Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 38 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 6

Tão relegada ao esquecimento, dessa polêmica pode- se dizer ter sido fundamental e decisiva: enterrou o racismo na vergonha da anticiência, sinônimo vil de charlatanice, de reacionarismo, arma de classes e castas agonizantes contra a indomável marcha. Se não terminou com os racistas — sempre haverá imbecis e salafrários em qualquer tempo ou sociedade — Pedro Archanjo os marcou aferro e fogo, apontando-os na rua, “eis, meus bons, os antibrasileiros”, e proclamou a grandeza do mestiço. Oh, que ousada opinião!

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— Não, nobre colega, eu não diria completamente despido de interesse — considerou o professor Nilo Argolo: — Esperar obra de maior substância da pena de um bedel, de um pardavasco, seria insensatez. Deixe à parte, por desarrazoada, a insolente defesa da miscigenação. Por certo cabe ao mestiço fazê-la, e não ao senhor ou a mim,brancos com acesso às fontes de ciência. Abandone os aspectos ridículos, as conclusões, e atente apenas na profusa cópia de informações curiosas sobre os costumes. Sinto-me obrigado a confessar não ter tido notícia anterior de certas práticas expostas pelo mequetrefe.

— Sendo assim, talvez decida-me à leitura, mas confesso pouca inclinação, ando com o tempo muito ocupado. Ali vem ele e eu vou à minha aula — disse o professor Oswaldo Fontes sumindo pela porta da sala. Colega, amigo e continuador, cria intelectual do Professor Argolo, tinha-lhe um pouco de medo. Nilo Argolo de Araújo não era apenas um teórico, era um profeta e um líder.

Conversavam acerca do livro de Pedro Archanjo, e o professor Argolo assombrara o correligionário ao pedir-lhe: — Indique-me o cafuzo, se o ver. Não atento na fisionomia dos criados, detendo-me apenas nos que me servem diretamente. Bedéis, conheço somente os de minha cátedra; os demais parecem-me idênticos uns aos outros, todos cheiram mal. Em casa, dona Augusta, minha senhora, obriga a vassalagem a banhar-se todos os dias.

Ao ouvir o nome da excelentíssima dona Augusta Cavalcanti dos Mendes Argolo de Araújo, “dona Augusta, minha senhora”, o professor Fontes saudou numa inclinação de cabeça a fidalga e truculenta esposa do ilustre catedrático. Dama à antiga, filha de condes do Império, esbanjando nobreza, a cabeça erguida, a palmatória sempre à mão, Dona Augusta não se impunha apenas à criadagem: arrogantes políticos vacilavam ao enfrentá-la. Racista convicto, considerando os mulatos uma sub-raça desprezível e os negros uns macacos com o dom da palavra (e olhe lá!), apesar disso o professor Fontes sentiu penados domésticos da família Argolo: individualmente qualquer dos cônjuges era difícil provação para um mortal, imagine-se os dois juntos!

Pedro Archanjo vinha pelo corredor em direção à porta de saída, alegre no dia lavado de sol, e gingava ao som da melodia de um samba de roda, assoviando-a baixinho em respeito ao recinto da Faculdade. A voz imperativa o reteve perto da porta, quando já deixava crescer o volume do assovio, pois a praça era livre para a algazarra e o canto: — Ouça, bedel.

Abandonando a contragosto a melodia, Archanjo voltou-se e reconheceu o professor. Alto, erecto, todo em negro, seco de corpo, voz e comportamento implacáveis o professor Nilo Argolo, catedrático de Medicina Legal,glória da Faculdade, parecia fanático inquisidor da Idade Média. Luz crua e fulva nos olhos miúdos revelava o místico e o sectário:

— Aproxime-se.

Archanjo adiantou-se lentamente em seu passo gingado de capoeirista. Por que o detivera o catedrático? Teria lido o livro?

Perdulário, Lídio Corró enviara exemplares para diversos professores. Papel e tinta custavam dinheiro e, para atender às despesas cada exemplar era vendido com pequena margem de lucro nas livrarias e de mão em mão. Mas mestre Corró fez-se apoplético quando Archanjo lhe recordou os gastos e criticou a prodigalidade. “Esses papagaios de colarinho duro, compadre, esses papudos, precisam ver de que é capaz um mulato baiano”. Escrito pelo compadre Pedro Archanjo, porreta entre os porretas,composto e impresso em sua tipografia, “A Vida Popular da Bahia” parecia-lhe o livro mais importante do mundo. Publicando-o com tanto sacrifício, não ambicionava lucro. Queria, isso sim, esfregá-lo na cara “desses caga-regras, cambada de chibungos”, que consideram mulatos e negros seres inferiores, uma escala entre os homens e os animais.À revelia de Pedro Archanjo, despachara exemplares para a Biblioteca Nacional, no Rio, para o Biblioteca Pública do Estado, para escritores e jornalistas do Sul, para o estrangeiro — era só obter endereço:

— Compadre, sabe para onde mandei o nosso livrinho? Para os Estados Unidos, para a Universidade da Columbia, em Nova Iorque. Achei o endereço numa revista — antes expedira volumes à Sorbonne e à Universidade de Coimbra.

