Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 66 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 19

— Só trabalho para o bem, nunca fiz feitiço para o mal.

— Ouça, cabra ruim: santo de igreja faz milagre, por isso é santo. Esses santos de vocês só fazem barulho, são uns santos de merda. No dia em que eu ver um milagre desses putos, nesse dia me demito do cargo — riu, tocou com a ponta da bengala o peito rasgado do negro: — Daqui a poucos dias vai fazer seis anos que baixo o pau em candomblé, já acabei com quase todos, vou acabar com o resto de uma vez. Nesse tempo todo nunca vi um milagre de orixá. Muito falatório e só.

Os secretas riram com ele, o doutor tinha graça, o doutor não tinha medo. Procópio ouviu a ameaça final:

— Ouça meu conselho: feche o Terreiro, jogue fora os atabaques, mande o santo à merda e eu lhe dou um lugar na polícia. Vida forra, pergunte a eles se não vale a pena. Porque, se bater outra vez, vai ser a última. Não sou de enganar ninguém.

— Meu santo ninguém vai me impedir de festejar.

— Pois faça e verá. Já lhe avisei.

Mau exemplo a manter viva a resistência, chama a iluminar a noite má e perigosa. Irredutível, Procópio não era cipó que se torcesse. Pedrito passeou o olhar pelos homens, um a um, a “malta de facínoras, os assassinos a serviço do delegado auxiliar”. Seis anos de comando lhe ensinaram o valor e a lealdade de cada componente da famigerada escolta, os cavalheiros da guerra santa. Homem de verdade, de absoluta confiança, coração sem medo, braço executor, cão fiel e submisso, apenas um, Zé Alma Grande.

19

As grandes festas de antigamente no Terreiro de Ilê Ogunjá haviam-se reduzido a pequeno grupo de feitas, velhas tias fatalistas, e a uns poucos ogans. Na festa de Oxossi até alabês faltaram. Não fosse a presença de Ojuobá e o pai-de-santo Procópio não teria quem assumisse o comando da orquestra. Correra voz que se Procópio ousasse abrir o barracão, o delegado Pedrito viria em pessoa e ai de quem estivesse presente. Ele próprio avisara ao pai-de-santo: se bater, será pela última vez.

Nos becos e caminhos já se dava Procópio por defunto. Os secretas não se reduziriam às prisões e às surras, à devastação dos pejis. A ordem era acabar com o babalorixá. Desprezando conselhos e avisos, Procópio decidiu abrir o Terreiro por ocasião do Corpus Christi, dia de Oxossi e saudar o orixá. Como não hei de fazer a festa de meu santo? — disse a Pedro Archanjo na Tenda dos Milagres. — Mesmo que me matem, tenho de cumprir com a obrigação, para isso recebi o deká.

Pedro Archanjo propôs a organização de uma brigada de capoeiristas para guardar o Terreiro e enfrentar os esbirros do delegado. Naquela guerra sem quartel, a polícia tinha matado muitos valentes, a começar por Manuel de Praxedes, um dos primeiros. Houve quem se amedrontasse e fugisse, alguns mudaram de vida, depuseram os berimbaus. Ainda restavam, no entanto, camaradas destemidos, Pedro Archanjo sabia onde buscá-los. Procópio recusou. Era melhor que o delegado, se viesse, encontrasse apenas a ele, as feitas e os alabês. Quanto menos gente, melhor.

Festa pobre de afluência mas rica de animação. Os santos desceram cedo e todos de vez, num rebuliço. Xangô e Yansan, Oxalá e Nanan Burokô, Euá e Roko, Yemanjá das águas, Oxumarê, cobra enorme no chão. No centro da sala, Oxossi, rei de Ketu, caçador de feras, na mão direita o arco-e-flecha, na esquerda o erukerê. Okê, aro!, saudou Pedro Archanjo Ojuobá. Na dança de Procópio, Oxossi dirigiu-se à porta do Terreiro, lançou seu grito de desafio. Ojuobá e a iakekerê puxavam as cantigas, ordenavam a dança, tudo em paz e em alegria. Okê arô, Oxossi!

