Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 1 de 77

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Tenda dos Milagres

Prólogo

 

No amplo território do Pelourinho, homens e mulheres ensinam e estudam. Universidade vasta e vária, se estende e ramifica no Tabuão, nas Portas do Carmo e em Santo Antônio Além-do-Carmo, na Baixa dos Sapateiros, nos mercados, no Maciel, na Lapinha, no Largo da Sé, no Tororó, na Barroquinha, nas Sete Portas e no Rio Vermelho, em todas as partes onde homens e mulheres trabalham os metais e as madeiras, utilizam ervas e raízes, misturam ritmos, passos e sangue; na mistura criaram uma cor e um som, imagem nova, original.

Aqui ressoam os atabaques, os berimbaus, os ganzás, os agogôs, os pandeiros, os adufes, os caxixis, as cabaças: os instrumentos pobres tão ricos de ritmo e melodia. Nesse território popular nasceram a música e a dança:

“Camaradinho ê Camaradinho, camará.”

Ao lado da igreja do Rosário dos Pretos, num primeiro andar com cinco janelas abertas sobre o Largo do Pelourinho, mestre Budião instalara sua Escola de Capoeira Angola: os alunos vinham pelo fim da tarde e à noitinha, cansados do trabalho do dia mas dispostos ao brinquedo. Os berimbaus comandam os golpes, variados e terríveis: meia-lua, rasteira, cabeçada, rabo-de-arraia, aú com rolê, aú de cambaleão, açoite, bananeira, galopante, martelo, escorão, chibata armada, cutilada, boca de siri, boca de calça, chapa-de-frente, chapa-de-costas e chapapé. Os rapazes jogam ao som dos berimbaus, na louca geografia dos toques: São Bento Grande, São Bento Pequeno, Santa Maria, Cavalaria, Amazonas, Angola,. Angola Dobrada, Angola Pequena, Apanhe a Laranja no Chão Tico Tico, Iúna, Samongo e Cinto Salomão — e tem mais, ôxente!, ora se tem: aqui nesse território a capoeira angola se enriqueceu e transformou: sem deixar de ser luta, foi balé.

A agilidade de mestre Budião é inaudita: haverá galo tão destro, leve e imprevisto? Salta para os lados e para trás, jamais adversário algum conseguirá tocá-lo. No recinto da Escola demonstraram valor e competência, to-do o seu saber, os grandes mestres: Querido-de-Deus, Saveirista, Chico da Barra, Antônio Maré, Zacaria Grande, Piroca Peixoto, Sete Mortes, Bigode de Seda, Pacífico do Rio Vermelho, Bom Cabelo, Vicente Pastinha, Doze Homens, Tiburcinho de Jaguaribe, Chico Me Dá, Nô da Empresa, e Barroquinha

“Menino quem foi seu mestre? Meu mestre foi Barroquinha Barba ele não tinha Metia o facão na polícia E paisano tratava bem.”

Um dia chegaram os coreógrafos e encontraram os passos do balé. Vieram os compositores, de todas as bossas, os decentes e os vigaristas, e para todos há e sobra, então não é? Aqui, no território do Pelourinho, nessa universidade livre, na criação do povo nasce a arte. Noite adentro, os alunos cantam.

“Ai, ai, Aidê jogo bonito que eu quero aprendê Ai, ai, Aidê.”

Os professores estão em cada casa, em cada tenda,em cada oficina. No mesmo prédio da Escola de Budião, num pátio interno, ensaiou e preparou-se para o desfile o Afoxé dos Filhos da Bahia e ali tem sua sede o Terno da Sereia, sob o comando do moço Valdeloir, um porreta em folias de pastoril e carnaval: sobre capoeira sabe tudo e lhe acrescentou golpes e toques quando abriu sua própria escola, no Tororó. No grande pátio se estabeleceu também o samba de roda, aos sábados e domingos, e nele se exibe o negro Ajaiy, rival de Lídio Corró no posto de Embaixador de afoxé, mas único e absoluto na roda de samba, seu ritmista principal, seu maior coreógrafo.

