Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 71 de 77

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Tenda dos Milagres

Da pergunta e da resposta

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VOLTAMOS ao princípio, à cadeira de bar- beiro disse mestre Lídio Corró. Se tivesse de fazer a barba de fregueses, ainda saberia? Já não tinha, o pulso maneiro, a mão leve. Mão firme e astuciosa, no entanto, no risco de milagres. Riscar milagres é seu verdadeiro ofício e se o trocara pela oficina tipográfica tão mais rendosa, nunca abandonou completamente a antiga profissão e arte. Por falta de tempo recusava a maioria das encomendas, mas caia em tentação quando o milagre se impunha à sua inventiva pela raridade ou pela grandeza: “Milagre que fez o glorioso Sr. do Bonfim aos seiscentos passageiros do transatlântico inglês King of England, vitima de pavoroso incêndio na saída da barra da Bahia”. Seiscentos passageiros, todos protestantes, só um baiano e este, na hora do perigo, gritou, os olhos postos na Colina Santa: “Valei-me, meu Senhor do Bonfim !“ Prometeu quadro comemorativo para a igreja,matança de bezerro e bode para Oxalá, no mesmo instante gigantesca onda varreu o navio, apagou o incêndio sem tamanho. No dia da demissão e do cativeiro de Pedro Archanjo (“o negro está cativo, meu branco”, informara o secreta ao professor Argolo, a mando do Chefe de Polícia) após a passagem dos soldados pela Tenda dos Milagres, da oficina não sobrou nada. O aprendiz correra à polícia com anova estampada na cara: a patrulha invadira a tipografia, empastelara máquinas, estantes, destruíra as resmas de papel compradas fiado para completar a edição dos “Apontamentos” — “precisamos pelo menos de quinhentos exemplares, todo mundo quer comprar e ler”. Meteram os tipos em sacos de aniagem, de cambulhada com os livros. A ordem era apreender os exemplares dos “Apontamentos”, levaram junto os livros de Archanjo, salvaram-se apenas os que estavam guardados na mansarda, os de leitura quotidiana, de cabeceira. Lá se foram presos Hovelacque e Oliveira Martins, Frazer, Ellis e Alexandre Dumas, Couto de Magalhães, Franz Boas, Nina Rodrigues, Nietzsche, Lombroso e Castro Alves, muitos outros, extensa lista de filósofos, ensaístas, romancistas, poetas, dezenas de volumes, a tradução em espanhol de “O Capital” numa edição barata, de texto resumido, impressa em Buenos Aires e o “Livro de São Cipriano”.

Trazidos um a um por investigadores e soldados, os livros terminaram nos sebos. O próprio Archanjo ainda conseguiu reaver alguns, comprando-os a Bonfanti: “Vendo pelo preço que paguei, figlio mio, não ganho um vintém”. Dos “Apontamentos” foram apreendidos quarenta e nove volumes — os demais haviam sido enviados por mestre Corró a universidades, faculdades, bibliotecas,professores, críticos, redações, entregues às livrarias ou colocados diretamente — e nem todos “arderam nas fogueiras da Inquisição acesa na Central de Polícia pelos reclamos de Savonarola Argolo de Araújo” conforme relatou o professor Fraga Neto em carta a Silva Virajá. Vários foram vendidos às escondidas e a preço alto pelos secretas, e não houve comissário e delegado que não levasse seu exemplar para casa, para dar uma espiada na famosa lista da mulataria, seguindo o exemplo do Chefe de Polícia. “Não esqueçam de guardar um para o Governador !“

Devendo os olhos da cara, sem qualquer perspectiva de restaurar a oficina, com urgência de dinheiro, mestre Lídio vendeu as máquinas e as sobras de tipos quase a preço de ferro velho. Livre dos credores mais apressados, considerou-se bem pago do prejuízo: compadre Archanjo arrancara plumas e miçangas, a falsa pedraria a engalanar presunçosos e intolerantes professores de meia-tigela, sabidos de merda, cambada de gabolas, cavalos grandes, bestas de pau! Na Praça, expostos nus e rebocados, só lhes restou o chicote da polícia, os secretas e os soldados.No mais, foram o riso da cidade.

Dois mulatos fortes, dois alegres compadres. Mestre Lídio Corró risca milagres, mestre Pedro Archanjo ensina gramática e aritmética a meninos, tem uns quatro alunos de francês.

