Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 64 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 17

— Esta citação é um escárnio à colenda Faculdade!

Não se limitou o professor Argolo a essas breves palavras, outras disse em discurso certamente arrasador e castiço. Infelizmente, ninguém o ouviu: os estudantes gritavam vivas a Fraga Neto, vários professores intervinham ao mesmo tempo, cruzavam-se apartes, insultos, vaias e assovios, um pandemônio. Ao final do concurso, aprovado plenamente — dois ou três catedráticos lhe rebaixaram a nota — Fraga Neto foi carregado aos ombros, em triunfo, pelos estudantes.

Quanto ao convite para ser testemunha de Tadeu no casamento civil, o professor Silva Virajá não teve dúvidas em aceitá-lo. Conhecera o engenheiro ainda rapazola, no laboratório de parasitologia à espera do padrinho Archanjo, e estava a par das dificuldades que devera vencer para concluir o curso. Em diversas ocasiões lhe dera o necessário para o bonde, o sorvete, o cinema. Aos Gomes igualmente conhecia: rudes fazendeiros do Sertão, atrabiliários e atrasados, intelectualmente muito abaixo de Tadeu. Masse o rapaz e a moça se gostavam, o resto não tinha a mais mínima importância. Era casar e fazer filhos.

17

Escândalo imenso, durante semanas não se falou noutra coisa na Bahia; só as comemorações do Centenário da Independência, as grandes festas do 2 de Julho conseguiram colocá-lo no esquecimento. Motivo de azedas discussões, de troca de desaforos, até parecia a primeira vez que um mulato e uma branca se casavam. Branca baiana, ou seja, respingada de sangue negro, na idônea opinião da condessa Isabel Tereza, dos nubentes íntima Zabela. O noivo, mulato escuro, “bem queimado no moreno” — para usar a expressão conciliadora de dona Emilia.

Tais casamentos vinham-se convertendo em fatos corriqueiros. Ao penetrar na igreja pelo braço dos pais, os noivos negro brancos branco negros já não despertavam emoção, apenas o natural sentimentalismo dos enlaces matrimoniais. Agora, porém, a noiva não ia pelo braço dopai, não se acendiam luzes em naves e altares, as cerimônias civil e religiosa celebradas em casa amiga, ante reduzido número de convidados, num clima de ameaças. Marcha nupcial de Tadeu e Lu, a discussão pegara fogo na Bahia.

Os poderosos Gomes, donos de boa parcela do Sertão, figuras proeminentes da elite, haviam considerado o pedido de casamento um insulto, despacharam o candidato negro e pobre com um não redondo e categórico. Fecharam-lhes as portas da casa acolhedora e proibiram-lhe o coração da moça, sem levar em conta o dote do rapaz: o talento e a força de vontade, prova em verso na Faculdade, solução de dificílimos cálculos matemáticos, distinção nas matérias, e a brilhante carreira no Rio, braço direito de Paulo de Frontin.

Palmas para os Gomes, já era tempo que um honra do chefe de família pusesse fim ao criminoso tráfico de sangues, ao crescente abastardamento da raça branca no Brasil e dissesse basta à negralhada — felicitavam-se Nilo Argolo, Oswaldo Fontes e sua belicosa curriola, em apoio e aplauso ao coronel.

Gesto inútil e triste, o ódio de raças não pode vingar no clima brasileiro, nenhum muro de preconceito resiste ao ímpeto do povo — respondiam os Silva Virajá, os Fraga Neto, os Bernard.

Tudo isso e mais a beleza da noiva, a falada inteligência do noivo, o obstinado e proibido amor cercaram o casamento de uma aura romântica e excitante. Foi o centro da vida da cidade.

Tadeu desembarcara dias antes, mantivera-se quase incógnito, poucos souberam de sua presença na Bahia.Em casa de Zabela encontrou-se com Lu, juntos acertaram os últimos detalhes, “num agarramento de dar gosto”, segundo anunciou a mestre Archanjo a velha cada vez mais entrevada e falastrona.

Lu informou Tadeu da insistente corte do doutor Rui Passarinho, visita constante, conviva habitual do coronel.Atento e discreto, o advogado agia com finura e tato. Não se impunha, não se declarava, mantinha-se em insinuações e olhares longos. Entregou sua causa a dona Emilia que se desdobrava em elogios ao suplicante. Apaixonadíssimo, minha filha, à espera de uma palavra sua, de um gesto, um sinal de assentimento para fazer o pedido. Afinal, você vai completar vinte e um anos. Todas as suas colegas do Colégio das Mercês estão casadas, são mães de filho, Maricota até já largou o marido, cruz credo que horror!, marido melhor do que o doutor Passarinho você não encontra, é do gosto de seu Pai, e do meu, olhe o barricão aberto em sua frente, tenha juízo, não seja cabeçuda. Dia e noite a cantilena em seus ouvidos, e a pergunta nos olhos do causídico.

