Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 18 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 2

Veio o carnaval inteiro saudar o Afoxé dos Filhos da Bahia, aplaudir a República libertária dos Palmares. Tanto sucesso assim não obteve sequer o Afoxé da Embaixada Africana, quando, em 1895, pela primeira vez se apresentou, mostrando a corte mirífica de Oxalá. Tampouco, três anos depois, ao exibir na cidade a corte do último rei do Daomé, Sua Majestade Pretíssima Agô Li Agbô. Nem os Pândegos da África, com o soba Lobossi e seu ritual angola. Nem os Filhos da Aldeia, em 1898, afoxé de caboclo, deslumbrante novidade que arrancou aplausos e elogios. Nenhum capaz de comparar-se aos Filhos da Bahia, no ano da proibição.

Veio o carnaval inteiro e com ele a cavalaria e a polícia. O povo reagiu, na defesa do afoxé, morra Chico Cagão, morra a intolerância. A batalha se estendeu, os cavalarianos desembainharam as espadas, foram batendo, pisando e derrubando nas patas dos cavalos –- o afoxé dissolveu-se na multidão. Gritos e ais, morras e vivas, gente machucada, correrias, quedas, trompaços, alguns guerreiros presas pelos esbirros, soltos pelo povo contumaz na briga e na folia.

Foi assim a primeira e última apresentação, o desfile único do Afoxé dos Filhos da Bahia, trazendo à rua Zumbi dos Palmares e seus combatentes invencíveis.

Um beleguim gritava ordens:

— Prendam aquele pardo, ele é o cabeça de tudo.

Mas o pardo cabeça de tudo, Pedro Archanjo, sumira num beco, ladeira abaixo, com mais dois. Um deles devia ser secretário de Zumbi, posto que, além de tanga levava caneta, pergaminho e um tinteiro azul a tiracolo. Quem podia ser esse escrevente senão Lídio Corró? Quanto ao segundo fugitivo, nele se reconhecia por branco e por far-dado a Domingos Jorge Velho, apesar de perdidos no ardor da refrega o chapéu de bandeirante e as barbas; na vida civil o galego Paco Muñoz, dono do botequim “A Flor do Carmo”.

Corriam os três em disparada, desabalados campeões. Mas, de repente, Pedro Archanjo, simples guerreiro de Palmares e chefe da baderna, susteve a maratona e começou a rir, a rir às bandeiras despregadas, um riso alto, claro e bom de quem rompera a ordem injusta e proclamara a festa; abaixo o despotismo, viva o povo, límpido e infinito riso de alegria, fit-ó-fó, fít-ó-cu, viva e viva, vivoô!

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Sua última Troça Carnavalesca, Os Filhos da Bahia: em 1918 os afoxés retornaram, após quinze anos de proibição, mas Archanjo já não lhes deu tempo e o interesse de antes, embora ainda tivesse participado, a pedido de mãe Aninha, da diretoria dos Pândegos da África quando seu glorioso estandarte voltou a percorrer o carnaval, levantado nas mãos de Bibiano Cupim, axogun do candomblé dos Gantois.

Afoxé significa encantamento, e o primeiro de todos, o inicial, fora posto em mãos de Pedro Archanjo por Majé Bassan, a temível: Archanjo viera lhe comunicar a decisão e pedir bênção e conselho. Lídio Corró, José Aussá, Manoel de Praxedes, Budião, Sabina e ele, de acordo com um pessoal animado do Tororó, pretendiam organizar uma Folia Carnavalesca, a Embaixada Africana, em honra dos encantados e para exibir no entrudo a civilização de onde provinham negros e mulatos.

Mãe Majé Bassan fez o jogo para saber qual o dono da Embaixada e qual o Exu a protegê-la. Apregoou-se dona a sereia do mar, Yemanjá, e Exu Akssan assumiu os cuidados e a responsabilidade. Assim sendo, a iyalorixá trouxe o pequeno chifre de carneiro, encastoado em prata, contendo axé, o alicerce do mundo. Este é o afoxé, disse, e sem ele ou outro igual em fundamento, nenhuma Folia ou Troça de Carnaval deve sair à rua nem atrever-se.

— Este é o afoxé, o encantamento. — repetiu e o colocou nas mãos de Pedro Archanjo.

A Embaixada Africana, o primeiro afoxé a vir disputar a preferência e os aplausos na praça pública, — enfrentando as Grandes Sociedades, a todo-poderosa Cruz Vermelha, o monumental Congresso de Vulcano, os Fantoches da Euterpe, os Inocentes em Progresso — saiu no ano de 1895, com Lídio Corró de Embaixador, mestre-de cerimônia, coreógrafo sem igual. A seu aviso, o Dançador, Valdeloir, um rapaz do Tororó, suspendia o afoxé e tirava o canto: “Afoxé loni E loni Afoxé ê loni é.”

O coro ia avante, na cantiga e na dança:

“E loni ô malé xê.’

Tem encantamento hoje, diziam, hoje tem encantamento. A Corte de Oxalá, tema escolhido para o préstito, obteve tal sucesso que já no ano seguinte o Afoxé dos Pândegos da África juntava-se à Embaixada, fundado e dirigido por uma gente de nação angola, com sede em Santo Antônio Além do Carmo. Mais um ano e eram cinco a entoar o canto dos negros e mulatos, até então reduzido ao esconso das macumbas — e o samba nas ruas foi de todos.

Tão do agrado de todos esse canto dos negros, esse samba-de-roda, a dança, o batuque, o sortilégio dos afoxés — que outro jeito senão proibi-los?

