Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 15 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 3

Ao prócer não ficava bem emborcar conhaque nacional no balcão de um botequim de terceira, muito menos no calor do meio da tarde. Em generoso rasgo, no entanto, mandou a gerência fornecer um vale para a cachaça do Major. Hoje paga-se tudo, foram-se os bons tempos.

3

O grande Levenson não teve conhecimento da entrevista do major Damião de Souza, concedida e publicada quando já o sábio partira da Bahia, e lastimou, meses depois, em breve carta de sua secretária ao doutor Zezinho Pinto, diretor-proprietário do “Jornal da Cidade”, não poder aceitar o convite do conceituado órgão de imprensa para usar da palavra na “sessão solene in memoriam do imortal Pedro Archanjo”, no encerramento das comemorações do centenário do mestre baiano. “O professor Levenson agradece as notícias das homenagens prestadas a Pedro Archanjo e com elas se solidariza, feliz de constatar que o povo brasileiro demonstra seu apreço e sua estima pelo eminente autor”. Infelizmente, não podia vir, embora o desejasse: compromissos anteriores é inadiáveis no Extremo Oriente, no Japão e na China. Um curioso pós-escrito a mão, com a letra e a rubrica do cientista, concedia incrível valor de autógrafo a carta escrita a máquina e assinada pela secretária:

“P. S. — A China aqui referida é a continental, a República Popular Chinesa, sendo a outra, a ilha de Formosa, tao-somente ridícula e perigosa invenção de belicistas”.

“Prêmio Nobel exalta a iniciativa do “Jornal da Cidade”, eis a manchete a encabeçar a notícia da “entusiástica solidariedade de James D. Levenson, o grande homem de ciência dos Estados Unidos, à promoção de nosso jornal”, e da lastimável impossibilidade de sua presença. “Estou solidário e feliz com as homenagens”, transcrevia a gazeta, escamoteando ao mesmo tempo a secretária e o pós-escrito.

O doutor Zezinho não escondeu a contrariedade: dera o comparecimento de Levenson como certo, agora sua promoção reduzia-se aos gênios nacionais e aos valores da província. Tinha a garantia da presença do professor Ramos, do Rio de Janeiro, fraco consolo para a ausência do Prêmio Nobel, “vindo expressamente do Gigante do Norte, do colosso americano”, conforme anúncio e badalação.

Não soube o potentado baiano das vacilações de Levenson, quase decidido a mandar para o inferno o curso na Universidade de Tóquio e o convite de Pequim, e a voltar à Bahia, rever o mar verde-azul, as velas dos saveiros, a cidade posta na montanha, aquela gente de civilizada graça, e a moça alta — como era mesmo o seu nome? — palmeira erguida, lábios, seios, quadris e ventre inesquecíveis, mestiça saída de um livro de Archanjo, aquele perturbador Archanjo cujos rastros mal pudera vislumbrar no mistério da cidade.

Viera por dois dias, ficara três — três dias e três noites — e guardava da rápida estada uma ideia poética e absurda: Archanjo era um bruxo, disso se dera conta, e inventara aquela moça para ele, Levenson, com o fim de lhe provar ao vivo tudo quanto escrevera. Como era mesmo o nome dela? Ann, sim, Ann, acolhedora e impávida — e com o idiota do noivo a tiracolo.

— Quem é aquele tipo soturno que nos segue por toda parte? Um admirador ou um policial, “un policia”? — perguntou o sábio, conhecedor dos hábitos dos países subdesenvolvidos e de suas ditaduras, apontando o poeta Fausto Pena, sombra de seus passos.