Tenda dos Milagres
Capítulo 16
Nos cartórios e nas sacristias em busca de certidões de nascimento e batizado, de um amigo a outro em convites e conversas, no estudo das leis, Pedro Archanjo prepara o casamento. Casamento contra a vontade da família porém legal, ah! não tinha a sedução romanesca de rapto e fuga com albornoz e madrugada, saveiro e cavalos em galope, perseguição e luta. Dava para o gasto, para divertir um pouco e ensinar boa lição aos insolentes. Pedro Archanjo reúne-se com mestre Budião e Valdeloir, juntos escolhem homens de confiança, capoeiristas cujo nome faz tremer até os secretas da polícia. Por via das dúvidas, nunca se sabe o que pode acontecer.
16
Encontrou o professor Silva Virajá em companhia de um homem de seus trinta anos, magro, de bigodes e cavanhaque ruivos, rosto aberto, mãos nervosas, olhos de ver- ruma.
— Bom dia, Pedro Archanjo. Deixe que eu lhe apresente o doutor Fraga Neto que vai reger a cátedra em minha ausência. Ele chega da Alemanha, eu vou pra lá, assim é a vida. — Voltou-se para o colega: — Este é o Pedro Archanjo, sobre quem já falamos, pessoa de minha particular estima. Oficialmente é bedel da Faculdade à disposição da cátedra de parasitologia, em verdade uma competência em antropologia, conhece como ninguém os costumes populares da Bahia. Aliás, você já leu seus livros...
Pedro Archanjo resmungava modéstias: “bondade do professor, sou apenas um curioso...
— Li e gostei muito. Sobretudo do último. Sobre muita coisa pensamos da mesma maneira. Seremos amigos, tenho certeza.
— Com prazer e honra, doutor Fraga. E o senhor, professor, quando viaja?
— Daqui a dois meses, mais ou menos. Primeiro vou a São Paulo, logo sigo para a Alemanha.
— Demora, professor?
— Vou para ficar, Archanjo. Não na Alemanha, lá estarei apenas o tempo necessário para a aquisição do laboratório, que vou montar e dirigir em São Paulo, onde me fixarei em definitivo. Ofereceram-me condições excepcionais: poderei levar adiante meus estudos. Aqui, é impossível: as verbas não chegam sequer para se comprar o material mais indispensável. O doutor. Fraga teve a bondade de aceitar o meu convite, abandonando, por puro patriotismo, ótima situação na Alemanha para vir fazer concurso de docente na Bahia e assegurar a continuação de nosso trabalho. Para isso contará com os colaboradores da cátedra, como você e Arlindo, e com os estudantes.
— Isso, é claro, se eu for aprovado no concurso. O sábio riu: será aprovado nem que seja a soco, meu caro.
Não implicando em disputa entre candidatos, concurso para livre-docência era, em geral, bem menos apaixonante e imponente do que o de catedrático. O do doutor Fraga Neto, no entanto, superlotou o Salão Nobre da Faculdade e deu no maior fuzuê: indignação, aplausos, vaias, injúrias, tumulto, desordem e briga.
O jovem médico e pesquisador vinha da Europa precedido de ampla nomeada. Fora o próprio professor Silva Virajá, com o peso de sua responsabilidade, que o convidara para disputar o concurso e substituí-lo na cátedra. Filho único de pais abastados, após a formatura Fraga Neto partira para a Europa. Vivera uns meses em Paris e em Londres, fixara-se na Alemanha. Pesquisava sobre as mesmas matérias e na mesma direção de Silva Virajá, “sou um simples discípulo do grande mestre”.
O concurso pegou fogo, de há muito não acontecia candidato a título de docente tão agressivo e herético. A banca examinadora vira-se às voltas com afirmações e teses realmente inesperadas. O único a não se escandalizar foi o próprio catedrático de parasitologia, Silva Virajá.Esfregava as mãos no maior contentamento enquanto o belicoso candidato punha abaixo arraigadas convicções,ideias assentes, estruturas sociais. Cavanhaque ruivo e arrogante, Fraga Neto, dedo em riste, parecia um diabo reinador.
As causas de tamanho alvoroço não residiram no debate da matéria médica — a tese versava sobre doenças tropicais — e, sim, em afirmações de ordem sociológica e política, muitas e tremendas, atiradas à cara da Banca e da Congregação pelo pretendente ao título.
Fraga Neto começara por declarar-se materialista, pior ainda: materialista dialético, discípulo de Karl Marx e Frederik Engels, “os dois grandes filósofos modernos, os gênios que abriram os caminhos de uma nova era para a humanidade”. Baseado em tais mestres, exigiu para a completa erradicação das moléstias tropicais urgentes e profundas mudanças na estrutura econômica, social e política do Brasil. Enquanto formos um país semifeudal, de economia agrária, assentada no latifúndio e na monocultura, não poderemos falar a sério em combate às moléstias tropicais. A principal moléstia é nosso atraso, dela nascem as demais. Foi um deus-nos-acuda entre os professores, muitos dos quais coincidiam na cátedra e na grande propriedade da terra, fazendeiros e pecuaristas.
O debate ganhou uma virulência inusitada, quase chega ao insulto. Um dos membros da mesa examinadora, o Montenegro dos neologismos, esteve à borda da crise nervosa. “Absurdez !“, gritava em pânico.
Os estudantes, está-se a ver, unânimes a favor do candidato, em claque turbulenta aplaudiam-lhe as tiradas: “Nossa obsoleta economia é a principal responsável pela esquistossomose, pela lepra, pela doença de Chagas, pela malária, pela varíola, pelas endemias e epidemias em nossa pobre Pátria. Sem radical mudança de estrutura não podemos pensar decentemente em erradicação de enfermidades, em medidas preventivas, em combate sistemático e sério aos males que afligem nosso povo, não podemos falar em saúde pública. Prometer tais medidas é asneira se não for burla e engodo. Enquanto não transformarmos o Brasil, nossos estudos, por mais sérios e originais, não passarão de esforços isolados, resultantes da vocação e do talento de uns poucos sábios capazes de ingentes sacrifícios. O resto é debate estéril e acadêmico. Esta é a verdade, doa a quem doer.”
O momento de Maior sensação sucedeu durante a defesa de tese Não satisfeito com o burburinho causado por tão agressivas ideias, Fraga Neto citou, como autoridade científica, um bedel da Faculdade. Tratando o contínuo de “competente antropólogo de ampla visão sociológica”, leu página extraída de brochura que o tal Archanjo, pardo metido a gente fizera imprimir: “São de tal maneira terríveis as condições de vida do povo baiano, tamanha é a miséria, tão absoluta a falta de qual quer assistência médica ou sanitária, do mais mínimo interesse do Estado ou das autoridades, que viver em tais condições constitui por si só extraordinária demonstração de força e vitalidade. Assim sendo, a preservação de costumes e tradições, a organização de sociedades, escolas, desfiles, ranchos, ternos, afoxés, a criação de ritmos de dança e canto, tudo quanto significa enriquecimento cultural adquire a importância de verdadeiro milagre que só a mistura de raças explica e possibilita. Da miscigenação nasce uma raça de tanto talento e resistência, tão poderosa, que supera a miséria e o desespero na criação quotidiana da beleza e da vida”. Das cadeiras destinadas à Congregação partiu um rugido: “Protesto !“ Era o professor Nilo Argolo, de pé, apoplético, a vociferar: