Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 25 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 9

Rosa, nós não somos os bonecos da marmota, temos honra e sentimento. Rosa, nós não somos degenerados em promiscuidade imunda, uns animais ou, pior, uns criminosos. Sim, Rosa, exatamente isso: “Mestiços degenerados em sórdida, em imunda promiscuidade”, foi o que escreveu um professor de medicina, um doutor, um catedrático. Mas é mentira, Rosa, é calúnia desse sabe tudo que não sabe nada.

Archanjo rompe o sonho num esforço extremo, abre os olhos, nasce a manhã no mar e os veleiros partem. A sueca é feita de jasmim e exala um perfume suave, matinal. Um menino escuro correrá na neve. Dissolve-se a imagem de Rosa na distância, toda nua.

Na gringa te esquecerei, e em Sabina, em Rosenda, em Risoleta; te esquecerei em muitas outras, livre de tormento e aflição. Livre? Esquecerei ou buscarei em desespero? Em campo de jasmim e trigo, teu negrume. Em todas elas, Rosa de Oxalá, tua indecifrável adivinha, teu proibido eterno amor.

9

Mais abaixo, na dobra da Ladeira, em vão de porta, o velho Emo Corró manteve a freguesada cadeira de barbeiro e um armário de mezinhas, além do boticão de arrancar dentes. Ensinou o ofício e a medicina aos dois filhos: Lucas e Lídio. Este último, porém, cedo abandonou a navalha e a tesoura. Atendendo ao convite de seu padrinho, Cândido Maia, mestre tipógrafo, foi aprender com ele no Liceu de Artes e Ofícios. Aluno de inteligência viva, cheio de interesse pelo ofício, rapidamente o dominou, de aprendiz a mestre em pouco tempo.

Nessa ocasião conhecera Artur Ribeiro, estranho personagem, soturno e solitário. Tendo cumprido pena de prisão, não lhe era fácil obter trabalho estável. Cândido e outros antigos camaradas arrumavam-lhe biscates no Liceu. Gravador em metal e em madeira, não tinha rival em todo o Norte do país. Em 1848, de acordo com um libanês e um russo, montara secreta oficina de gravura: impossível distinguir as notas falsas, gravadas por Artur, das verdadeiras do governo, feitas na Inglaterra.

O negócio prosperou até demais: Ribeiro na oficina, o libanês e o russo trocando moeda falsa, mercadoria de muita aceitação. Iriam longe, não fosse o libanês um louco. Deu-lhe o delírio do luxo, fez misérias: mulheres, champanha, cabriolé. Acabou-se o que era bom, o segredo foi parar na Chefatura de Polícia. Ribeiro e Mahul, o libanês, bateram com os costados na cadeia, do russo nunca mais notícia, dera o fora em tempo com a maleta repleta de dinheiro, cédulas do governo, verdadeiras.

Artur Ribeiro, fechado, carrancudo, sem conversa, ainda nas grades da vergonha embora livre do xadrez, tomou-se de interesse pelo moleque esperto, jeitoso no desenho, e lhe ensinou a riscar milagres — outro de seus bicos naquele podre fim de vida — e a gravar em pedaços de maneira; não no metal, pois nunca mais tomara de uma placa de cobre, jura feita na prisão. Num dia de cachaça e confidência, disse a Lídio ter um único desejo: matar com suas próprias mãos o miserável Fayerman; o russo soubera com antecedência dos passos da polícia, escafedera-se com o lucro, sem um aviso sequer aos sócios da guitarra.

A morte do irmão Lucas, trouxe Lídio de volta para a tesoura, a navalha, o boticão. Emo perdera a firmeza do pulso nos anos e no trago, alguém devia garantir as despesas do velho e as de Zizinha, sua recente esposa, a terceira, frangota de dezoito anos. Mão trêmula, vista curta, ouvido mouco, mas o principal em ordem: “É o que me sobra”, dizia Emo, ao apresentar a mulher nova.

