Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 34 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 2

Rolaram pela ladeira, penetrados, foram parar no areal do porto e atravessaram a noite. A maré cresceu e os levou; no fundo do mar prosseguiram em louca cavalgada, na metida insana.

A iaba com tal resistência não contara; a cada desmaio de Archanjo, a excomungada pensava com esperança e raiva: “agora o possante vai pururucar, esmolambado!” Muito ao contrário, em vez de fenecer, crescia o ferro em brasa e em carícia.

Tão pouco imaginara gostosura assim, chibata de mel, pimenta e sal, delícia das delícias, fenômeno de circo, maravilha. Ai, gemeu a iaba em desespero, se ao me-nos eu pudesse... Não podia.

Durou três dias e três noites o grão embate, o sumo pagode, sem intervalo: dez mil trepadas e uma só metida,e a iaba tanto entesou-se em seu furor sem termo que, de repente, deu-lhe um tangolomango e em gozo ela se abriu como se rompe o céu em chuva, Irrigado o deserto, rota a aridez, vencida a maldição, hosana e aleluia!

Adormeceu então, realizada fêmea, mas não mulher ainda, ah não!

No quarto de Archanjo, de sombras e odores misturados, dormia de bruços a iaba: um desatino, um despropósito de negra, um xispeteó. Quando seu hálito cantou, Archanjo lhe pôs o kelê no pescoço e o xaôrô no tornozelo e assim sujeita a teve. Depois, com delicadeza de baiano lhe enfiou no celeste fiofó o coração da ave, conta encantada de Xangô.

No mesmo instante ela soltou um brado e um pum, os dois medonhos, sinistros, pavorosos, o ar foi puro enxofre, mortal fumaça. Um clarão de raios sobre o mar, o surdo eco aos trovões, os ventos desatados e a tempestade de um extremo a outro do universo. Subiu aos céus imenso cogumelo e apagou o sol.

Mas logo tudo se acalmou em júbilo e bonança; o arco-íris se estendeu em cores: Oxumarê inaugurando a festa e a paz. Ao fedor de enxofre, sucedeu um cheiro de desabrochadas rosas e a iaba já não era iaba, era a negra Doroteia. Em seu peito crescera, por artes de Xangô, o mais terno coração, o mais submisso e amante. Negra Doroteia para sempre, com seu chibiu de fogo, sua atrevida bunda insubmissa, o coração de rola.

Resolvido o busílis, desfeita a incógnita, achada a solução dos ipicilones, acabou-se a história, amor, que mais contar? Doroteia fez santo, bravia filha de Yansan; raspou a cabeça num barco de iaôs e terminou dagã a dançar o padê de Exu no início das obrigações, Alguns xeretas, a par do acontecido, juram perceber distante aftim de enxofre quando Doroteia abre a dança no terreiro. Aquela inhaca do tempo em que, sendo iaba, quis quebrar a castanha de mestre Pedro Archanjo.

Difícil quebrar a castanha do mestiço. Outros o tentaram, nas bandas do Tabuão, onde fica a Tenda dos Milagres, e no Terreiro de Jesus, onde se eleva a Faculdade, mas. nenhum o conseguiu. A não ser Rosa — se alguém ensinou a Archanjo a dor de amar e o venceu foi Rosa de Oxalá, e mais ninguém. Nem a iaba de azeviche e danação, tampouco catedrático de fraque e sapiência.

2

O aprendiz tenta esconder o sono irresistível aos dois homens curvados sobre a máquina. Há de testemunhar a impressão das páginas iniciais; vivera em entusiasmo meses a fio, tanto quanto Archanjo, tanto quanto Lídio, dos dois o mais veemente — quem não soubesse dos particulares julgaria Lídio Corró autor de “A Vida Popular da Bahia”, o primeiro livro de Pedro Archanjo.