Na véspera da maioridade de Lu, o doutor Passarinho apareceu depois do jantar e, em lugar de permanecer nasala com o coronel, em conversa de política e finanças,perguntou à moça se consentia ouvi-lo por dois minutos. Sentaram-se sob a grande mangueira no jardim do palacete. Em cima, um céu de estrelas € luar, embaixo, as águas do golfo, o Forte do Mar, as sombras dos navios, noite de namorados. Sem experiência de declarações de amor, pouco à vontade, o bacharel, após um silêncio incômodo, venceu o acanhamento: — Não sei se dona Emilia, a quem solicitei licença para ter essa conversa consigo, já lhe falou alguma coisa... Não sou mais um rapazinho...

— Doutor Rui, Mamãe já me falou. Senti-me honrada, pois o senhor merece minha simpatia, seu comportamento foi perfeito. Por isso mesmo não lhe deixo continuar. Porque já tenho compromisso, sou noiva, vou me casar em breve, muito em breve.

— Compromisso? Noiva? Dona Emília nada me disse!

— realmente surpreso, o advogado pôde finalmente fitar amoça nos grandes olhos de água.

— Ninguém lhe contou nada? Não digo Papai ou Mamãe, eles nunca se referem ao caso. Mas, na ocasião do pedido, houve muito falatório.

— Não sei de nada, vivo muito à parte, não sou de falatórios.

— Então lhe conto tudo, é a melhor maneira de lhe provar minha estima. Parte do que vou lhe confiar é segredo.

— Sou homem de bem, senhorita, e advogado. Guardo comigo muitos segredos.

— Há quase um ano, há oito meses exatamente, fui pedida em casamento pelo doutor Tadeu Canhoto, engenheiro que se formou na mesma turma de meu irmão Astério. Nos gostamos desde meninos.

— Tadeu Canhoto, conheço de nome.

— O pedido foi recusado porque Tadeu é mulato. Mulato e pobre, veio de baixo, estudou com sacrifício. A recusa foi de meus pais, eu amo Tadeu, e me considero sua noiva — não deixou que ele a interrompesse: — Escute o resto: amanhã completo vinte e um anos, e amanhã mesmo sairei desta casa por aquela porta e vou me casar. Penso que lhe contando a verdade, estou correspondendo à honra que o senhor me fez ao pensar em mim para sua esposa. Não preciso lhe recomendar segredo.

O advogada fitou o mar coberto de lua, de alguma parte chegava um baticum de samba de roda, cantiga de capoeira:

“Ponha a laranja no chão, tico-tico Meu amô foi simbora, eu não fico Minha toalha é de renda de bico Ponha a laranja no cheio, tico-tico.”

— Tadeu Canhoto? Não é um que, na Faculdade, fez uma prova de matemática toda em verbos decassílabos?

— Esse mesmo.

— Tenho ouvido muito falar nele, dizem-no moço de grande talento, ainda outro dia um amigo recém-chegado do Rio contou-me que o engenheiro Canhoto goza da maior confiança do doutor Paulo de Frontin — parou, ouviu a cantiga distante, meu amor foi-se embora, eu não fico: — Não vou lhe dizer que estou alegre, pensei que ia ter a honra de pedir sua mão, de tê-la um dia de senhora e companheira. Volto à minha papelada, aos livros e pare-ceres, tenho gostos de solteirão, não sei se seria um bom marido. Permita que lhe antecipe os parabéns pelo casamento. Pelo casamento e pela coragem. Não sei se lhe posso ser útil em alguma coisa, a si e ao doutor Tadeu. Estou às ordens, se por acaso precisar de meus serviços.

— Muito obrigada. Não esperava outra atitude do senhor.

— Tudo bem, doutor? — perguntou dona Eufrásia quando o advogado, amável e correto, um “gentleman”, beijou-lhe a mão em despedida.

— Muito bem dona Eufrásia, tudo muito bem — embora decepcionado, o advogado sentia certo alívio, nascera solteirão.

— Até amanhã, doutor. Venha jantar com Lu.

— Obrigado e boa noite.