São vários os riscadores de milagres, a traçá-los no óleo, nas tintas de água e cola, no lápis de cor.Quem fez promessa a Nosso Senhor do Bonfim, a Nossa Senhora das Candeias, a outro santo qualquer, e foi atendido, mereceu graça, benefício, vem às tendas dos riscadores de milagres para lhes encomendar um quadro a ser pendurado na igreja, em grato pagamento.Esses pintores primitivos chamam-se João Duarte da Silva, mestre Licídio Lopes, mestre Queiroz, Agripiniano Barros, Raimundo Fraga. Mestre Licídio abre também gravuras na madeira, capas para os folhetos da literatura de cordel.

Trovadores, violeiros, repentistas, autores de pequenas brochuras, compostas e impressas na tipografia de mestre Lídio Corró e em outras desprovidas oficinas,vendem a cinquenta réis e a tostão o romance e a poesia no livre território.

São poetas, panfletários, cronistas, moralistas. Noticiam e comentam a vida da cidade, pondo em rimas cada acontecido e as inventadas histórias, umas e outras de espantar: “A DONZELA DO BARBALHO QUE ENFIOU UMA BANANA” ou “A PRINCESA MARICRUZ E O CAVALEIRO DO AR.” Protestam e criticam, ensinam e divertem, de quando em vez criam um verso surpreendente.

Na tenda de Agnaldo, as madeiras de lei — o jacarandá, o pau-brasil o vinhático, a peroba, o putumuju, a massaranduba — se transformam em oxés de Xangó, em Oxuns, em Yemanjás, em figuras de caboclos, Rompe-Mundo, Três Estrelas, Sete Espadas, as espadas fulgurantes em suas mãos poderosas. Poderosa a mão de Agnaldo: quando já lhe desfalece o coração condenado pela doença de Chagas (nesse tempo a moléstia fatal nem no-me ainda possuía, era apenas a morte lenta e certa), as mãos infatigáveis criam orixás e caboclos e eles possuem um mistério, ninguém sabe o que seja, como se Agnaldo, tão perto de morrer, lhes transmitisse um sopro imortal de vida. São inquietantes personagens, recordam ao mesmo tempo seres legendários e pessoas conhecidas.Certa ocasião, um pai-de-santo de Maragogipe lhe encomendou um Oxossi enorme e para tanto levou um tronco de jaqueira; foi preciso juntar seis homens para transportá-lo. Já golpeado pela doença, arfante, Agnaldo sorriu ao ver a árvore: tronco assim, descomunal, lhe agradava trabalhar. Rasgou a madeira num encantado desmedido, Oxossi, o grande caçador; mas não de arco e flecha e sim de espingarda.. Era um Oxossi diferente: sendo com certeza aquele mesmo rei de Ketu e dono da floresta, mais parecia com Lucas da Feira, com bandido do sertão ou cangaceiro, com Besouro Cordão de Ouro:

“Besouro antes de morrer Abriu a boca e falou Meu filho não apanhe que seu pai nunca apanhou.”

Assim viu Agnaldo a Oxossi e assim o fez: de chapéu de couro, peixeira e espingarda e na aba do chapéu a estrela do cangaço. O babalorixá o recusou, profana imagem: Oxossi permaneceu a guardar a tenda muitos meses até que um dia um viajante francês ali esteve e ao vê-lo, logo por ele ofereceu um bom dinheiro. Segundo dizem, foi parar num Museu, em Paris. Contam muita coisa no território livre.

Nas mãos de Mário Proença, um cidadão franzino, mulato quase branco, as folhas de flandres, o zinco, o cobre, são espadas de Ogun, Leques de Yemanjá, abebés de Oxum, paxorôs de Oxalá. Uma grande Yemanjá em cobre é a insígnia de sua oficina: Tenda da Mãe-D’água.

Mestre Manu, encardido, fero e cafuringa, de palavras exatas e exigente natureza, forja em sua fornalha o tridente de Exu, os múltiplos ferros de Ogun, o teso arco de Oxossi, a cobra de Oxumarê. No fogo e nas mãos violentas de Manu nascem os orixás e seus emblemas. Nasce a escultura, das mãos criadoras desses iletrados.

