Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 23 de 94

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Versos de Bulhão Pato

Tres Retratos

 

(Num album)

 

Como as horas passam rapidas

Nesta doce companhia!

Brilha impaciente alegria

Em tudo á roda de mim.

Nunca fui tão venturoso,

Nunca a mão da Providencia

Fez com que eu visse a existencia

Tão bella e risonha emfim.

Esta noite, quando a lua

No horisonte resvalava,

Inspirado a saudava

Nas balsas o rouxinol.

Vem agora a primavera

Abrindo o virginio manto,

Cada dia um novo encanto

Nos traz o romper do sol.

Como a vida assim é bella,

Nesta amena convivencia,

Com tres anjos de innocencia

De formosura, e de amor!

Dezaseis annos talvez

Não tem Julia, bem contados,

Alta, airosa, olhos rasgados,

E sorriso encantador.

O pesinho estreito e breve

Cinturinha delicada,

A fronte um pouco inclinada,

Com seu ar sentimental.

Na ramagem das pestanas

Occulta a traidora chamma,

Que no instante em que se inflamma

Dardeja um raio mortal.

Mas que morte tão suave!

Inda ha pouco, em certa hora,

Que essa chamma seductora

O coração me accendeu...

Se é morte esquecer a terra,

Naquelle instante morria,

Por que tudo o que sentia,

Era a ventura do ceo!

Vel-a sorrir entre os campos,

Bella, candida, animada,

Como as flores que a alvorada

De sua luz inundou!...

Vel-a, co'as mãos impacientes,

Afastar do rosto bello,

O basto e fino cabello,

Que a aragem desalinhou!

Vel-a depois pensativa,

Quando tibio o sol declina,

Na corrente cristalina

Os olhos negros fitar!

Vagas sombras de tristeza

Que vem toldar-lhe o semblante,

São tão bellas nesse instante,

Dizem tanto sem fallar!

Laura, Elisa, as outras duas,

Laura, pallida e morena,

Baixa um pouco, mão pequena,

Expressivas as feições;

Os olhos claros e vivos,

No seu brilho insinuante,

Reflectem a cada instante

Milhares de sensações.

Eliza, a timida Eliza,

Que innocente singeleza,

Que perfume, que belleza

Naquella face gentil!

Cabellos loiros cendrados,

Olhos d'esse azul escuro,

Que é semelhante ao ceo puro

De um bello dia de abril!

As rosas da formosura

Sempre vivas no semblante,

O corpo esbelto e ondulante,

Se é permittida a expressão;

Uma tal ingenuidade,

No seu todo se revela,

Que em se olhando para ella,

Bate alegre o coração.

Tirados daguerreotypo

Não ficavam mais exactos

De certo estes tres retratos

Que procurei desenhar;

Qual porém é mais sympathico,

Mais perfeito, deve agora

Dizel-o a amavel senhora