Crivada de perguntas, Lu desconversou, risonha e nervosa. Dona Emília informou o coronel sobre a marcha dos acontecimentos: tudo vai bem, amanhã teremos novidades.

Tiveram, grandes e inesperadas. Pela manhã, maior de idade, dona de seus atos, Lu saiu de casa cedo e não voltou. Deixara um bilhete dirigido aos pais, dramático e lacônico: “Não me queiram mal, vou me casar com o homem a quem amo, adeus”. Correu o coronel Gomes ao escritório do doutor Passarinho, disposto a impedir de qualquer maneira o casamento, a reaver a filha, a botar Tadeu na cadeia.

Impossível qualquer providência legal, explicou o bacharel. A moça era maior, senhora legítima de sua vontade, capacitada para casar com quem quisesse. O pretendente não era do gosto dos pais? Uma lástima, sem dúvida, mas não havia outra coisa a fazer senão as pazes com o noivo, esquecendo divergências certamente de pouca monta.

Isso, jamais O coronel cruzava a sala em passos largos. Negro salafrário! Colega de Faculdade de Astério, fora acolhido em casa pelo coronel e dona Emilia que muitas vezes lhe mataram a fome. Aproveitara-se para virar a cabeça da menina, uma criança. Mulato sem pai e sem mãe, formado praticamente à base de esmolas, um zé-ninguém, um tal de Tadeu Canhoto.

— Desculpe-me, coronel, mas o doutor Tadeu Canhoto não é um zé-ninguém. Trata-se de um grande engenheiro, goza de real conceito, é homem de grande futuro. Quanto a Lu, já não é uma criança, tem vinte e um anos, e se abandona o lar paterno para casar-se com o doutor Tadeu é porque o ama de verdade.

— Um mestiço!

— Perdoe-me, coronel, porém ainda ontem eu próprio era candidato à mão de Lu e sobre minha pretensão consultei o senhor e dona Emília, recebendo dos dois aprovação de que muito me orgulho. No entanto, coronel, sou também mestiço e nem por isso...

— O senhor? Mestiço?

— O que lhe impressiona, prezado coronel, é a cor não a raça. Minha avó paterna era mulata, bem escura, coronel. Saí branco mas tenho um irmão médico em São Paulo, que é um morenão bonito, saiu à vovó sinhá Dona. Casou-se, aliás, com a filha de um italiano muito rico. Na Bahia, coronel, é difícil dizer quem não é mestiço.

— Minha família...

— Coronel, se sua filha gosta do doutor Tadeu, esqueça os preconceitos, vá lhe botar sua benção.

— Nunca! Para mim, no dia que ela casar com esse negro está morta e enterrada.

— Quando chegarem os netos...

— Doutor, não me fale nisso, nessa desgraça. Vou impedir esse casamento, seja como for. Vim aqui constituir o senhor meu advogado para meter o canalha na cadeia, eme ajudar a recolher Lu a um convento.

— Já lhe disse que não há nada a fazer, coronel, a lei...

— Que me importa a lei! O senhor é advogado, sabe que a lei não é feita para todos. Quem tem posses passa por cima da lei. O senhor está autorizado a gastar o que for necessário.

— Impossível, coronel. Não só a lei é clara como há um detalhe que o senhor desconhece: desde ontem sou advogado de sua filha Lu, contratado para garantir seus direitos de cidadã maior e capaz contra qualquer manobra para impedir seu casamento com o doutor Tadeu Canhoto. Assim sendo...

O coronel procurou amigos importantes, abriu a boca em ameaças, empenhou-se junto a autoridades. Investigadores receberam ordens de encontrar Tadeu e trazê-lo à polícia. Foram dar com ele na Tenda dos Milagres, em companhia do advogado Passarinho que o buscara por meia Bahia a fim de lhe pôr ao corrente das intenções do fazendeiro.

— O senhor é o meu rival? — sorriu Tadeu ao lhe apertar a mão.

— Creio que agora sou seu advogado. Custou-me descobri-lo, doutor.

Conversavam quando os secretas chegaram. Tadeu recusou-se a acompanhá-los: não cometi nenhum crime, não tenho nada a fazer na polícia.

— Senão for por bem, vai à força.

O advogado conseguiu contornar a situação prontificando a ir, ele próprio, ao Chefe de Polícia: “Eu o conheço bem, fomos contemporâneos na Faculdade, mantemos excelentes relações”.

