Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 68 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 21

Naquele tempo inicial tinham derrotado e demitido o diretor da Polícia, doutor Francisco Antônio de Castro Soromenho, que proibira o desfile de ranchos e afoxés, o batuque e o samba. Bons tempos aqueles, hein, compadre!, quando jovens e afoitos saímos no Afoxé dos Filhos da Bahia, fit-ó-fó para a polícia, viva o povo e sua festa! Se lembra, compadre? Essa briga é comprida de nunca se acabar. O major Damião de Souza, um menino, arrancou o quepe de um soldado, o finado Manuel de Praxedes representava o papel de Zumbi. Nunca mais se parou de brigar, compadre: na rua e no Terreiro; no livro e no jornal, na tinta e na pedra, na festa e no barulho. Luta mais comprida, briga mais sem fim. Será que um dia se acaba, meu compadre?

Um dia vai se acabar, meu bom, não será no nosso tempo, camarado. Vamos morrer brigando, na briga nos divertindo. Pedrito na frente, na corrida, Ogun atrás, as mãos de cobras, deixe-me rir, compadre, coisa tão engraçada nunca vi. Vamos morrer brigando. Jovens e afoitos, meu bom. fit-ó-fó para a polícia, viva o povo da Bahia!

21

Certa noite, bastante tempo após os acontecimentos do candomblé de Procópio, alguns homens voltavam de automóvel de uma festa na Casa Branca, o Terreiro do Engenho Velho, restaurado em sua grandeza. O carro pertencia ao professor Fraga Neto, livre-docente de parasitologia no exercício da cátedra, e com ele vinham frei Timóteo — assim, vestido à paisana, de paletó e longas barbas, a pele rosada de holandês, parecia um russo de prestação — o santeiro Miguel e Pedro Archanjo. Foram deixar o frade no convento e dali o santeiro tomou rumo, habitava num quartinho na mesma rua do Liceu onde instalara sua tenda de imagens.

O professor Fraga Neto trouxera da Alemanha hábitos de noctívago e o gosto da cerveja

— Que lhe parece molhar a goela, mestre Pedro? Estou com a boca seca, essa comida de azeite é muito boa mas me deixa sedento.

— Uma cervejinha cai bem.

Sentados no Bar Perez, na esquina do Terreiro, tendo ao lado a Catedral e em frente a Faculdade de Medicina, sorvidos os primeiros goles, o professor Fraga Neto puxou o fio da conversa

— Aqui não somos o professor e o bedel da cadeira de parasitologia, somos dois homens de ciência e dois amigos. Podemos conversar francamente e, se você quiser,pode me. chamar “meu bom” como faz com todo mundo. Porque hoje quero que você me explique determinadas coisas.

Amigos? — pensou Archanjo. Mútua e forte simpatia ligava o professor e o bedel. Fraga Neto, cheio de ímpeto e generosidade, fácil de entusiasmo e afirmação, árdego no debate, explosivo, encontrara em Archanjo a madura experiência, a segurança, o ímpeto insubornável revestido de mansidão e alegria de viver. Pode um bedel ser amigo de um professor? Archanjo considerava-se amigo de Silva Virajá. Por muitos anos, mais de quinze, sentira o calor do afeto quase paternal do sábio, se bem não fosse grande a diferença de idade a separá-los. Durante todo esse tempo a mão do mestre indicara-lhe caminhos, dera-lhe amparo o apoio, em constante e silenciosa assistência. Amigo também de Fraga Neto que, para começar, na discussão da tese de concurso, citara trecho das “Influências Africanas nos Costumes da Bahia” e buscava continuamente o trato e companhia de Archanjo. Várias vezes fora à Tenda dos Milagres: já não a conheceu ruidosa e boêmia praça de dança e canto, agora modesta e movimentada oficina gráfica onde à noite os principais e os venerandos se reuniam para discutir de um tudo. Amigos, com certeza, amizade diferente, porém, da que o ligava a Lídio, Budião, a Valdeloir, a Aussá, a Mané Lima e a Miguel: esses eram amigos e iguais, Silva Virajá e Fraga Neto estavam em outro degrau. Mestre Archanjo não o quisera escalar nem quando para isso lhe estenderam mão amiga. O major Damião, um pé embaixo e outro em cima, só ele era capaz desse equilíbrio. E Tadeu? Não dava notícias há muito tempo. Mestre Pedro Archanjo sorve o gole de cerveja. O professor Fraga Neto perscruta a face do bedel: que se esconde na sombra desses olhos, na mansidão de bronze? Em que pensa, qual a sua medida de viver?

Fraga Neto ia à Tenda em busca de contato com o povo com “as massas trabalhadoras”, conforme sua expressão. Por vezes, ouvindo-o falar .da vida europeia, dos estudos, do movimento político, da agitação operária, Pedro Archanjo sentia-se velho, homem de outro tempo a escutar a linguagem nova de profeta generoso de um mundo onde não pudessem subsistir nem, mesmo as sutis diferenças a separar Archanjo e Fraga Neto.

— Pois, meu bom — disse o professor arremedando Archanjo e lhe interrompendo os pensamentos, — há uma coisa que me escapa e me deixa curioso. Sobre ela, há muito desejava lhe falar.

— Que coisa é? Diga e, se puder, responderei.

— Pergunto como é possível que você, um homem de ciência, sim, um homem de ciência, por que não? Por que não é formado? Vamos deixar de conversa fiada e dizer as coisas como elas são. Pergunto como é possível que você acredite em candomblé.

