Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 50 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 2

Durante mais de um decênio, de 1907 a 1918, nos onze anos decorridos entre a publicação de “A Vida Popular na Bahia”, e de “Influências Africanas nos Costumes da Bahia”, seu segundo livro, Pedro Archanjo estudou. Com ordem, método, vontade e obstinação. Necessitava saber e soube: leu o que havia sobre problemas das raças. Devorou tratados, livros, teses, comunicações científicas, artigos, percorreu coleções de revistas e jornais, rato de bibliotecas e arquivos.

Não deixou de viver com intensidade e paixão, de pesquisar no quotidiano da cidade e do povo. Apenas, aprendeu também nos livros e, investigando sobre um tema central, enveredou por múltiplos caminhos do conhecimento e fez-se capaz. Tudo quanto empreendeu naqueles anos teve objetivo, intenção e consequência.

Mestre Lídio Corró impunha-lhe pressa. Indignava-se ao ler nos jornais as provocações e as ameaças, os título sem negrita: “Até quando permitiremos que a Bahia seja imensa e degradante senzala?”

— Parece que o compadre quebrou a caneta, arrolhou o tinteiro. Cadê o outro livro? Você fala muito nele mas não vejo você escrever.

— Meu bom, não me aperte, ainda não estou preparado.

Para espicaçá-lo, Lídio alteava a voz na leitura de artigos e noticiários nos jornais: candomblés invadidos, pais-de-santo presos, festas proibidas, presentes de Yemanjá apreendidos, capoeiristas tratados a bainha de facão na Chefatura de Polícia.

— Os homens estão baixando o pau na gente, com vontade. Não é preciso ler essa livralhada para se dar conta — apontava os opúsculos, as revistas médicas, os livros acumulados na mesa: — Basta abrir a gazetas; só se vê reclamação contra roda de samba, capoeira, candomblé, notícias ruins. Se a gente não tomar tento, acabam com tudo.

— Você tem razão, meu bom. Querem acabar com a gente.

— E você, que sabe tanto, o que é que faz?

— Tudo isso, camarado, é devido a esses professores e suas teorias. É preciso combater a causa, meu bom. Escrever carta para os jornais, protestando, é útil mas não resolve.

— Muito que bem. Por que então não escreve o livro?

— Estou me preparando para isso. Ouça, compadre; eu era mais ignorante do que um pedaço de pau. Entenda isso, meu bom. Pensava que sabia muito e não sabia nada.

— Não sabia nada? Pois eu penso que mais vale esse saber daqui, do Tabuão, da Tenda dos Milagres, do que o de sua Faculdade, compadre Pedro.

— A Faculdade não é minha e não nego o valor da sabedoria popular, meu bom. Mas aprendi que esse saber sozinho não é bastante. Vou lhe explicar, camarado.

Às voltas com livros, cadernos e deveres, Tadeu não perdia palavra do padrinho. “Meu bom compadre, declarava Archanjo a Lídio, devo uma grande obrigação a esse professor Argolo que deseja capar negros e mulatos, a esse mesmo que açula a polícia contra os candomblés, o Monstro Argolo de Araújo. Para me humilhar — e me humilhou —, exibiu-me, um dia, minha ignorância inteira.Primeiro, fiquei com raiva, safado da vida. Depois, pensei: é certo, ele tem razão, sou um analfabeto. Eu via as coisas, meu bom, mas não as conhecia, sabia de tudo mas não sabia saber”.

— Você, compadre, está dando para falar pior do que professor de Medicina. “Eu não sabia saber”, parece charada ou adivinha.

— Um menino come uma fruta e logo sabe o gosto que ela tem mas não conhece a causa desse gosto. Eu sei as coisas, preciso aprender o seu porque e estou aprendendo. Hei de aprender, camarado, lhe garanto.

