Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 26 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 10

No corte da madeira, no risco do milagre, no ai do boticão, na venda de mezinhas, na lanterna mágica, mestre Lídio Corró ganha seu rico e suado dinheirinho. Mas naquela mesma sala se discute e se decide sobre um ror de coisas. Ali nascem as ideias, crescem em projetos e se realizam nas ruas, nas festas, nos terreiros. Debatem-se assuntos relevantes, a sucessão de mães e pais-de-santo,cantigas de fundamento, a condição mágica das folhas, fórmulas de ebós e de feitiços. Ali se fundam ternos de reis, afoxés de carnaval, escolas de capoeira, acertam-se festas, comemorações e tomam-se as medidas necessárias para garantir o êxito da lavagem da Igreja do Bonfim e do presente da Mãe D’água. A Tenda dos Milagres é uma espécie de Senado, a reunir os notáveis da pobreza, assembleia numerosa e essencial. Ali se encontram e dialogam iyalorixás, babalaôs, letrados, santeiros, cantadores, passistas, mestres de capoeira, mestres de arte e ofícios, cada qual com seu merecimento.

Foi a partir desse tempo, moço de vinte e poucos anos, que Pedro Archanjo deu na mania de anotar histórias, acontecidos, notícias, casos, nomes, datas, detalhes insignificantes, tudo quanto se referisse à vida popular.Para quê? Quem sabe lá. Pedro Archanjo era cheio de quizilas, de saberes e certamente não se devera ao acaso sua escolha, tão moderno ainda, para alto posto na casa de Xangô: levantado e consagrado Ojuobá, preferido entre tantos e tantos candidatos, velhos de respeito e sapiência. Coube-lhe no entanto, o título, com os direitos e os deveres; não completara ainda trinta anos quando o santo o escolheu e o declarou: não pudera haver maior acerto — Xangô sabe os porquês.

Uma versão circula entre o povo dos terreiros, corre nas ruas da cidade: teria sido o próprio orixá quem ordenara a Archanjo tudo ver, tudo saber, tudo escrever. Para isso fizera-o Ojuobá, os olhos de Xangô.

Aos trinta e dois anos, exatamente em 1900, Pedro Archanjo foi nomeado bedel da Faculdade de Medicina e assumiu seu posto no Terreiro. Logo popular entre os estudantes, em breve lhes ensinava rudimentos das matérias. O lugar fora obtido graças à intervenção de Majé Bassan, multipotente em suas relações e amizades, temida até por graúdos do governo. Com frequência, ao ouvira citação do nome de um bambambã da política, do comércio, de um potentado, até mesmo de sacerdotes da igreja, mãe Bassan murmura: “Esse é dos meus”. Entre to-dos, moços, velhos ou novos, pobres ou ricos, Pedro Archanjo era o preferido, o corifeu.

10

Ensaia Kirsi entre as pastoras, é a nova estrela d’alva, a própria, a verdadeira. Irene, a anterior, renunciara para ir viver com um relojoeiro, no Recôncavo. Se não o fizesse, a cidade de Santo Amaro da Purificação acabaria sem calendário, sem hora e sem minuto para os engenhos de cana e os alambiques: quando o relojoeiro, de passagem na Bahia, viu Irene no Terno, ficou desatinado.

As pastoras vão e vêm no passo do lundu, atentas às ordens de Lídio Corró, o mestre-sala. À frente de todas passa Kirsi e recolhe o olhar, o sorriso aprovador de Archanjo. Um pouco mais atrás também Dedé o recolhe no palpitante seio; a pequena Dedé, tão novinha e cabaçuda,já querendo inaugurar o balancê: “Bote a burrinha pra dentro Pro sereno não molhar. O selim é de veludo, A colcha de tafetá”

Quem esteve no ensaio pôde ver, cutuba e luminosa, Kirsi de estrela d’alva, mas o povo da cidade não chegou a tê-la no desfile, não deu tempo. Outro navio veio e a levou: permanecera quase seis meses; diziam-na sueca, só uns poucos a souberam finlandesa mas todos a estimaram.Acolhida sem perguntas, fora um deles.

Quando o cargueiro fundeou no porto, ela disse a Archanjo em seu reduzido português de sotaque marinheiro: é tempo que me vá, levo no ventre o nosso filho. Tudo que é bom tem sua duração exata, tem de se acabar no prazo certo se quisermos que perdure para sempre. Levo comigo o sol, tua música e teu sangue, estarás onde eu esteja e em todos os instantes. Obrigado, Oju.