Para os professores Nilo Argolo e Oswaldo Fontes o próprio Archanjo deixara exemplares na Secretaria da Faculdade. Agora, no corredor, perguntava-se se o “monstro” teria lido o volume deselegante, de baixa qualidade.gráfica. Gostaria que assim fosse, pois os trabalhos do professor haviam contribuído para sua decisão de escrever: neles se embebera de raiva.

“Monstro !“ — diziam os estudantes ao citar o professor Argolo, reportando-se, ao mesmo tempo, à sua tão propalada fama de luminar: “É um monstro, lê e fala sete línguas”, e à sua ruindade, à sua desoladora aridez de sentimentos: inimigo do riso, da alegria, da liberdade,nos exames arguidor sem compaixão, tendo prazer em reprovar: “o monstro se esporra todo quando dá um zero”, O silêncio a reinar em sua classe, causava inveja à maioria dos lentes, incapazes de obter tal sujeição dos estudantes. Carismático, não permitia interrupções, muito menos discordância de suas afirmativas de visionário, de iluminado em transe.

Jovens professores, imbuídos de anárquicos modismos europeus, debatiam as matérias com os alunos, escutando objeções, admitindo dúvidas. “Intolerável licenciosidade” — na opinião do professor Argolo de Araújo. Sua sala de aulas não se transformaria “em tasca de heréticos e baderneiros, em bordel de parvoíces”. Quando, “aleitado no mau exemplo de outras cátedras”, um tal de Ju, acadêmico de curso brilhante — distinção em todas as matérias — acusou-lhe as ideias de retrógradas, exigiu inquérito e suspensão do atrevido que lhe interrompera a aula com espantoso brado:

— Professor Nilo Argolo, o senhor é o próprio Savonarola, saído da Inquisição para a Faculdade de Medicina da Bahia!

Não conseguindo reprová-lo no fim do ano — devido aos dois companheiros de banca examinadora, cortou-lhe a unanimidade das distinções com um “simplesmente.” Mas a exclamação do moço revoltado com as ideias discriminatórias do catedrático, passou a fazer parte do acervo de histórias sobre os mestres, repetidas pelos estudantes e espalhadas na cidade. Sem merecer anedotário tão vasto e hilariante quanto o professor Montenegro, herói de chistes sem fim a pôr-lhe em causa os pronomes exatos, as regências de verbos, a obsoleta terminologia e os cômicos neologismos, o soturno catedrático de Medicina Legal dera motivo a abundante cabedal de chalaças, divertidas ou ácidas críticas, por vezes de baixo calão, à rigidez monárquica de seus métodos e preconceitos.

Uma anedota — por sinal verdadeira — conta que,sendo amigo de longa data do doutor Marcos Andrade,juiz de direito da capital, num comércio de relações cordiais a durar há mais de dez anos, ocorreu ao professor visitá-lo certa noite, na observância de estabelecido hábito mensal. Após o jantar, na intimidade da família, o magistrado pusera-se a la frescata, ou seja, conservando-a calça de listras, o colete, o colarinho duro e o plastrão, retirara o redingote, devido ao intenso calor da noite de mormaço, sufocante.

Informado pela criada da presença do amigo ilustre,à espera na sala de visitas, precipitou-se o magistrado aseu encontro, e na pressa de cumprimentá-lo e de gozar do prazer de tão sábia conversação, esqueceu-se de envergar o redingote. Ao vê-lo assim descomposto, em indecente traje, numa intimidade quase de alcova, o professor Argolo pôs-se de pé:

— Até hoje pensei que Vossa Senhoria tinha-me consideração Vejo que me enganei — e sem mais dizer saiu porta fora. Recusando explicação e desculpas do meritíssimo, retirou-lhe para sempre afeição e cumpri mento.

Grosseira, suja e sem dúvida falsa, a notícia dada em versos e entre risos no Terreiro de Jesus, maligna vingança do estudante Mundinho Carvalho, reprovado pelo monstro:

“Vou cantar em versos brancos Para evitar rimas em preto O caso que se passou: O doutor Nilo Argolo Nosso nobre catedrático Com preconceito de cor Mandou raspar os pentelhos da condessa dona Augusta tão lindos mas, ai, tão negros.”

Ao aproximar-se, Pedro Archanjo notou que Nilo Argolo punha os braços atrás das costas para impedir qualquer tentativa de aperto de mão. Um calor subiu- lhe ao rosto.