Não se reduziu à arte tipográfica, ao risco de milagres, ao corte da madeira, a aprendizagem de Lídio no casarão das Artes e Ofícios e nas ruas da Bahia: ensinaram-lhe passos de dança, rudimentos de músicas, os jogos de damas, de gamão, de dominó, e a tocar flauta, sua aptidão maior. Em cada coisa era hábil e seguro, tinha os pés na terra, muito prático e sagaz.

Durante certo tempo permaneceu na barba e no cabelo, arrancando dentes e impingindo drogas — veneno de cobra, guizos de cascavel, xarope caseiro de agrião (tiro e queda na cura da tísica), miraculosas cascas de árvores, paus-de-resposta, capuava para levantar os ânimos e o resto, pó de lagartixa para asma. Até reencontrar Pedro Archanjo, seu contemporâneo no Liceu, tão curioso e decidido quanto ele e oito anos mais moderno. Também Archanjo andara em diversas oficinas: na tipografia foi onde mais se demorou, embora seu forte residisse na caligrafia e na leitura — estudou gramática, aritmética, história, geografia. Gabavam-lhe a escrita: a letra e a inventiva.

Um dia desapareceu, durante anos não se soube dele. Morrera-lhe a mãe, único parente a prendê-lo na Bahia. Não chegara a conhecer o pai, recruta levado a pulso para a Guerra do Paraguai, deixando Nóca de barriga do primeiro filho pois tinham se amigado há pouco. Desencarnou na travessia dos pântanos do Chaco, sem saber sequer do nascimento do menino.

Saiu Archanjo a conhecer o mundo. Por onde passou, foi aprendendo. Não escolheu trabalho — grumete, moço de bar, ajudante de pedreiro, redator de cartas a despachar para os confins de Portugal notícias e saudades de broncos imigrantes. Andou de ceca em meca, sempre às voltas com os livros e as donas. Por que exercia tanta atração sobre as mulheres? Talvez devido à inata delicadeza e à palavra fácil. Não se impunha apenas ao mulherio; tão moço ainda e todos já o ouviam em silêncio e com atenção.

Ao regressar do Rio, tinha vinte e um anos e um gosto janota no vestir; tocava violão e cavaquinho. Empregou-se na Tipografia dos Frades e meses depois, em noite de reisado, deu com Lídio Corró a ensaiar pastoras, fina ocupação. Tornaram-se inseparáveis e a barbearia aos poucos foi se transformando.

Três anos após o encontro no Terno da Estrela D’Alva, tendo vagado o andar térreo do sobradão número 60, Lídio o alugou e com capricho fez o desenho do letreiro, cada letra numa cor: TENDA DOS MILAGRES — pois de riscar milagres vinha-lhe o principal da féria.

Archanjo escolhera o nome. Deixara a gráfica para ensinar abc e contas a meninos atrasados e fizera-se uma espécie de sócio de Corró. Sócio no trabalho e na vadiação porque o parco lucro Lídio o colocava a render juros. A meta de Corró: a Tipografia Democrática, na qual seu Estevão das Dores compunha e imprimia as histórias de cantadores, as modinhas, os versos dos desafios, vasta literatura de cordel; as capas dos folhetos eram gravuras de Lídio, cavadas na madeira. Encanecido e reumático, arrastando os pés, seu Estevão se comprometera a lhe vender aprazo os abregueces, quando se decidisse por fim a descansar.

Na espera dos tipos e da freguesia da Democrática, a Tenda dos Milagres se transformara no coração, no centro vital de toda aquela parte da cidade, onde se processa, potente e intensa, a vida popular, e que se estende da Praça da Sé e do Terreiro de Jesus às Portas do Carmo e a Santo Antônio, englobando o Pelourinho, o Tabuão, o Maciel de Cima e o Maciel de Baixo, São Miguel e a Baixa dos Sapateiros com o Mercado de Yansan (ou de Santa Bárbara,à escolha e gosto do distinto).