Tenda dos Milagres
Capítulo 3
No bonde, no começo da noite de estrelas e viração do mar, no caminho do Rio Vermelho de Baixo onde se ergue na colina a Casa Branca do Engenho Velho, mestre Archanjo contara do novo livro, os olhinhos brilhando, trêfegos e maliciosos. Quanta coisa recolhera, anotara nas cadernetas, para aquela obra, “um embornal de abregueces”, a sabedoria do povo:
— Só o que juntei em casa de mulher-dama, meu bom, você nem se imagina. Fique sabendo, camarado, não há melhor lugar para um filósofo morar do que casa de rapariga.
— Você é mesmo um filósofo, mestre Archanjo, o maior que já vi, não tem igual para saber levar a vida com filosofia.
Iam ao candomblé para o amalá de Xangô, obrigação das quartas-feiras. Tia Maci dava de-comer ao santo, no peji, ao som do adjá e do canto das feitas. Depois, em torno à grande mesa na sala, serviam o caruru, o abará, o acarajé, por vezes um guisado de cágado. Mestre Archanjo era bom de garfo, de garfo e copo. A conversa prolongava-se noite adentro, animada e cordial no calor da amizade; ouvir Archanjo era privilégio dos pobres.
Se acabou o livro, o amalá e a cachaça, a viagem de bonde e de imprevistos; o velho conhecia cada recanto do caminho, casas e árvores eram-lhe familiares, de uma familiaridade secular, pois sabia de agora e de antes, de quem era e de quem fora, o filho e o pai, o pai do pai e o pai do avô e com quem se misturaram. Sabia do negro vindo escravo da África, do português degredado da Corte, do cristão-novo fugido da Inquisição. Agora todo o saber se terminou, e o riso e a graça, fecharam-se os olhos dos olhos de Xangô, Ojuobá só serve para o cemitério. O santeiro desfaz-se em lágrimas, solitário e vazio.
Assim como não fica bêbado, o Major não consegue chorar, a não ser — e com que facilidade! — em júri ou em comemoração se necessário emocionar os ouvintes, ganhá-los para sua causa. Mas a dor verdadeira, essa o come por dentro, nas entranhas, não se exibe no rosto.
Mané Lima proclamou o nome e a morte do velho para o mundo inteiro, postado no meio da Ladeira do Pelourinho, lugar próprio e certo, mas na hora baça da antemanhã apenas uns ratos enormes e um cachorro magro escutaram-lhe o grito.
O Major desprende-se da visão fatal, sai rua a fora em direção à casa de Ester, o peso da notícia verga-lhe os ombros. Lá emborcará o trago forte e necessário.
3
De repente a ladeira começou a animar-se. Do Largo da Sé, da Baixa dos Sapateiros, do Carmo, surgiram homens e mulheres, apressados e aflitos. Não vinham pela morte de Pedro Archanjo, sábio autor de livros sobre miscigenação, talvez definitivos, e, sim, pela morte de Ojuobá, os olhos de Xangô, um pai daquele povo. Do castelo de Ester, a notícia se propagara de boca em boca, de porta em porta, de casarão em casarão, rua a fora, escada acima, ladeira abaixo e nos becos. Chegou ao Largo da Sé a tempo de embarcar nos primeiros bondes e ônibus.
Mulheres arrancadas do sono ou dos braços de tardos fregueses para a lágrima e a lamentação. Trabalhadores de horário preciso, vagabundos sem relógio de ponto, bêbados e mendigos, habitantes dos sobradões, dos infectos cortiços, árabes de prestação, moços e velhos, gente de santo e comerciantes do Terreiro de Jesus, um carroceiro com sua carroça, e Ester, um quimono sobre a nudez mostrando tudo a quem quisesse ver. Mas, quem ia se aproveitar, se ela puxava os cabelos e batia. nos peitos:
— Ai, Archanjo, meu santo, por que não disse que estava doente? Como eu ia saber? Agora Ojuobá, como vai ser? Tu era a luz da gente, nossos olhos de ver, nossa boca de falar. Tu era a coragem da gente e nosso entendimento. Tu sabia de ontem e de amanhã, quem mais vai saber?
Quem, ai, quem? Na hora do espanto, homens e mulheres encaravam a morte nua e crua, ali na. sarjeta, despida de qualquer enfeite, do menor consolo. Pedro Archanjo Ojuobá ainda não se fizera memória, tão-somente morte e nada mais.
Portas e janelas se abriam, veio o sacristão da igreja com uma vela acesa, Ester se abraçou com ele em prantos.A multidão em torno ao corpo, e um soldado da Polícia Militar com armas e autoridade. Ester sentou-se ao lado do santeiro, tomou da cabeça de Archanjo. Com a ponta do quimono limpou-lhe o sangue entre os lábios. O Major dirigiu-lhe a palavra, desviando os olhos para não ver os seios soltos, não sendo a hora apropriada — será que para isso há hora proibida, Archanjo? Você dizia que não, “qualquer hora é boa para distrair o corpo”.
— Vamos levar ele para sua casa, Ester.
— Para casa? — Ester suspendeu o pranto, fitou o Major, desconhecendo-o — Tu ficou maluco? Não está vendo que não pode ser? É o enterro de Ojuobá, não é enterro de rameira ou de chibungo para sair de casa de mulher-dama.