Os derradeiros bêbados já se recolheram, o último violão silenciou a tardia serenata. O clarim dos galos ressoa na ladeira, dentro em pouco a cidade começará a viver. O aprendiz ouvira a leitura dos capítulos, ajudara na composição e na revisão desse primeiro bloco de linhas. Busca disfarçar os bocejos, o ardor dos olhos, as pálpebras pesadas mas Lídio dá-se conta e lhe ordena:

— Vá dormir.

— Ainda não, mestre Lídio, não estou com sono.

— Está caindo, nem se aguenta de pé. Vá dormir.

— Meu padrinho, por favor — a voz do adolescente ia além da súplica, continha um calor, uma decisão. — Peça a mestre Lídio que deixe eu ficar até o fim. O sono já passou.

Tinham apenas a noite para o trabalho no livro, pela manhã necessitavam dos tipos, contados e gastos, e da impressora para as encomendas normais: folhetos de trovadores, prospectos de lojas, armarinhos, armazéns. No fim do mês, Corró devia pagar a prestação a Estevão, dinheiro sagrado. Uma batalha contra o tempo e contra a pequena máquina manual: reumática, rabugenta, caprichosa. Lídio Corró tratava-a de “minha tia”, pedindo-lhe benção e boa vontade, cooperação. Nessa noite emperrara, estiveram a maior parte do tempo a concertá-la.

O aprendiz chamava-se Tadeu e tinha gosto pelo ofício. Quando finalmente Estevão das Dores se dispusera a aposentar-se e a vender a tipografia, Lídio tomou o moleque Damião de ajudante. Não por muito tempo pois nas tintas e nos tipo não encontrou o traquinas atração e interesse. Para ele o movimento, a liberdade das ruas. Meteu-se no Fórum, moço de recados, transportando autos, processos, requerimentos, petições, correndo de juizes a advogados, de meirinhos a escrivães; em seu começo de carreira, Damião, era a própria esperteza, a própria malandrice. Sucederam-se os aprendizes, todos eles de curta permanência na oficina de pequena capacidade e muita mão-de-obra. Nenhum à altura do trabalho, Tadeu fora o primeiro a dar satisfação a mestre Lídio.

Com um grito saúda a anuência do mestre, molha o rosto para espantar o sono. Seguira o trabalho de Archanjo dia a dia, página por página, e nem ele próprio sabe como foi útil àquele a quem chama de padrinho: quanto ânimo lhe deu na tarefa nova e difícil, naquela arte de exatidões e nuanças, de afirmações e sutilezas, da verdade posta no papel, no ofício das palavras e de seu sentido.

Por eles e para eles, Pedro Archanjo escrevera: para o amigo de toda a vida, o compadre, o sócio, o seu mabaça, e para o moleque de olhos ardentes, franzino, espevitado, estudioso, para o filho de Doroteia. Afinal chegara a termo, e Lídio obtivera o papel a crédito.

A ideia nascera daquele rapaz do Tororó, Valdeloir, as várias sugestões e implicâncias aconteceram quase ao mesmo tempo, levando Pedro Archanjo a to-mar da pena. Sempre gostara de ler quanto livro caísse em sua mão, de anotar fatos, acontecidos e histórias:tudo que se referisse aos hábitos e costumes do povo da Bahia, mas sem manifestar intenção de escrever. Por mais de uma vez, no entanto, pensara estar naquelas suas notas a resposta às teses de certos professores da Faculdade, teses tão em moda — ele as ouvia repetidas nas salas de aula, nos pátios e corredores.

Foi em noite de cachaça extensa: numeroso grupo atento ouvia Archanjo contar casos, cada um mais cutuba e sugestivo, enquanto Lídio Corró e Tadeu amarravam pacotes de um folheto no qual João Caldas, “poeta do povo e seu criado”, em versos de sete sílabas e rimas pobres, narrava a história da mulher do sacristão que, tendo facilitado ao padre, virara mula-sem-cabeça e pela noite rompia estrada e mato, a vomitar fogo pelo pescoço, apavorando a vizinhança. Na capa, talhada por Lídio, a gravura, ao mesmo tempo econômica e rica em seus meios de expressão, apresentava a mula-sem-cabeça, pavor dos caminhos, a assustar o povo, enquanto a cabeça, decepada mas não morta, beijava a boca sacrílega do padre. Uma pagodeira, no dizer de Manuel de Praxedes.

