Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 62 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 15

Em casa de Zabela, Pedro Archanjo escuta a moça a repetir as mesmas palavras de Tadeu:

Pode ser que nesses meses eu convença os velhos.

— Acredita possível?

— E se eu lhe disser que Mamãe já está meio abalada? Ainda ontem me disse que Tadeu é um bom rapaz, não fosse...

— ... negro..

— Imagine que ela, falando de Tadeu, já não diz negro: “Se não fosse moreno tão queimado...”.

Pedro Archanjo pôde finalmente rir, não se propunha a palmatória do mundo, Lu e Tadeu resolvessem conforme melhor lhes aprouvesse, de qualquer maneira teriam seu apoio. Legalista e demorada, aquela não era a sua solução nem a de Alexandre Dumas, Pai, o mulato nascido do general Napoleão e da bela negra da Martinica (da Martinica ou de Guadalupe? — não se lembrava); se ouvidos, teriam optado pelo rapto incontinenti, de peito aberto.

Aproveitando o público presente, Zabela partia para as histórias da família Argolo de Araújo. “Ouçam vocês. Fortunato de Araújo, coronel das guerras da Independência, herói de Cabrito e Pirajá, conhecido como o Negro Araújo, entrou na família nobre dos Argolos pela porta da alcova de vovó Virgínia Gonçalves Argolo e assumiu a direção e o mando. Era um mulato lindo, eu era sua neta preferida, ele me punha no cabeçote da sela e íamos em galope por campos e montes, foi ele quem me botou o apelido de Princesa do Recôncavo. Mestre Pedro, você que é metido a decifrador de adivinhas, me diga porque o ilustre professor Nilo d’Ávila Argolo de Araújo, esse micróbio, le grand con, que tanto arrota antepassados nobres, é tão parco no uso do nome honrado dos Araújos? Por que não cita os feitos do coronel Fortunato nas lutas de 23, por que não conta que o Negro Araújo foi três vezes ferido lutando pela Independência do Brasil? Em nossa preclara família não houve homem mais capaz, devemos a ele os bens que ainda possuímos, inclusive esses míseros restos que me sobram. Com orgulho e com razão vovó Virgínia dizia às baronesas, condessas, yayás e a toutes les autres garces: um único ovo do meu Negro Fortunato vale dez vezes mais do que toute cette bande de cocus que são vossos maridos e amantes, les imbéciles.”

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As histórias narradas por Zabela iniciaram Pedro Archanjo no conhecimento da genealogia dos graúdos e, no correr do tempo, ele soube a respeito de Ávilas e Argolos, Cavalcantis e Guimarães, da récua de lordes a ostentar apelidos fidalgos, tanto quanto sabia dos laços familiares do povo desembarcado dos navios negreiros. O avô de cada um e a hora exata em que os sangues se uniram.

Após as festas do cinquentenário, nos anos seguintes,mestre Archanjo prosseguiu seus estudos: nos volumes lidos na mansarda ou na Tenda (ali guardava a maioria dos livros, no quarto dos fundos, o quarto de Tadeu), na vida vivida ardentemente. Conservara-se jovem, ninguém lhe daria cinquenta e cinco anos. Jogava capoeira, perdia noites, bom de trago, doido por mulher. Depois de Rosália, ou a mesmo tempo?, pusera casa para Quelé, garota de dezessete anos, e ela. lhe deu um filho. Homem, como sempre. Filha, Archanjo nunca teve nenhuma, a não ser filha nos terreiros de santo.

As mulheres vinham buscá-lo na Tenda dos Milagres, onde, depois do sumiço de Rosa de Oxalá, acabaram-se os espetáculos e as festas. Inconformado com o adeus, Lídio curtira infindável dor de cotovelo. Recuperou-se lentamente, de todo nunca se refez. Amantes por mais de quinze anos, o riscador de milagres não encontrou substituta capaz de apagar da memória sofrida a imagem de Rosa.

No quarto de dormir, a estatueta de madeira, talhada pelo santeiro Miguel, amigo de Damião, pouco se parece om Rosa. Nua, os seios altos, as ancas viajeiras. Se Lídio, único a tê-la visto sem roupa, na cama, em seus braços, se nem ele pôde fixar em tinta de cola na tela do quadro a visão daquele esplendor, fora muita ousadia do santeiro querer imaginá-la e reproduzi-la no jacarandá. Cadê a boca faminta de beijos, o ventre de fogo? Nas noites in-sones, Rosa destaca-se da tela e da madeira, dança no quarto.

Na Tenda e nas ruas, em castelos e pensões, bailes e pastoris, gafieiras e novenas, a rir e a cantar com raparigas e moças, iam os dois compadres, a flauta, o cavaquinho, o violão e a ausência de Rosa. Por mais bem servido, Lídio permanecia insatisfeito: quem a teve não a pode esquecer nem substituir. E Pedro Archanjo? Para ele, a dor de amar começara muito antes. Tu não sabes, compadre Lídio, meu bom, o preço de tua amizade.

Muita coisa mudara na Tenda dos Milagres. A tipografia tomou conta da grande sala e da antiga puxada. O movimento crescera demais, já não sobra tempo a mestre Lídio nem mesmo para riscar milagres. Quando aceita uma encomenda, tem de fazê-la aos domingos, a semana é curta para o trabalho da oficina.