O rumor dos automóveis marcou a hora da morte. Para certos trabalhos o delegado auxiliar Pedrito Gordo só depositava completa confiança em Zé Alma Grande, boca sem perguntas, coração sem dúvidas, em corpo tão grande não cabiam medo e remorso. Para calar de vez e para sempre um sedicioso, ninguém igual.

Por via de regra, Pedrito não utilizava Zé Alma Grande contra gente desarmada, em tarefas fáceis: batidas em candomblés, rodas de samba, ranchos e batuques. Cão de fila, homem de confiança, matador para missões mais arriscadas. Presente sempre que se tratava de enfrentar perigos verdadeiros, inimigos empedernidos, assassinos contumazes, adversários políticos bons no gatilho. Assim aconteceu na prisão de Zigomar: com um tabefe Zé Alma Grande pusera o celerado fora de combate. Quando, no Clube Comercial, Américo Monteiro atirou no delegado, praticamente à queima roupa, quem desviou a mira do revólver foi Zé Alma Grande que só não estrangulou o jornalista porque Pedrito queria dar de bengala no desafeto:“Largue o homem, Zé, quero ver se, desarmado, ele ainda é valente”.

Cabia também a Zé Alma Grande guardar a porta do castelo de Vicenza, em Amaralina, nas tardes de lazer do delegado metido a sedutor de mulheres casadas: dor de corno às vezes provoca valentia, Pedrito tinha a prova num talho na barriga.

Fora disso, as ordens em segredo, os trabalhos de responsabilidade, bem pagos. Apareciam defuntos nas sarjetas, a cabeça aberta a soco, marca de dedos no pescoço. Quando Alma Grande erguia as mãos imensas os mais valentes se acovardavam. Guga Maroto era um leão, um macho um tira-prosa. Ao sentir as garras de Zé Alma Grande na garganta, caiu de joelhos, implorou perdão.

Pela primeira vez o delegado auxiliar trouxe Zé Alma Grande a uma diligência em candomblé. Para o caso improvável de resistência, completou a caravana com Samuel Cobra Coral e Zacarias da Gomeia, um e outro inimigos pessoais de terreiros e orixás. Da porta, impecável no terno de linho inglês, a bengala na mão, o chapéu panamá, a piteira longa, um dândi, Pedrito dirigiu-se ao pai-de-santo:

— Procópio, eu lhe avisei!

Pedro Archanjo escutou a sentença de morte na voz do delegado. Os secretas aproximaram-se do Chefe, mestre Archanjo reconheceu Zé de Ogun. Não o via há muitos anos, desde que Majé Bassan proibira a entrada do renegado no Terreiro de Xangô e lhe retirara o direito a cantiga e dança por ter ele matado uma iaô. Quando no santo, sua força duplicava. Certa noite, na Conceição da praia, enraivecido por causa de uma sestrosa, recebeu o santo e terminou com a festa, pôs uma patrulha de soldados a correr. Só conseguiram prendê-lo no dia seguinte quando, inocente, dormia a sono solto na Rampa do Mercado. Foi nessa ocasião que o delegado Pedrito o recrutou, tirando-o do xadrez para a escolta. Os secretas chamaram-no Zé Alma Grande pela franqueza no falar e a tranquilidade no matar. Pedro Archanjo Ojuobá reconheceu Zé de Ogun: tudo podia acontecer.

— Pare, Procópio! Acabe com isso! — ordenou o delegado: — Entregue-se e eu deixo os outros irem embora.

— Sou Oxossi, comigo ninguém acaba!

— Vou acabar com você agora mesmo, santo de merda! — Pedrito Gordo apontou Procópio a Zé Alma Grande:

— Aquele. Vá buscá-lo, vivo ou morto.