Enquanto se preparava, escrevia cartas às redações, protestos contra a malévola campanha e as crescentes violências da polícia. Quem se der ao trabalho de ler essas cartas — as poucas publicadas, algumas sob sua assinatura, outras firmadas por “Um Leitor Indignado”, “Um Descendente de Zumbi”, “Um Malê”, “Um Mulato Brasileiro” — poderá facilmente acompanhar a evolução de Archanjo no decorrer dos anos. Apoiados na citação de autores nacionais e estrangeiros, os argumentos adquiriam força, faziam-se convincentes, irrespondíveis. Nas “Cartas à Redação”, Mestre Archanjo temperou sua pena, aprendeu a manejá-la numa linguagem clara e precisa, sem perder aquele toque de poesia presente em tudo quanto escreveu.

Travou, sozinho, desigual polêmica com a quase totalidade da imprensa baiana da época. Antes de enviá-la, lia a papelada aos amigos na “Tenda dos Milagres”. Entusiasmado, Manuel de Praxedes propunha-se “a partir a cara desses caga-sebos”. Budião balançava a cabeça a cada tópico, em sinal de aprovação, Valdeloir batia palmas, Lídio Corró sorria, Tadeu era o portador. Dezenas e dezenas de“Cartas à Redação”: algumas obtiveram espaço nos jornais, no todo ou em parte, a maioria foi atirada à cesta de papéis, duas mereceram tratamento especial.

A primeira, longa, quase um ensaio, fora enviada à redação de um dos jornais mais constantes e virulentos no ataque aos candomblés. Em exposição serena e extrema-mente documentada, analisava o problema das religiões animistas no Brasil, e exigia que lhes fossem assegurados “a liberdade, o respeito e os privilégios concedidos às religiões católica e protestante pois os cultos afro-brasileiros são a fé, a crença, o alimento espiritual de milhares de cidadãos tão dignos quanto os que mais o sejam”. Dias depois, a folha abriu, em primeira página, artigo em três colunas, a linguagem desabrida e furibunda, o título em tipos fortes: “PRETENSÃO MONSTRUOSA”.Sem transcrever nem refutar os argumentos de Archanjo, a eles apenas se referia para dar conta “às autoridades, ao clero e à sociedade da monstruosa pretensão dos fetichistas que exigem, EXIGEM!, em carta a esta redação, sejam suas indignas práticas de feitiçaria alvo do mesmo respeito, gozem dos mesmos privilégios, situem-se no mesmo plano espiritual da sublime religião católica, da sagrada Igreja de Cristo e das seitas protestantes, de cujas heresias discordamos sem negar entretanto a origem cristã de calvinistas e luteranos”. Ao fim da diatribe, a redação reafirmava à sociedade baiana o propósito de manter cada vez mais intenso “o combate sem tréguas à abominável idolatria, ao bárbaro baticum das macumbas que fere os sentimentos e os ouvidos dos baianos”.

A segunda foi utilizada por gazeta nova, de tendência liberal, em busca de leitores e popularidade. Archanjo a redigira em resposta à ácida catilinária do professor Oswaldo Fontes, nas páginas do órgão conservador, sob o título de “Um brado de alerta”. O lente de psiquiatria reclamava atenção das elites e dos poderes públicos para um fato que, a seu ver, constituía ameaça gravíssima ao futuro do país: as Faculdades de ensino superior do Estado começavam a sofrer, em seu corpo discente, funesta invasão de mestiços. “Torna-se cada vez maior o número de indivíduos de cor a ocupar as vagas que deviam ser reservadas exclusivamente aos moços de famílias tradicionais e de sangue puro”. Impunha-se drástica medida: “a proibição pura e simples de matrícula a esses elementos deletérios”. Citava o exemplo da Marinha de Guerra, onde negro e mestiço não podiam aspirar ao oficialato, e tecia elogios ao Itamaraty que, de maneira velada porém firme, “impede o alastramento da degradante mancha em seus requintados quadros diplomáticos”.