Em verdade, Lídio sente-se enfermo, vem de cumprir sessenta e nove anos. Se anda um pouco mais, as pernas incham, má circulação do sangue. O doutor David Araújo receitou vida pacata, severo regime alimentar, comida regrada sem dendê, sem coco, sem pimenta, nem um pingo de álcool. Só faltou lhe proibir mulher. Talvez não o tenha feito pensando que Lídio já amarrou o facão, já não cuida disso. Impossível, doutor, proibir dendê e cachaça a um homem que vem de perder seus magros bens na coronha das armas, nas patas dos soldados, e recomeça do nada. Quanto às mulheres, elas ainda o preferem a muito jovem. Se quiser saber, é só perguntar nas redondezas.

Oito anos mais moço, Pedro Archanjo não se queixa da saúde. Rijo e bem-posto, amigo de comer e de beber, sempre de rapariga nova e mais de uma. Não esconde, no entanto, o desprazer de ensinar meninos, já não possui a mesma paciência, o tempo é curto e precioso para esperdiçá-lo dando aulas de gramática.

Gostar, gosta mesmo é de uma boa prosa. De ir de porta em porta, de tenda em tenda, de casa em casa, de festa em festa. Assistir, na oficina do santeiro Miguel, à procissão dos aflitos e necessitados em busca do major Damião de Souza. Acontece-lhe passar ali manhãs inteiras, rabisca na pequena caderneta preta, há quem o tome por secretário do Major.

Gosta é de ouvir intimidades de orixás da boca de Pulquéria e de Aninha, histórias do tempo da escravidão contadas por velhos tios de carapinha branca; de presenciar os do Afoxé dos Pândegos da África, de cuja diretoria aceitou participar a pedido de mãe Aninha quando Bibiano Cupim, axogun do candomblé do Gantois, levantou novamente o glorioso estandarte e o levou à rua; de sentar no banco da orquestra na Escola de Capoeira de Mestre Budião ou na de Valdeloir, assumir o berimbau, puxar cantiga:

“Como vai como está Camunjerê Como vai de saúde Camunjerê Eu vim aqui lhe ver Camunjerê Pra mim é prazer Como vai como está Camunjerê.”

Gosta é de puxar cantiga no Terreiro, pondo a benção em feitas e iaôs, sentado junto à mãe-de-santo: “Kukuru, Kukuru Tibitiré la wodi la tibitiré.”

Coma do bom, coma do ruim, sempre se vive. Não é mesmo, pai Ojuobá? A benção, já vou indo, quem vier atrás feche as cancelas.

Enquanto mestre Lídio busca fregueses, anuncia a volta ao risco dos milagres — riscador igual a ele não houve nem haverá — mestre Archanjo reduz o número de alunos e de aulas, passa na rua o tempo inteiro, de um a outro a conversar, a rir, a perguntar, abra a boca, camarado, desamarre o novelo, dê jeito na charada. Ouve e conta e não há quem conte, com tanto preceito e graça, tantas passaladagens: só no fim da história entrega a chave da adivinha.

Tanta ânsia e urgência de viver nem na adolescência,quando, ao voltar do Rio, mergulhou na vida baiana. O tempo encurtou, os dias são menores, semanas e meses passam em correria, O tempo não chega para nada, e ainda o gasta a ensinar meninos. Quando Bonfanti lhe encomendou o livro sobre culinária, aproveitou-se do pretexto e despediu o resto dos alunos. Sentia-se agora completamente liberto de qualquer compromisso de horário ou contenção. Dono de seu tempo, restituído à rua e à gente.

Contempla mestre Lídio a apurar a mão no risco do milagre, a escolher as cores para a cena movimentada. Quarentona e gorda, caída na frente do bonde, o vestido roto, o sangue na coxa ferida, a perna quebrada, Dona Violeta fita numa súplica a imagem do Senhor do Bonfim. O dramático atropelo — queda arriscada, bonde assassino, olhar piedoso — tudo isso ocupa pequeno espaço no quadro. Nos dois terços restantes o bonde é festiva sala de visitas, onde passageiros, motorneiro, condutor e fiscais, um guarda-civil e um cachorro discutem o acontecido. O riscador trabalha figura por figura, um homem bigodudo, um negro velho tendo pela mão criança branca, a mulher amarela, o cachorro de um vermelho vivo.

De repente, levanta os olhos para Archanjo: — Meu compadre, você sabia que Tadeu chegou, está na Bahia?

— Tadeu chegou? Quando?

— Quando, não sei, já tem dias. Soube hoje, de manhãzinha, na barraca de Terência. Damião encontrou com ele na rua. Disse que vai para a Europa. Está em casa da família, de Lu...

— Família dele, meu bom. Não é genro do coronel, marido da filha?

— Não apareceu por aqui...

— Vai aparecer, com certeza. Chegou, tem coisas a tratar, passeios a fazer, parentes a visitar

— Parentes? E nós?

— Você é parente dele, meu bom? Desde quando? Por que ele lhe chamava de tio? Coisas de. aprendiz, meu camarado.