No gabinete do Chefe de Polícia, o doutor Rui quis saber se o aparelho policial existia para garantir o cumprimento da lei ou para violá-la e colaborar na prática de abusos e ilegalidades.

— Meu caro, não se exalte. Recebi mais de dez pedidos, o coronel Gomes exige prisão e surra, eu apenas mandei convidar o indigitado indivíduo para comparecer à polícia e prestar esclarecimentos. Afinal, trata-se de rap-to de uma menor, filha de família da maior consideração.

— Rapto! Menor! Lu completou hoje vinte e um anos, legalmente é tão maior quanto você e eu. Saiu de casa por seus pés e deixou uma carta. Esclarecidos esses detalhes, pergunto se você sabe quem é o “indigitado indivíduo”.

Se não sabe, eu lhe digo. É o engenheiro Tadeu Canhoto, membro da equipe do doutor Paulo de Frontjn, seu homem de confiança. O professor Bernard, da Escola Politécnica, tem no bolso. uma procuração de Paulo de Frontin para representá-lo como padrinho no casamento do doutor Tadeu com a filha do coronel Gomes.

— Não me diga. Pensei que fosse um sedutor barato.

Prosseguiu o advogado em seu interrogatório: sabe onde a moça está hospedada? Em casa do professor Silva Virajá. Vai tirá-la de lá? Não bastavam ao Chefe de Polícia as dificuldades e criticas provocadas pelos desmandos do delegado Pedrito Gordo? Queria novas dores de cabeça? Ele, Passarinho, advogado do engenheiro, impedira-o de telegrafar a Paulo de Frontin expondo as ameaças da polícia.

— Não ameacei coisa nenhuma. Mandei convidá-lo a comparecer...

— Mandou dois bandidos com ordens de trazê-lo. Se eu não estivesse presente, eles arrastariam doutor Tadeu até aqui. Já imaginou as consequências? Você está jogando fora o cargo para servir aos caprichos de um coronel do Sertão. Se Frontin erguer um dedo, não há Governador que lhe sustente. Largue isso de mão, meu caro.

O Chefe de Polícia mandou avisar ao coronel que lamentava nada poder fazer, o caso escapava por completo às suas atribuições, recolheu os agentes. Tinha amor ao posto, com a comissão do bicho já comprara casa própria na Graça.

Em desespero, o coronel ameaçou fazer e acontecer, acabar o casamento a tiros, “romper a cara do negro no chicote”. Não fez nada, embarcou para a fazenda quando os proclamas foram fixados no Fórum e os banhos lidos na Igreja de São Francisco. Os comentários, os fuxicos, as comadres em risinhos e perguntas não ecoavam nas plantações e nas pastagens. O assunto se espalhara, ninguém falava noutra coisa na Bahia. A avó de Lu, a velha Eufrásia, mão de dona Emilia, nos limites da caduquice, recusou-se a acompanhar filha e genro ao exílio rural. Não tolerava a fazenda e nada tão de seu agrado quanto um disse-que-disse, prazer da velhice, o derradeiro. Fico sozinha com as empregadas e o chofer, para a fazenda não vou nem amarrada.

Dias depois, na mais estrita intimidade, realizou-se o casamento. Não em casa de Zabela, conforme fora anteriormente combinado. Tendo hospedado Lu, a pedido de Archanjo, o casal Silva Virajá ofereceu também o palacete e a champanha para a solenidade. Lu vacilou, no receio de magoar a anciã, Tadeu, porém, aceitou. “É muito mais conveniente, querida.” Zabela, em compensação, vestiu-se em grande estilo, parecia saída das páginas de uma revista do fim do século dezenove. Frei Timóteo oficiou o sacramento, o doutor Santos Cruz, na ocasião servindo em vara de família, legalizou o matrimônio. Discursaram ambos.

O frade, em duro português de quebrar pedra, louvou a comunhão dos corações amantes, abençoada união de raças, sangue e culturas diferentes. O juiz não fez por me-nos. Orador brilhante, sonetista com espaço nos jornais, em tiradas líricas exaltou o amor que se coloca acima das diferenças de raça e classe para criar mundos de beleza. Na opinião de Zabela em lágrimas o discurso do juiz foi “um hino ao amor, um poema, une merveille”.

Nas imediações da casa do sábio; em portais e esquinas, atentos e dispostos, os mais famosos capoeiristas da Bahia. Os dois mestres, Budião e Valdeloir, guardavam a porta da rua. Apesar da viagem do coronel para o interior, Pedro Archanjo mantivera as medidas de segurança. Não queria arriscar.