae. Na mesma lousa

Onde repousam na terra,