— Quem bem podia escrever um mafuá de histórias, e dar a mestre Lídio para imprimir, era mestre Pedro, que sabe tanta coisa, tanto caso sucedido e é um degas pra contar — considerou Valdeloir, dançador de afoxé, passista de gafieira, capoeirista e ávido leitor de trova e narrativa.

Conversavam numa espécie de puxada, construída por Lídio no quintal, coberta de zinco, as paredes de madeira. Estando a sala ocupada com a tipografia, a conversa e os espetáculos tinham-se transferido para lá.

Lídio se desdobrava no trabalho: compondo e imprimindo, riscando milagres, gravando capas para os folhetos, extraindo um dente de quando em quando. Ficara devendo a Estevão, pesado compromisso mensal durante dois anos. Foi preciso levantar a puxada pois os espetáculos ajudavam a receita e tampouco Archanjo aceitaria a ideia de não declamar Castro Alves, Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias, os sonetos de amor e os poemas contra a escravidão; de não cair na roda de samba, de não apreciar os passos de Lídio e Valdeloir, a voz morna de Risoleta, a dança de Rosa de Oxalá. Mesmo se fosse de graça, para não cobrar, Archanjo não dispensaria o espetáculo: HOJE TEM FUNÇÃO continuava a anunciar o cartaz na porta da Tenda dos Milagres, às quintas-feiras.

A chuva caía há uma semana, quase contínua, mês de temporais e vento sul. Um vento de agulhas afiadas, mordente e úmido, um zumbido fúnebre: dois saveiros naufragados e dos sete mortos três nunca apareceram, a navegar eternamente em busca das costas de Aioká, no fim do mundo. Os outros corpos deram à praia, dias de pois, já sem olhos e cheios de siris, um espavento. Encharcados, tremendo de frio, os amigos chegavam pedindo uma lapada. É nessas ocasiões, de desgraça e de tristeza, que se comprova o valor da cachaça. Naquela noite, após a sugestão de Valdeloir, Manuel de Praxedes tomou a palavra, propôs uma variante

— Mestre Archanjo sabe muito, tem um armazém de ipicilones na cabeça e nos pedaços de papel. Mas o que ele sabe não é coisa de se perder em trova de tostão, é passaladagem de muita sustância, enredos de que pouca gente ouviu falar. Valia a pena era ele contar na Faculdade a um professor, a um desses bambas na escrita, lá tem cada um retado, para o sabichão botar o resumo no papel e servir de ensinamento. Garanto que ia causar muita admiração.

Mestre Pedro Archanjo olhou Manuel de Praxedes, o bom gigante, olhou-o com olhos calmos, meditativos, recordando um ror de coisas acontecidas nos últimos tempos, ali no Tabuão, em suas redondezas, e no Terreiro de Jesus. O sorriso alegre voltou-lhe ao rosto pouco apouco, rompendo a severidade desabitual, e se abriu de todo quando seus olhos, indo de um para outro dos presentes, encontraram os de Terência, sua comadre, mãe de Damião e tão bonita

— Por que encomendar a um professor, meu bom?Escrevo eu mesmo. Ou você pensa, Manuel, que só por que a gente é pobre não é capaz de fazer nada que preste? Que a gente não pode passar de trova de pé-quebrado?Pois vou lhe mostrar, meu bom, meu camarado. Eu mesmo escrevo.

— Não é que eu duvide de você, amigo Pedro; vá avante. É que com um professor estava garantida a certeza dos ensinamentos, esses letrados sabem do rabo e da cabeça.