— E você, também não é?

— Sou parente de todo mundo e não sou de ninguém. Se fiz filhos, não os tenho, não fiquei com nenhum, meu bom. Não se afobe, quando Tadeu arranjar um tempo, vem por aqui. Para dizer adeus.

Lídio baixou os olhos sobre o quadro, a voz de Archanjo era neutra, quase indiferente. Onde o entranhado amor, aquela afeição maior do mundo?

— É falar no diabo, ele aparece — riu Pedro Archanjo e Lídio suspende a vista.

Na porta da Tenda, em elegância sóbria e esmerada, chapéu de palha, bigode bem cuidado, unhas feitas, colarinho alto, polainas, bengala com castão de madrepérola, um príncipe, Tadeu Canhoto disse:

— Só hoje tive conhecimento do que se passou. Já estava para vir aqui saber dos dois. Apressei-me, apenas me contaram. É verdade, então? Não conseguiram nem mesmo aproveitar as máquinas?

— Mas nos divertimos muito — esclareceu Archanjo.

— Tanto eu como compadre Lídio achamos que valeu a pena.

Tadeu entrou, veio até eles, beijou a mão do padrinho. Lídio, comovido, o tomou nos braços

— Está um lorde

— Na minha posição, devo apresentar-me bem vestido.

Pedro Archanjo considerou com olhos de amizade o importante senhor de pé em sua frente. Tadeu devia andar pelos trinta e cinco anos, tinha quatorze quando Doroteia

o trouxera ao Terreiro e o entregara a Archanjo: só fala em leitura e em conta, não me serve para nada mas não posso torcer o destino, mudar a sina do moleque. Também eu não posso torcer o destino, mudar os caminhos, parar o tempo, impedir a subida, compadre Lídio, meu bom. Tadeu Canhoto anda seu caminho, che gará ao topo da escada, para tanto se preparou, e nós, meu camarado, o ajudamos. Veja, Doroteia, seu menino a subir, vai longe.

— Quero saber como posso ajudar. Tenho um dinheiro meu, reservara para um problema a resolver na Europa. Já sabem, não? Obtive uma bolsa do governo para um curso de urbanismo na França. Lu vai comigo. Ao todo, levaremos um ano viajando. Na volta devo assumir o lugar do Chefe que vai se aposentar. Assim pelo menos consta, está mais ou menos certo.

— Você não escreve, como se havia de saber? — queixou-se Lídio.

— Cadê tempo? Vivo numa corrida, tenho sob minhas ordens duas equipes de engenheiros, todas as noites compromissos, saímos muito, Lu e eu. Um inferno — pelo tom da voz era fácil compreender quanto gostava daquele inferno: — Eu dizia que tenho um dinheiro, algumas economias. Pensava aplicá-las num tratamento para ver se Lu consegue atravessar uma gravidez sem abortar. Já perdeu três meninos.

— Guarde seu dinheiro, Tadeu, faça o tratamento de Lu nós não precisamos de nada. Decidimos acabar com a tipografia, muito trabalho, pouco lucro; Lídio se matando dia e noite. Para nós é melhor assim: o compadre risca seus milagres, veja que beleza de quadro está pintando. Eu ensino quando tenho tempo, ensinei a vida toda, agora o italiano me encomendou um livro, estou fazendo. Não precisamos de dinheiro, você precisa mais, uma viagem dessas não é brinquedo.

Tadeu mantivera-se de pé, a ponta da bengala fincada nas tábuas podres do assoalho. De súbito ficaram os três sem assunto, sem conversa. Finalmente Tadeu falou: — Senti muito a morte de Zabela. O coronel Gomes me contou que ela sofreu muito.

— Engano do coronel. Zabela tinha muitas dores, estava entrevada, adorava se queixar. Mas viveu alegre e contente até o último dia.

— Antes assim. Agora tenho de ir. Nem imaginam o mundo de despedidas que ainda temos a fazer. Lu desculpa-se por não ter vindo. Dividimo-nos, eu para um lado, ela para outro, só assim poderemos dar conta. Pediu-me que lhes transmitisse suas lembranças.

Após os abraços e os votos de boa viagem, quando Tadeu atravessava o batente da porta, Archanjo andou para ele, foi alcançá-lo na rua:

— Me diga uma coisa! Nessas suas andanças, você passará na Finlândia?

— Na Finlândia? Com certeza, não. Nada tenho a fazer lá. Nove meses na França, o tempo do curso. Depois uma vista d’olhos na Inglaterra, na Itália, na Alemanha, na Espanha, em Portugal, “a vol d’oiseau”, como diria Zabela — sorriu, ia retomar caminho, susteve o passo: — Finlândia, por quê?

— Por nada, não.