Versos de Bulhão Pato
Diante do tumulo de Salvador Corrêa de Sá (Visconde d'Asseca) e de sua filha.1
Diante do tumulo de Salvador Corrêa de Sá
(Visconde d'Asseca) e de sua filha. 1
«Não sabe o que é padecer,
Quem o filhinho que adora
Não viu ainda morrer!»
(A. Garrett)
—«Bem sei que era exilio a terra
Para ti, anjo do ceo!
Porém, filha, abandonar-me
Quando toda a minha vida
Era a luz d'um olhar teu!
Ouvir essa voz infante,
Ver a impaciente alegria
De teu candido semblante!
«Deixar-me assim na existencia
Triste, só, desamparado,
Aquella flor de innocencia!
Que lhe fiz? tinha-a cercado
De quanto amor neste mundo
Pela mão da Providencia
A peito de homem foi dado!
Oh! que affecto tão profundo!
E tu pudeste partir?
Pois não tiveste piedade
D'esta solemne amargura,
D'esta infinita saudade?
Vi-te inda olhar-me, e sorrir,
Erguer os olhos aos ceos,
No instante de proferir,
O fatal e extremo adeus!...
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«Oh! volve outra vez a mim,
Desce á terra, anjo do ceo,
Vem dar-me a ventura emfim!
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Olha: o vivo sol de Abril
Já nestes campos rompeu;
As rosas desabroxaram;
O rouxinol desprendeu
A voz em saudosos cantos;
Os sitios onde passaram
Os teus descuidados annos,
Não os vês cheios de encantos?
São estes! a mesma fonte,
Ferve alem; naquelle outeiro
O mesmo casal alveja;
As ramas do verde olmeiro,
Dão sombra á modesta igreja
Onde tu vinhas resar,
Quando o som da Ave-Maria,
N'hora meiga do sol posto,
De vaga melancolia
Toldava teu bello rosto!
Tudo o mesmo!?... esta inscripção!...
Este nome!... anjo do ceo,
Este nome, filha, é teu!!
Oh! meu Deus, por compaixão,
Na mesma pedra singela,
Juntae o meu nome ao d'ella!»—
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E Deus ouviu a oração...
O mesmo tumulo encerra
Filha e pae. Na mesma lousa
Onde repousam na terra,