— Não é para o enterro sair de lá, é só para mudar de roupa, que não vai se enterrar ele com essas calças imundas e esse paletó remendado.
— Nem sem gravata, ele nunca foi a nenhuma festa. sem gravata... — acudiu Rosália, a mais velha das raparigas, noutros tempos xodó de Archanjo.
— Outra muda ele não tem.
— Por isso não. Dou minha roupa azul, de casimira,fiz para meu casamento e está como nova. — ofereceu João dos Prazeres, mestre de marcenaria, residente nas proximidades. — Por isso não. — repetiu e foi em buscada roupa.
— Depois para onde a gente leva ele? — perguntou Rosália.
— Não me pergunte nada, minha filha, não estou capaz de pensar ou resolver, pergunte ao Major, me deixe com meu velho. — rugiu Ester, a cabeça de Archanjo em seu colo, no calor de sua carne.
O Major foi pegado de surpresa. Para onde? Ora, não me aborreça com tolices, o importante agora é tirar ele daqui do meio da rua. Depois, casa não vai faltar. Mas o sacristão da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, parceiro de longa data e de muita pagodeira, lembrou ser Pedro Archanjo membro antigo da Confraria, benemérito e remido, com direito a velório no templo, encomendação do corpo, missa de sétimo dia e a jazigo perpétuo no Cemitério das Quintas.
— Vamos, então. — ordenou o Major.
Foram levantar o corpo, mas o soldado empombou: ninguém se atrevesse a tocar no cadáver antes de chegar a polícia, o delegado e o doutor. Um jovem soldado, ainda adolescente, quase um menino; tinham-lhe vestido uma farda, armas e ordens drásticas, encarnaram nele a força e o poder, o ruim do mundo.
— Ninguém se atreva.
O Major examinou o soldado e situação: recruta do interior, místico da disciplina, difícil de contornar. O Major tentou: — Você é daqui, rapaz? Ou é do Sertão? Sabe quem é esse? Se não sabe, vou lhe dizer.
— Não quero saber. Só sai daqui com a polícia.
Então o Major se retou. Não ia consentir que o corpo de Archanjo continuasse exposto no meio da rua, — corpo de criminoso, sem direito a velório.
— Vai sair e é agora mesmo.
Por muitas razões, todas de primeira grandeza, apelidaram o major Damião de Souza de Rábula do Povo:fizeram-no em paga de seus muitos merecimentos. Já antes lhe tinham outorgado o título de major — major sem patente, sem batalhão, sem dragonas, sem farda, sem mando nem comando, um major porreta. O Rábula do Povo subiu no degrau da calçada e perorou com trêmulos na voz indignada:
— Será que o povo da Bahia vai consentir que o corpo de Pedro Archanjo, de Ojuobá, fique no meio da rua, na lama dos esgotos, nessa podridão que o Prefeito não vê e não manda limpar, que fique aqui à espera que apareça um doutor da polícia? Até que horas? Até o meio-dia, as quatro da tarde? O povo, oh! o povo glorioso da Bahia,que expulsou os holandeses e derrotou os marotos lusitanos, vai deixar nosso pai Ojuobá apodrecendo na imundície? Oh! povo da Bahia!
O povo da Bahia, — bem umas trinta pessoas, sem contar as que despontavam em cima e embaixo da Ladeira — urrou, as mãos se ergueram e as mulheres em pranto partiram para o soldado da Briosa. Foi hora de perigo, feia e difícil; o soldado, como previra o Major, era dureza. Enquadrado, torvo, inflexível porque tão jovem e porque autoridade não se deixa desfeitear, saca das armas: “Quem vier, morre !“ Levantou-se Ester para morrer.
Mais alto, porém, trinou o apito quase civil do guarda-noturno Everaldo Fode-Mansinho. de volta ao lar após a noite do dever cumprido e de algumas lapadas de pinga: que significava aquele fuzuê na madrugada? Viu o soldado de sabre na mão e Ester de peitos de fora — briga de putas, pensou, mas Ester era muito sua merecedora.
— Praça, — bradou para o recruta — sentido!
Autoridade versus autoridade, de um lado o guarda noturno, o último dos fardados, com seu apito avisa-ladrão e a picardia, a flexibilidade, a matreirice; do outro lado, o soldado da Briosa, milico de verdade, com seu sabre, seu revólver, seu regulamento, sua violência, sua força bruta.
Everaldo deu com o defunto no chão:
— Archanjo, que é que ele faz aqui? É só cachaça, não é?
— Ai que não é...
O Major explicou a descoberta do corpo e a cabeça dura do soldado não querendo permitir a remoção para acasa de Ester. Everaldo dito Fode-Mansinho, de farda a farda, quebrou o galho.
— Praça, é melhor você cair fora enquanto é tempo,você perdeu a cabeça e desrespeitou o Major.
— Major? Não estou vendo Major nenhum.
— Aquele ali, o major Damião de Souza, nunca ouviu falar?
Quem não ouvira o nome do Major? Até mesmo o jovem soldado o escutara, ainda em Juazeiro e no quartel, diariamente.
— Aquele é o Major? Por que não disse logo?
Perdeu a intransigência, sua única pobre força, ei-lo cordato, o primeiro a cumprir as ordens do Major — depuseram o corpo na carroça e lá se foram todos para o castelo de Ester.