Assentado nas Portas do Carmo, mestre Didi trabalha com as contas, as palhas, os rabos de cavalo, os couros: vai criando e recriando ebiris, aidés, eruexins eerukerés, xaxarás de Omolu. Seu vizinho é Deodoro, mulato de estridente gargalhada, especialista em atabaques, de todos os tipos e nações: nagô e gêge, angola e congo, e em ilus da nação ijexá. Fabrica também agbés e xerês mas os melhores agogôs são de Manu.

Na Rua do Liceu, numa porta de prosa alegre e franca, o santeiro Miguel faz e encarna anjos, arcanjos e santos. Santos católicos, devoção de igreja, a Virgem da Conceição e Santo Antônio de Lisboa, o arcanjo Gabriel e o Deus Menino — qual então o parentesco a ligá-los assim intimamente aos orixás de mestre Agnaldo? Há entre esses eleitos do Vaticano e aqueles curingas e caboclos de terreiro um traço comum: sangues misturados. O Oxossi de Agnaldo é um jagunço do sertão. Não o será também o São Jorge do santeiro? Seu capacete mais parece chapéu de couro e o dragão participa do jacaré e da caapora de reisado.

De quando em vez, quando lhe sobra tempo e lhe palpita o coração, Miguel esculpe, para seu prazer, uma negra nua, na força do dengue, e a oferece a um amigo. Uma delas saiu o retrato da negra Doroteia, sem tirar nem pôr: os seios altos, a bunda indômita, o ventre em flor e os pés redondos. Quem poderia merecê-la senão Archanjo? Não acertou no entanto, fazer Rosa de Oxalá, não conseguiu “aprender sua pabulagem”, como ele dizia.

Prateiros trabalham os metais nobres: a prata e o cobre se revestem de uma sóbria beleza em frutas, peixes, figas, balangandans. Na Sé e na Baixa dos Sapateiros tocam o ouro e ei-lo virado em colares e pulseiras. O mais afamado dos prateiros foi Lúcio Reis; o pai,competente lusitano, lhe ensinou o ofício mas ele desprezou as filigranas pelos cajus, abacaxis, pitangas, pinhas, figas de todos os tamanhos. Da negra Predileta, sua mãe, herdou o gosto de inventar e inventou brincos, broches, anéis — hoje valem fortunas nos antiquários.

Nas barracas de folhas, os obis e os orobôs, as mágicas sementes rituais somam-se à medicina. Dona Adelaide Tostes, esporrenta, boca suja e zarra na cachaça, conhece cada conta e cada folha, sua força de ebó e sua quizila. Sabe das raízes, das cascas de pau, das planta-se capins e de suas qualidades curativas: alumã para o fígado, erva-cidreira para acalmar os nervos, tiririca de babado para ressaca, quebra-pedra para os rins, capim santo para a dor de estômago, capim barba de bode para levantar cacete e ânimo. Dona Filomena é outra sumidade: se lhe solicitam e pagam, reza e fecha o corpo do cliente contra o mau olhado, e positivamente cura o catarro crônico, o mal de peito, com certa mezinha de mastruço, mel, leite e limão e não se sabe o quê. Não há tosse, por mais convulsa, que resista e aguente. Um médico aprendeu com ela uma receita para lavar o sangue, mudou-se para São Paulo e enriqueceu curando sífilis.

Na Tenda dos Milagres, Ladeira do Tabuão, 60, fica a reitoria dessa universidade popular. Lá está mestre Lídio Corró riscando milagres, movendo sombras mágicas, cavando tosca gravura na madeira; lá se encontra Pedro Archanjo, o reitor, quem sabe? Curvados sobre velhos tipos gastos e caprichosa impressora, na oficina arcaica e paupérrima, compõem e imprimem um livro sobre o viver baiano.

Ali bem perto, no Terreiro de Jesus, ergue-se a Faculdade de Medicina e nela igualmente se ensina a curar doenças, a cuidar de enfermos. Além de outras matérias: da retórica ao soneto e suspeitas teorias.