Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 19 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 3

— Pois já decifrei, meu bom. Me chamo Pedro — respondeu voltando-se para a moça; adivinhara a pergunta e, fazendo como a gringa o fizera, repetiu: — Pedro, Pedro, Pedro Archanjo, Ojuobá.

— Oju, Oju — ela o chamou.

Era quarta-feira de cinzas. Na véspera, terça-feira gorda, o Afoxé dos Filhos da Bahia fora dissolvido na espaldeirada e nas patas dos cavalos em frente ao Teatro Politeama, após haver desfilado e imposto a liberdade e o samba. O moleque Damião derrubara de seu cavalo um cavalariano e trouxe-lhe o quepe de troféu. Não o exibira sequer a Terência, no receio de castigo. Saiu correndo para buscá-lo no esconderijo da quadrilha, no areal. Quando retornou com seu butim de guerra, já Archanjo e a sueca não estavam.

Quem ficou no auge do entusiasmo foi Manuel de Praxedes, na véspera o próprio Zumbi dos Palmares, com sua compleição de gigante, seus quase dois metros e o peito de prensa. À tarde, no afoxé e na briga; de madrugada, na alvarenga, no porão do cargueiro ancorado durante a noite, Não tivera tempo sequer para conversa e comentário com Archanjo e Lídio, com Valdeloir e com Aussá; abrira caminho no conflito, derrubando uns quantos babaquaras da polícia, só fora rir no mar, à espera do navio. Com sua mão de ferro acariciou a testa do menino:

— Moleque topetudo!

— Eu corto o topete dele — ameaçou Terência, a voz baixa e grave, os olhos na distância.

— Ora, sinhá Terência, quem não houvera de brigar ontem? O direito estava com a gente, onde já se viu?

— É um menino, não tem idade para tanto.

Um menino? O mais moderno guerrilheiro das hostes de Zumbi, apto para o combate, e a prova ali estava, o quepe do soldado. Riu com toda a força Manuel de Praxedes e sua gargalhada estremeceu os fundamentos do Mercado.

No rumo do Tabuão, sob o chuvisco, a sueca e Archanjo sem palavras mas num riso só. Na barraca um silêncio incômodo, por quê? Manuel de Praxedes retomou o fio da conversa:

— Vosmicê não foi ontem ver o carnaval, sinhá Terência?

— Para ver o quê? Não tenho gosto de festa e carnaval, seu Manuel.

— Para ver a gente, o afoxé, eu que saí de Zumbi, Damião trajado de guerreiro. Mestre Pedro havia de gostar de lhe ver lá.

— Não faço falta a ninguém, menos ainda a meu compadre. Tem tanto para quem olhar, nem me enxerga. Agora, até branca de navio. Seu Manuel, me deixe no meu canto, em meu sossego, com meus abusos.

O vento trazia farrapos de riso; longe, no areal, Archanjo e a sueca, de mãos dadas.

3

Com gestos e risos, se entendiam fácil; de mãos dadas passearam: assistiram às cinzas na Igreja de ouro de São Francisco, na Igreja de pedras da Sé, na Igreja azul do Rosário dos Pretos. Espectros de luto, velhas beatas curvas ao peso das culpas do tempo pagão do carnaval, dos pecados dos homens, recebiam as cinzas da penitência. Quem merece a misericórdia de Deus? A sueca, de surpresa em surpresa, de igreja em igreja, os olhos arregalados, a mão apertando o braço de Archanjo.

Andaram ruas e ladeiras, ele lhe mostrou a Tendados Milagres de portas fechadas. Lídio Corró, na véspera, esvaziara ao menos uma pipa na comemoração; não ia acordar antes do meio da tarde. Então, com muitos gestos e muito riso, ela lhe perguntou onde ficava sua moradia. Ali bem perto; mansarda sobre o mar, com alua e as estrelas pela noite. Há cinco anos alugara a água-furtada, ao espanhol Cervino, e nela habitaria por mais de trinta.

Na escada escura e abrupta trafegavam ratos, e quando um deles, desmedido, saltou em cima da sueca, deu-lhe tal susto ou tal pretexto, que ela se viu nos braços de Archanjo e lhe entregou a boca de sal e maresia. Frágil criança, ele a tomou ao colo e a carregou escada acima.

Cheiro de folhas de pitanga e uma cachaça envelhecida em barrilete de madeira perfumada. Num canto da mansarda, uma espécie de altar, mas diferente; ferramentas e emblemas de encantados, em lugar de imagens; o peji de Exu com seu fetiche, seu itá. Para Exu, o primeiro gole da cachaça.

Por vezes diziam ser Archanjo filho de Ogun, muitos pensavam-no de Xangô, em cuja casa tinha alto posto e título. Mas quando punham os búzios e faziam o jogo, quem de imediato respondia, antes de outro qualquer, era o vadio Exu, senhor do movimento. Vinha depois Xangô por seu Ojuobá, Ogun, estava perto e vinha Yemanjá. Na frente, Exu a rir, amedrontador e fuzarqueiro. Não resta dúvida, Archanjo era o Cão.

Kirsi parou ante o peji, depois a pela janela o navio mercante, mais além do forte. Na chaminé, um fio de fumaça. “Minha embarcação”, dizia ela em seu dialeto, ele entendeu e olhou as horas no relógio — a hora em ponto do meio-dia, e os sinos confirmaram. Ao som dos sinos, ela se despiu sem exibição e sem vexame, natural e simples,com um sorriso e uma palavra em finlandês, uma jura, um dito, quem sabe lá. Ao som dos sinos estiveram; a tarde andou para o poente e nem se deram conta.

Já não eram os sons do sino e, sim, o importuno apito do navio, aviso de partida, arrancando da zona do meretrício, a grumetes e marujos. Do bueiro subia a fumaça em borbotões. Silvo longo para chamar a retardatária passageira. Na água-furtada, os dois eram um só, no mesmo sonho adormecidos. Archanjo lhe ensinara o acalanto e o cafuné. Em seu idioma extravagante, musical porém, com um ninar do Norte ela o embalou.

Acordaram ao mesmo tempo, na insistência do cargueiro aflito; o relógio marcou as três e meia da tarde. Archanjo pôs-se de pé, roto de saudade, fulo de desejo, fora tão pouco e se acabara! O barco, o mar, o comandante a reclamavam, Archanjo enfiou as calças, ela riu.

Levantou-se toda nua e branca, pela janela acenou adeus ao barco. A mão desceu pelo peito de Archanjo,pele veludosa de mulato, parou na cintura, que ideia essa de vestir-se? Várias coisas a estrangeira disse, e Archanjo soube, de um saber sem dúvidas, que era de amor esse falar.

“Gringa — respondeu ele ao pé da letra — o mulato que faremos juntos, se for homem, será o homem mais inteligente e forte, Rei da Escandinávia ou Presidente do Brasil. Mas, ah! se nascer mulher, nenhuma outra vai com ela poder se comparar em formosura e porte. Vamos já”.

Ainda largo tempo apitou o mercante pela perdida passageira e a polícia foi notificada. O comandante ordenou a partida, finalmente: impossível atrasar mais. Bem lhe dissera seu patrão, o armador, ao ver a viajante no convés: “essa maluca vai lhe dar dor de cabeça; não me atrase a viagem por favor, quando no primeiro porto ela sumir”. Foi na Bahia, onde a mistura se processa.

Vamos depressa, gringa, e façamos devagar, vamos depressa! As palavras se cruzavam, de amor umas e outras.