Com o desplante de quem examinasse bicho ou coisa, atentamente o professor estudou a fisionomia e o porte do funcionário; no rosto infenso refletiu-se indisfarçável surpresa ao constatar o garbo e a limpeza nos trajes do mulato, o perfeito decoro. De certos mestiços, o catedrático pensava e, em determinados casos, até dizia: “Este merecia ser branco, o que o desgraça é o sangue africano”.

— Foi você quem escreveu uma brochura intitulada “A Vida...

— ... Popular da Bahia”... — Archanjo superara a humilhação inicial, dispunha-se ao diálogo. — Deixei um exemplar para o senhor na Secretaria.

— Diga “senhor professor” — corrigiu, áspero, o lente ilustre. — Senhor professor, não senhor apenas, não se esqueça. Conquistei o título em concurso, tenho direito a ele e o exijo. Compreendeu?

— Sim, senhor professor — a voz distante e álgida, o único desejo de Pedro Archanjo era ir-se embora.

— Diga-me: as diversas anotações sobre costumes, festas tradicionais, cerimônias fetichistas que você classifica de obrigações, são realmente exatas?

— Sim, senhor professor.

— Sobre cucumbis, por exemplo. São verídicas?

— Sim, senhor professor.

— Não foram inventadas por você?

— Não, senhor professor.

— Li sua brochura e, tendo em conta quem a escreveu — novamente o examinou com os olhos fulvos e hostis —, não lhe nego certo mérito, limitado a algumas observações, bem entendido. Carece de qualquer seriedade científica e as conclusões sobre mestiçagem são necedades delirantes e perigosas. Mas, nem por isso deixa de ser repositório de fatos dignos de atenção. Vale leitura.

Pedro Archanjo, em novo esforço, transpôs a muralha a separá-lo do professor, reatou o diálogo: — O senhor professor não acredita que tais fatos falam a favor de minhas conclusões?

De sorriso escasso, pouco frequente na linha fina dos lábios, para o professor Argolo o riso solto era rareza quase sempre provocada pela tolice, pela imbecilidade dos indivíduos:

— Faz-me rir. Seu alfarrábio não contém uma única citação de tese, memória ou livro; não se apoia na opinião de nenhuma sumidade nacional ou estrangeira, como ousa dar-lhe categoria científica? Em que se baseia para defender a mestiçagem e apresentá-la como solução ideal para o problema de raças no Brasil? Para atrever-se a classificar de mulata nossa cultura latina? Afirmação monstruosa, corruptora.

— Baseio-me nos fatos, senhor professor.

— Asnice. O que significam os fatos, de que valem, senão os examinamos à luz da filosofia, à luz da ciência? Já lhe aconteceu ler algo sobre o assunto em pauta? — mantinha seu riso de zombaria: — Recomendo-lhe Gobineau. Um diplomata e sábio francês: viveu no Brasil e é autoridade definitiva sobre o problema das raças. Seus trabalhos estão na biblioteca da Escola.

— Li apenas alguns trabalhos do senhor professor e do professor Fontes.

— E não o convenceram? Você confunde batuque e samba, hórridos sons, com música; abomináveis calungas,esculpidos sem o menor respeito às leis da estética, são apontados como exemplos de arte; ritos de cafres têm, a seu ver, categoria cultural. Desgraçado deste país se assimilarmos semelhantes barbarismos, se não reagirmos contra esse aluvião de horrores. Ouça: isso tudo, toda essa borra, proveniente da África, que nos enlameia, nós a varreremos da vida e da cultura da Pátria, nem que para isso seja necessário empregar a violência.

— Já foi empregada, senhor professor.

— Talvez não tivesse sido na forma e na medida necessárias — sua voz, habitualmente seca, tomou um timbre mais duro; nos olhos hostis de impiedosa condenação, acendeu-se a luz amarela do fanatismo: — Trata-se de um cancro, há que estirpá-lo. A cirurgia aparenta ser forma cruel de exercer-se a medicina, mas em realidade é benéfica e indispensável.

— Quem sabe, matando-nos a todos... um a um, senhor professor.

Atrevia-se à ironia, o bigorrilha? A glória da Faculdade fixou o bedel com olhos de suspeita e ameaça mas só lhe viu a face composta, a postura correta, nenhum sinal de desrespeito. Tranquilizado, seu olhar fez-se sonhador e num riso quase jovial considerou a proposição de Archanjo:

— Eliminar a todos, um mundo somente de árias?Mundo perfeito! Grandioso, irrealizável sonho! Onde o temerário gênio capaz de tomar da atrevida ideia e levá-la à prática? Quem sabe, um dia, invicto deus da guerra cumprirá a missão suprema? Visionário, o professor Argolo perscrutou o futuro e pressentiu o herói à frente das coortes arianas. Fulgurante imagem, instante glorioso, um segundo apenas: desceu à mísera realidade:

— Não creio necessário chegar a tanto. Basta que se promulguem leis proibindo a miscigenação, regulando os casamentos: branco com branca, negro com negra e com mulata, e cadeia para quem não cumprir a lei.