A Tenda continuava, no entanto, a ser o centro da vida popular, ruidosa assembleia de conversas, ideias, realizações. Ali se escondiam pais e mães-de-santo perseguidos, ali foram preservadas riquezas dos axés, ali o pai Procópio curou-se da surra de chicote que lhe rasgou as costas na polícia. Na porta, porém, já não se vê cartaz a anunciar espetáculos de declamação e dança, de samba e maxixe. Mané Lima e a Gorda Fernanda se exibem em outras salas. Quanto à marmota, há muitos anos está fora de circulação. Uma única vez voltaram Pinguelinho e Zé Piroca a trocar bofetes na disputa de Lili Chupeta, quando Zabela exigiu assistir ao “auto moralista sobre os enganos da amizade”

— Quelle horreur! Vocês são uns porcos, des sales cochons! — disse a velha, morta de riso, ante a chalaça e a vilania da função.

— Vivemos muito tempo desses bonecos e de sua pouca-vergonha — explicou Archanjo: — Foi nosso ganha-pão.

— Você veio mesmo de muito baixo — comentou a condessa.

— Será que em cima é melhor, por acaso mais limpo?

Zabela encolheu os ombros: tem razão, em toda parte a sujeira é igual, a amizade é vendida por um níquel.

Nem por um níquel nem pela moeda inestimável do amor de Rosa de Oxalá vendera o amigo. Daqui saí e aqui permaneço. Se em algo mudei e certamente assim aconteceu, se dentro de mim romperam-se valores e foram substituídos, se morreu uma parte de meu ser antigo, não renego nem renuncio a nada do que fui. Nem sequer à mar-mota suja e indecente. Em meu peito tudo se soma e se mistura. Ouçam! Lídio, Tadeu, Zabela, Budião, Valdeloir,Damião de Souza, major do povo e meu menino, ouçam!Só desejo uma coisa: viver, entender a vida, amar os homens, o povo inteiro.

Os anos passam, um ou outro cabelo branco, nem uma ruga no rosto liso. Pedro Archanjo, o passo gingado, bem posto na roupa cuidada, atravessa o Pelourinho rumo ao Terreiro de Jesus. No laboratório de parasitologia, na Faculdade de Medicina, o professor Silva Virajá analisou e descreveu o esquistossoma, tornou-se célebre. Naquela sala o sábio estuda e contribui para o conhecimento da disenteria, da leishmaniose tegumentar, da doença de Chagas, das micoses, da moléstias tropicais. Pedro Archanjo vai lhe pedir maia um favor: que aceite ser, em companhia do professor Bernard, da Escola Politécnica, padrinho do casamento de Tadeu.

Aproxima-se a data do aniversário de Lu, a maioridade. Durante meses, a moça estivera exilada na fazenda,em companhia da Mãe. Trouxeram-na de volta, na esperança de vê-la interessar-se em pretendente digno. Com Archanjo, Lídio e Zabela, em longas conferências, Lu examinou o plano em conjunto e nas minúcias.

— Já que eles não querem ceder, não resta outro caminho Aliás, quem se opõe mesmo é Papai. Se fosse por Mamãe, eu a convenceria, mas ela pensa pela cabeça do velho, e ele, o coronel Gomes, não dá o braço a torcer. Sentia-se em sua voz quanto queria e admirava o Pai. –Quase retira a mesada de Astério só porque ele ficou a nosso favor.

Astério escrevera ao fazendeiro aprovando o casamento, dizendo bem de Tadeu, “a quem dedico fraternal estima”. “Quem pediu seu aviso?”, perguntou o coronel, em carta violenta: “Minha filha casará com genro de meu gosto e escolha”.

Aliás já escolhera, a acreditar na frequência dos convites ao doutor Rui Passarinho para almoços e jantares. Advogado de poderosa clientela, grandes firmas, homem de representação e de prestígio, o doutor Passarinho, aos trinta e seis anos, não tivera tempo para namoros, desde cedo enfronhado no escritório e nas lides da justiça: já havia quem o considerasse ferrenho celibatário. Na missa, em São Francisco, viu a moça Lu com os grandes olhos e os cachos loiros; a imagem o perseguiu no sonho. Voltou a vê-la, duas ou três vezes. Em casa, deu notícia da formosa jovem à mãe viúva. A menina dos Gomes? Bonita, sim, mas não tão menina, já passou dos vinte, está à beira do barricão, meu filho. Família boa, fartura de dinheiro, terras infinitas, muito gado nos pastos, ruas de casas de aluguel no Canela, no Barbalho, na Lapinha — pensando bem amenina dos Gomes era o ideal para o filho solteirão.

A própria mãe do doutor Rui Passarinho falou a dona Emilia do interesse do filho e armaram o plano de um jantar. Um jantar, um almoço, outro jantar, outro almoço, o doutor foi sendo levado, pelas duas senhoras, e quase à sua revelia, às portas do casamento. Quanto a Lu, muito educada, muito gentil, e nada mais. Para divertir Zabela,imitava o desconcerto do advogado à espreita de uma brecha para declarar-se, e sem saber como agir, o que pensar. Coitado, vai ter uma surpresa!

Na última semana, à espera de Tadeu, acertaram os detalhes, apertaram os parafusos. Pedro Archanjo fora ao professor Bernard, transmitira o convite. Teve longa conferência com frei Timóteo no claustro do convento, as barbas do frade haviam embranquecido mas o riso conservara-se jovem. Por intermédio de Damião, do major Damião de Souza, Pedro Archanjo recebeu um convite do juiz Santos Cruz para ir vê-lo em casa. Longo tempo conversaram. Faltava apenas falar com Silva Virajá.