As gazetas protestavam contra o “modo por que se tem africanizado, entre nós, a festa do Carnaval, essa grande festa de civilização”. Durante os primeiros anos do novo século, a campanha de imprensa contra os afoxés cresceu violenta e sistemática a cada sucesso dos “cordões dos africanos” e a cada fracasso das Grandes Sociedades Carnavalescas — com a Grécia Antiga, com Luís XV, com Catarina de Médicis —, ai-jesus dos senhores do comércio, dos doutores, dos ricos. “A autoridade deveria proibir esses batuques e candomblés, que, em grande quantidade, alastram as ruas nesses dias, produzindo essa enorme barulhada, sem tom nem som, como se estivéssemos na Quinta das Beatas ou no Engenho Velho, assim como essa mascarada vestida de saia e torço, entoando o abominável samba, pois que tudo isso é incompatível com o nosso estado de civilização”, bradava o “Jornal de Notícias”, poderoso órgão das classes conservadoras.

Alastravam as ruas os afoxés, a corromper, a envilecer. O povo, nos requebros do samba, já não tinha olhos nem admiração para os carros alegóricos das Grandes Sociedades, para seus temas da corte da França; distante o tempo “quando o entusiasmo explodia à passagem dos clubes vitoriosos, monopolizando todas as atenções”, O editorialista exigia providências radicais: “O que será do Carnaval de 1902, se a polícia não providenciar para que nossas ruas não apresentem o aspecto desses terreiros onde o fetichismo impera com seu cortejo de ogans e sua orquestra de ganzás e pandeiros? “Os afoxés na praça e na rua, em primazia; cada qual mais triunfal e rico em cores e em melodias, em passos de samba — em frente ao Politeama, no Campo Grande, na Rua de Baixo, no Largo do Teatro. Obtinham triunfo e mais triunfo, aplausos, palmas e até prêmios. Alastravam as ruas, afoxés e samba, uma epidemia. Só um remédio drástico.

Em 1903, quando treze afoxés de negros e mulatos desfilaram seus cortejos portentosos (“Romperão o préstito, atroando os ares com estridentes notas de seus instrumentos, DOIS CLARINS, os quais envergarão LINDOS COSTUMES DE TUNIS como prova de que a civilização não é UTOPIA NO CONTINENTE NEGRO, como propalam os maldizentes” — assim começava o manifesto ao povo, de um dos afoxés), em 1903, após o entrudo, o jornalista cobriu a cabeça de cinza e de vergonha: “Se alguém julgar a Bahia pelo Carnaval, não pode deixar de colocá-la a par da África, e note-se, para nossa vergonha, que aqui se acha hospedada uma comissão de sábios austríacos, que naturalmente, de pena engatilhada, vai registrando esses fatos, para divulgar nos jornais da culta Europa”. Onde estava a polícia? Que fazia “para demonstrar que esta terra tem civilização”? A continuar essa escandalosa exibição de África: as orquestras de atabaques, as alas de mestiças e de todos os graus de mestiçagem — desde as opulentas crioulas às galantes mulatas brancas —, o samba embriagador, esse encantamento, esse sortilégio,esse feitiço, então onde irá parar nossa latinidade? Pois somos latinos, bem sabeis, se não sabeis, aprendereis à custa de relho e de porrada.

A polícia finalmente agiu em defesa da civilização e da moral, da família, da ordem, do regime, da sociedade ameaçada e das Grandes Sociedades, com seus carros e graciosos préstitos de elite: proibiu os afoxés. o batuque, o samba, “a exibição de clubes de costumes africanos”. Ainda bem, antes tarde do que nunca. Agora podem desembarcar sábios austríacos, alemães, belgas, franceses,ou da loira Albion. Agora, sim, podem vir.

Mas quem veio foi Kirsi, a sueca, que aliás, corrija-se logo, não era sueca como todos pensaram, disseram e ficou sendo; e, sim, finlandesa de trigo e espanto. Cheia de espanto e chuva, na porta do Mercado do Ouro, na manhã da quarta-feira de cinzas, um trejeito de medo e os olhos de infinito azul.

Levantou-se Pedro Archanjo da mesa de cuscuz e inhame, sorriu seu sorriso aberto, para ela andou direto e firme, como se o houvessem designado para recebê-la, e lhe estendeu a mão: — Venha tomar café.

Se compreendeu ou não o matinal convite, jamais se soube, mas o aceitou; sentou-se à mesa na barraca de Terência e gulosa devorou aipim, inhame, bolo de puba, cuscuz de tapioca.

A impetuosa Ivone roeu seu ciúme na tenda de Miro, em murmúrio de xingos: “barata descascada”. Terência pousou na mesa os olhos tristes, quem sabe mais tristes. A convidada, farta de comer, disse uma palavra em sua língua e para todos riu. O moleque Damião, até ali em silêncio e de pé atrás, se entregou por fim e riu também:

— Branca mais branca, de alvaiade.

— É sueca. — esclareceu Manuel de Praxedes, que vinha chegando por um café e um trago. — Saltou do barco sueco, esse cargueiro que está recebendo madeira e açúcar, veio na mesma alvarenga em que eu vim. — Manuel de Praxedes trabalhava na carga e descarga dos navios. — De vez em quando uma dona rica e doida embarca num mercante para conhecer o mundo.

Não tinha cara de rica nem de doida; pelo menos ali, na barraca, ainda úmida, os cabelos colados ao rosto, tão inocente e frágil, doce menina.

— O barco sai às três, mas ela sabe que tem de embarcar antes, vi o comandante conversando com ela, na hora de descer.

Tocando com o dedo no peito, ela disse: — Kirsi — disse e repetiu abrindo as sílabas.

— Ela se chama Kirsi — entendeu Archanjo, e pronunciou: Kirsi.

A sueca bateu palmas, de alegre aprovação, e tocou o peito de Archanjo, perguntando algo em sua língua. Manuel de Praxedes desafiou: “decifre a charada, vamos meu compadre sabichão”.