Quem mais torce e deturpa senão esses letrados?Quem mais precisa aprender senão os sabichões demeia tigela? Disso não se dá conta Manuel de Praxedes, é preciso trabalhar na Faculdade para ouvir e entender. Na opinião de certos professores, Manuel, mulato e criminoso são sinônimos. Troque isso em miúdo, amigo Pedro, não sei o que é sinônimo mas, seja o que for, é mentira de chibungo.

O aprendiz Tadeu não se conteve, salvou em riso e palmas:

— Meu padrinho ensina eles e se alguém duvidar é muito tolo.

Vai descrever realmente ou esquecerá na vadiagem de festas e mulheres, nos ensaios de pastoris, na Escola de Budião, nas obrigações de terreiro, a promessa feita em noite de cachaça longa e tempestade? Possivelmente assim sucederia não tivesse Archanjo, dias após, recebido um recado urgente de mãe Majé Bassan, desejosa de lhe falar.

No peji, sentada em sua cadeira de braços, trono pobre, nem por isso menos temível, Majé Bassan lhe entregou o adjá e tirou uma cantiga para o santo. Depois, brincando com os búzios mas sem interrogá-los como se o jogo fosse desnecessário, falou:

— Soube que tu disse que vai escrever um livro, mas sei que tu não está fazendo, o teu fazer é só da boca para fora, tu se contenta com pensar. Tu passa a vida xeretando de um lado para outro, conversa aqui conversa ali, toma nota de um tudo e para quê? Tu vai ser toda a vida contínuo de doutor? Só isso e nada mais? O emprego é pra teu de-comer, para não passar necessidade. Mas não é para te bastar nem para te calar. Não é para isso que tu é Ojuobá.

Então Pedro Archanjo tomou da caneta e escreveu.

Lídio foi de fundamental ajuda; na escolha do material, em palpites quase sempre justos, ouvinte discreto e arguto. Não fosse ele a precipitar o ritmo do trabalho, cavando dinheiro para a tinta de impressão, obtendo papel fiado, a empurrá-lo para a frente no árduo começo, talvez Archanjo largasse o trabalho pelo meio ou demorasse muito mais a terminá-lo, ainda preso a intenções e circunstâncias, e muito preocupado em não cometer erros de gramática. Por vezes, custava-lhe faltar a uma dança de arrabalde, a uma pândega domingueira, a um corpo inédito de mulher. A disciplina foi de Lídio, o entusiasmo do aprendiz, e o saber de mestre Pedro Archanjo, que assim cumpriu em tempo o encargo de Majé Bassan.

Quando iniciara o livro, a imagem pernóstica de determinados professores e o eco das teorias racistas estavam presentes a seu espírito e influíam nas frases e palavras, condicionando-as e limitando-lhes a força e a liberdade. À proporção, porém, que páginas e capítulos foram nascendo, Pedro Archanjo esqueceu professores e teorias, não mais interessado em desmenti-los nu ma polêmica de afirmações para a qual não tinha sequer preparo, e sim em narrar o viver baiano, as misérias e as maravilhas desse quotidiano de pobreza e confiança; em mostrar a decisão do perseguido e castigado povo da Bahia, de a tudo superar e sobreviver, conservando e ampliando os bens da dança, do canto, do metal, do ferro, da madeira, bens da cultura e da liberdade recebidos em herança nas senzalas e quilombos.

Já então escrevia com prazer indescritível, quase sensual, buscando tempo, dando ao trabalho cada instante livre. Não mais se lembrara do seco e brusca. professor Nilo Argolo, de olhos hostis, nem do extrovertido doutor Fontes, urbano e até jocoso, mas talvez ainda mais agressivo na exposição das teorias discriminatórias; não mais o perturbaram professores e discípulos, eruditos e charlatães. O amor à sua gente conduziu a mão de Archanjo; a raiva só lhe deu à escrita um toque de paixão e poesia. Por isso mesmo foi um documento irrespondível o que saiu de sua pena.