Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 78 de 94

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Versos de Bulhão Pato

Anjo e Virgem.

 

Virgem, que era o que sentias

Quando ao vento desferias

Essas frouxas harmonias

De um incerto murmurar?

Virgem, que era o que sentias

Teu santo seio agitar?

Achavas o mundo um ermo,

Onde ao coração enfermo

Dos horisontes sem termo

Não vinha uma aura de amor?

Achavas o mundo um ermo,

Fertil só de fel e dor?

Ou teu suspirar sentido

Era por ver desmentido

De amor o sonho querido,

Que sonhaste, alma gentil?

Ou teu suspirar sentido

Foi dor ligeira, infantil?

Era o teu anjo innocente

Que passára mansamente

A sorrir divinamente,

Mas que outra vez não volveu?

Era o teu anjo innocente,

Que víras subir ao ceo?

E ficaste pensativa

Sobre esta terra captiva

D'esperança, e d'amor esquiva,

Coberta com veo de dó;

E ficaste pensativa

Ao ver-te perdida e só.

Oh! esse tenue gemido

Do seio teu despedido,

Qual anhelito sumido

Que a morte veiu cortar,

Oh! esse tenue gemido,

Que não pudeste occultar...

Foi longo adeus de saudade

Aos dias da tenra edade,

Que envoltos na eternidade

Ligeiros viste fugir;

Foi longo adeus de saudade

Ao teu primeiro sorrir!

Do ceo á terra baixaste,

E quando nella te achaste,

Tristemente suspiraste

Ao ver-te perdida e só;

Do ceo á terra baixaste,

Á terra de pranto e dó.

Virgem, virgem, mal pensavas,

Quando triste suspiravas,

E num gemido enviavas

Longo e doloroso adeus;

Virgem, virgem, mal pensavas

Que eras um anjo de Deus.

Março de 1849.