Esvaziou o copo de cerveja, voltou a enchê-lo: — Porque você acredita, não é? Se não acreditasse, não se prestaria a tudo aquilo: cantar, dançar, fazer aqueles trejeitos todos, dar a mão a beijar, tudo muito bonito, sim, senhor, o frade chega a se babar de gosto, mas, vamos convir, mestre Pedro, tudo muito primitivo, superstição, barbarismo, fetichismo, estágio primário da civilização. Como é possível?

Pedro Archanjo ficou um tempo em silêncio, empurrou o copo vazio, pediu ao espanhol um trago de cachaça: daquela que você sabe e não de outra.

— Eu podia dizer que gosto de cantar, de dançar, frei Timóteo gosta de assistir, eu gosto de fazer. Seria bastante.

— Não, você sabe que não. Quero saber é como você pode conciliar seu conhecimento científico com as obrigações de candomblé. Isso é o que eu desejo saber. Sou materialista, você sabe, e por vezes pasmo ante certas contradições do ser humano. Esta sua, por exemplo. Parece haver dois homens em você: o que escreve os livros e o que dança no Terreiro.

Chegara a cachaça, Pedro Archanjo emborcou o copo: aquele bisbilhoteiro queria a chave da adivinha mais difícil, do cabuloso enigma:

— Pedro Archanjo Ojuobá, o leitor de livros e o bom de prosa, o que conversa e discute com o professor Fraga Neto e o que beija a mão de Pulquéria, o iyalorixá, dois seres diferentes, quem sabe o branco e o negro? Não se engane, professor, um só. Mistura dos dois, um mulato só.

Voz severa e lenta, de desabitual gravidade, cada palavra arrancada do peito.

— Como lhe é possível, mestre Pedro, conciliar tantas diferenças, ser ao mesmo tempo o não e o sim?

— Sou um mestiço, tenho do negro e do branco, sou branco e negro ao mesmo tempo. Nasci no candomblé, cresci com os orixás e ainda moço assumi um alto posto no Terreiro. Sabe o que significa Ojuobá? Sou os olhos de Xangô, meu ilustre professor. Tenho um compromisso, uma responsabilidade.

Bateu na mesa chamando o garção. Mais cerveja para o professor, cachaça para mim: — Se acredito ou não? Vou dizer ao senhor o que até agora só disse a mim mesmo e, se o senhor contar a alguém, serei obrigado a lhe desmentir.

— Fique descansado.

— Durante anos e anos acreditei nos meus orixás como frei Timóteo acredita nos seus santos, no Cristo e na Virgem. Nesse tempo tudo que eu sabia aprendera na rua. Depois busquei outras fontes de saber, ganhei novos bens, perdi a crença. O senhor é materialista, professor, não li os autores que o senhor cita, mas sou tão materialista quanto o senhor. Ainda mais, quem sabe?

— Ainda mais? E por quê?

— Porque sei, como o senhor sabe, que nada existe além da matéria mas sei também que, mesmo assim, às vezes o medo enche meu tempo e me perturba. O meu saber não me limita, professor.

— Explique isso.

— Tudo aquilo que foi meu lastro, terra onde tinha fincado os pés, tudo se transformou num jogo fácil de adivinhas. O que era milagrosa descida dos santos reduziu-se a um estado de transe que qualquer calouro da Faculdade analisa e expõe. Para mim, professor, só existe a matéria. Mas nem por isso deixo de ir ao Terreiro e de exercer as funções de meu posto de Ojuobá, cumprir meu compromisso. Não me limito como o senhor que tem me do do que os outros possam pensar, tem medo de diminuir o tamanho de seu materialismo.

— Sou coerente, você não é! — explodiu Fraga Neto: — Se não acredita mais, não acha desonesto praticar uma farsa, como se acreditasse?

— Não. Primeiro, como já lhe disse, gosto de dançar e de cantar, gosto de festa, antes de tudo de festa de candomblé. Ademais, há o seguinte: estamos numa luta, cruel e dura. Veja com que violência querem destruir tudo que nós,negros e mulatos, possuímos, nossos bens, nossa fisionomia. Ainda há pouco tempo, com o delegado Pedrito, ir a um candomblé era um perigo, o cidadão arriscava a liberdade e até a vida, O senhor sabe disso, já conversamos a respeito. Mas, sabe quantos morreram? Sabe por acaso por que essa violência diminuiu? Não acabou, diminuiu. Sabe por que o delegado foi posto na rua? Sabe como se deu?

— Já ouvi contar, mais de uma vez. Uma história de absurdos com seu nome no meio.

— O senhor pensa que, se eu fosse discutir com o delegado Pedrito, como estou discutindo com o senhor, teria obtido algum resultado? Se eu houvesse proclamado meu materialismo, largado de mão o candomblé, dito que tudo aquilo não passava de um brinquedo de crianças, resultado do medo primitivo, da ignorância e da miséria, a quem eu ajudaria? Eu ajudaria, professor, ao delegado Pedrito e sua malta de facínoras, ajudaria a acabar com uma festa do povo. Prefiro continuar a ir ao candomblé, ademais gosto de ir, adoro puxar cantiga e dançar em frente aos atabaques.

— Assim, mestre Pedro, você não ajuda a modificar a sociedade, não transforma o mundo.