Adiantou-se o negro maior do que um sobrado, Ojuobá percebeu com os olhos de Xangô um átimo de vacilação no passo do facínora ao penetrar no recinto sagrado do Terreiro. Samuel Cobra Coral e Zacarias da Gomeia tomaram posição, prontos para impedir qualquer protesto. Procópio prosseguiu na dança, era Oxossi, o caçador, senhor da selva, rei de Ketu.

Contam que, nessa hora exata, Exu, de volta do horizonte penetrou na sala. Ojuobá disse: Laroiê, Exu! Foi tudo muito rápido. Quando Zé Alma Grande deu mais um passo em direção a Oxossi, encontrou pela frente a Pedro Archanjo. Pedro Archanjo, Ojuobá ou o próprio Exu conforme opinião de muitos. A voz se abriu imperativa no anátema terrível, na objurgatória fatal!

— Ogun kapê dan meji, dan pelú oniban!

Do tamanho de um sobrado, os olhos de assassino, o braço de guindaste, as mãos de morte, estarrecido, o negro Zé Alma Grande parou ao ouvir o sortilégio. Zé de Ogun deu um salto e um berro, atirou longe os sapatos, rodopiou na sala, virou orixá, no santo sua força duplicava. Ogunhêl, gritou, e todos os i responderam: Ogunhê, meu pai Ogun!

— Ogun kapê dan meji, dan pelú oniban! — repetiu Archanjo: — Ogun chamou as duas cobras e elas se ergueram para os soldados!

Ergueram-se os braços do orixá, as mãos de tenazes eram duas cobras: Zé Alma Grande, Ogun em fúria, partiu para Pedrito.

— Está maluco, Zé?

Samuel Cobra Coral e Zacarias da Gomeia não tiveram escolha, puseram-se no caminho entre o Demônio e o Delegado. Com a mão direita Zé Alma Grande segurou Samuel Cobra Coral, o matador de Manuel de Praxedes, o bom gigante das alvarengas e navios. Suspendeu-o no ar, girou com ele como se fosse um brinquedo de menino. Depois, com toda a força o atirou no chão, de cabeça para baixo. A cabeça enterrou-se no pescoço, rotos os ossos da espinha, fraturada a base do crânio, defunto aos pés do delegado. Zacarias da Gomeia ia atirar, não teve tempo, levou um pontapé nos quimbas, no meio do urro desmaiou, não serviu para briga nunca mais.

Pedrito Gordo só sentira medo duas vezes em sua vida inteira e ninguém jamais soubera desses medos.

Da primeira vez era um adolescente, calouro de Direito, gigolô de putas velhas. Tendo feito misérias com uma infeliz, magricela e tísica, acordara no meio da noite com a desgraçada a lhe passar a navalha na carótida. No início da tarefa, já cortara a pele e fizera sangue, Pedrito ainda tem a marca. Tão bêbada, porém, que o moço após um instante de pavor, pôde dominá-la e com a mesma navalha lhe embelezou a face. Não teve testemunhas o medo do rapaz ao despertar e sentir a navalha na garganta.

Da segunda vez, bacharel e homem feito, na fazenda paterna se meteu de amores com a mulher de um cabra.Uma tarde, em hora de trabalho do agregado, encontrava-se Pedrito em cima da sem-vergonha quando sentiu a picada do facão em suas costas e a voz de cólera: vou lhe matar, seu filho-da-puta. O medo o amoleceu em cima da mulher. Foi salvo pelo grito de alguém, lá fora, chamando pelo cabra. No minuto de desatenção do chifrudo, o delegado se refez, tomou o facão do infeliz e lhe deu uma surra. Também desse medo ninguém soube — talvez a mulher o houvesse percebido no descompasso do coração do amante. A gente que acorreu para ver a briga presenciou a valentia de Pedrito a exemplar o cabra.