Manuel de Praxedes a conduziu na alvarenga e o mercante levantou âncora no meio da .noite. Pedro Archanjo na sombra das estrelas, sua face de pedra. O navio apitou ao sair da barra, nas portas do oceano, não te direi adeus. Um menino cor de bronze, mestiço da Bahia, correrá na neve.

Na fimbria do mar, brincalhona, Dedé canta modas de reisado:

“Rapariga do balaio

Dá-me um gole pra beber

Cipriana tu não dês

Que nos deitas a perder.”

Lá, mais além das ilhas, no rumo dos nevoeiros e das estrelas lívidas, navega um lugre cinzento para o frio Norte, leva a estrela d’alva. Dedé quer alegrá-lo, abrir-lhe em riso a boca de silêncio, a face de pedra. Dedé será a nova estrela, sem a fulva cabeleira de cometa, sem o luminoso halo, mas com um calor de trópico, um desmaio e aquele perfume de alfazema. Dedé, a rapariga do balaio, do balaio grande.

“Não há no mundo gente melhor do que vocês, povo mais civilizado do que o povo mulato da Bahia”, dissera a sueca ao despedir-se na Tenda dos Milagres, em conversa com Lídio, Budião e Aussá. Chegara de longe, vi-vera com eles, dizia por saber, um saber sem restrições ou dúvidas, de real conhecimento. Por que então o doutor Nilo Argolo — catedrático de Medicina Legal na Faculdade e mentor científico da congregação, com renome de sábio e descomunal biblioteca — escrevera sobre os mestiços da Bahia aquelas páginas terríveis, as candentes palavras?

O título da magra separata, memória apresentada a um congresso científico e transcrita numa revista médica, já lhe revelava o conteúdo: “A degenerescência psíquica e mental dos povos mestiços — o exemplo da Bahia”. Meu Deus, onde fora o professor buscar afirmações assim tão categóricas? “Maior fator de nosso atraso, de nossa inferioridade, constituem os mestiços uma sub-raça incapaz”.

Quanto aos negros, na opinião do professor Argolo, não tinham ainda atingido a condição humana: “em que parte do mundo puderam os negros constituir Estado com um mínimo de civilização?”, perguntara ele a seus colegas de Congresso.

Numa dessas tardes, de claro sol e doce brisa, Archanjo vinha pelo Terreiro de Jesus em seu passo levemente gingado. Fora levar um recado do secretário da Faculdade ao prior dos franciscanos, um frade holandês de barbas e careca, afável: com evidente prazer degustava um cafezinho, serviu ao risonho bedel

— Eu conheço o senhor... — falou com seu acento crespo.

— Passo o dia quase todo aqui na praça, na Escola.

— Não foi aqui — o frade riu um riso cheio e folgazão — Sabe onde foi? Foi no candomblé. Só que eu estava de civil, escondido num canto e o senhor numa cadeira especial, junto da mãe-de-santo.

— O senhor, padre, no candomblé?

— Às vezes vou, não diga a ninguém. Dona Majé é minha camarada. Ela me disse que o senhor é muito competente em coisas de macumba. Um dia desses, se o senhor me der o prazer, desejo conversar consigo... — Archanjo sentiu a paz do mundo no claustro de árvores frondosas, flores e azulejos; a paz do mundo no envolvente franciscano. — Quando quiser, estou às ordens, padre.

Vinha pelo Terreiro em direção à Faculdade: um padre, um frade de convento, assistindo candomblé, uma surpresa, novidade digna de nota; viu-se envolvido por um grupo de estudantes.

As relações de Pedro Archanjo com os alunos de medicina eram muito boas. Prestativo, atento, jovial, o bedel da secretaria não se furtava nunca a ajudar os rapazes em suas dificuldades de presença e faltas; guardava-lhes livros, cadernetas, notas. Um mundo de mínimos favores, a camaradagem de longas conversas. Calouros e doutorandos iam vê-lo na Tenda dos Milagres ou na Escola de Capoeira de Mestre Budião, dois ou três assistiram festas de candomblé.

Com eles, e com os altos funcionários e os professores, Archanjo era solícito e gentil, jamais humilde, reverente ou adulador — assim é o povo da Bahia. O homem mais pobre da cidade é igual ao mais poderoso magnata, em seu orgulho de homem; e é, com certeza, mais civilizado.

A simpatia dos rapazes pelo modesto funcionário fizera-se sólida e agradecida quando Pedro Archanjo, num depoimento decisivo, salvou um estudante, ameaçado de expulsão no sexto ano, devido a confuso e complicado assunto, que afetava a honra familiar de um professor livre-docente. No inquérito, o testemunho de Archanjo, de plantão na secretaria, inocentara o moço contra o qual se erguera a ira do ultrajado lente. Os estudantes tinham-se unido em defesa do colega mas eram pessimistas quanto ao resultado. Embora admitido há pouco nas funções de bedel, Archanjo não se deixara envolver nem intimidar.Ganhou a estima dos rapazes e a inimizade do docente que, aliás, abandonou a turma em meio ao curso.

Ao chegar ao chafariz, no centro da Praça, foi cercado pelo grupo e um dos estudantes, quartanista pachola, dado a festas e a trotes, apreciador dos talentos de Archanjo ao violão e ao cavaquinho — ele próprio dedilhava com agrado as cordas da viola —, exibiu-lhe um folheto.“Que acha disto, mestre Pedro?” Os outros riam, na evidente intenção de gozar o mulato janota e boa praça.

Archanjo passou a vista pelas páginas, seus olhos se fizeram pequenos e vermelhos. Para o doutor Nilo Argolo a desgraça do Brasil era aquela negralhada, a infame mestiçagem.

— O professor descasca você, não deixa vasa — comentou, a divertir-se o quartanista. — De ladrão e assassino para baixo, não faz por menos. Você está na fronteira entre o irracional e o racional. E os mulatos são piores que os negros, veja lá. O Monstro acaba com você e sua raça, mestre Pedro.

Pedro Archanjo veio vindo de muito longe, recompunha-se:

— Só comigo, meu bom? — fitou o cabelo do rapaz, a boca, os lábios, o nariz. — Acaba com todos nós, com to-dos os mestiços, meu bom. Comigo, com você... –— e passando o olhar pelos demais — ... nesse grupo ninguém escapa, nem um para remédio.

Risos breves, desenxabidos, dois ou três às gargalhadas. O quartanista confessou com bom humor:

— Com você ninguém leva vantagem; já reduziu a nada as árvores genealógicas da gente.

Do grupo destacou-se um rapazola, o ar distante e impertinente:

— A minha, não — o estulto cavalgava quatro sobrenomes e duas partículas de nobreza. — Na minha família o sangue é puro, não se sujou com negros, graças a Deus.

Archanjo dissolvera o ódio e agora se diverte; sente- se forte de um conhecimento absoluto, e sabe que a tese do doutor Nilo — um babaquara, um porrão de merda — é só erro e calúnia, presunção e ignorância.

Olhou o rapazinho.

— Tem certeza, meu bom? Quando você nasceu sua bisavó já era morta. Sabe como ela se chamava? Maria Iabaci, seu nome de nação. Seu bisavô, homem direito, casou com ela.

— Negro insolente, vou lhe partir a cara.

— Pois, meu bom, não se acanhe, corra dentro.

— Cuidado, Armando, ele é capoeirista — avisou um companheiro. Mas os outros desfrutaram o enfatuado colega: — Vamos ver, Armando, essa coragem, o sangue azul!

— Não vou dar ousadia a um bedel — retirou-se o fidalgo da arena e a discussão morreu. O quartanista ainda zombou — Esse gato ruço, mestre Pedro, é metido a besta porque o avô foi Ministro do Império. Um tolo.

Um moço de óculos e chapéu coco interveio na conversa — Minha avó era mulata, foi a pessoa melhor que conheci. Archanjo retomou caminho — Pode me emprestar este folheto?

— Fique para você.

Nunca mais nenhum estudante abusou Archanjo com tais assuntos. Nem mesmo quando a sombra de Gobineau se estendeu sobre o Terreiro de Jesus e o arianismo esteve em moda, doutrina oficial da Faculdade. Ao estourar o escândalo, vinte anos depois, as turmas eram outras mas os estudantes apoiaram o bedel contra os professores.

No Terno da Estrela D’Alva, brancos, negros e mulatos dançavam indiferentes às teorias dos catedráticos. Kirsi ou Dedé, qualquer das duas pode ser a estrela do reisado, o povo aplaudirá com o mesmo entusiasmo, não há primeira nem segunda, muito menos superior e inferior.

O navio já se perdeu na noite e no oceano. Dedé silencia o canto, estende-se ostensiva na areia, apta e pronta: Pedro Archanjo ouve o vento do mar, o rumor das ondas e a distância. “Não há no mundo gente melhor”. Nafria Suomi brincará um menino feito de sol e neve, cor de bronze, na mão direita um paxorô, o rei da Escandinávia.