Tenda dos Milagres
Capítulo 9
O terceiro apito, o camareiro com a sineta: visitas para terra, passageiros a bordo, o navio vai desatracar. Chegara a hora dos abraços e das lágrimas, dos lenços acenando adeus. Os quatro amigos descem para o cais, formam um pequeno grupo entre os guindastes. De repente, veem Tadeu correndo escada abaixo. Aflita, a moça de cachos loiros procura reconhecer alguém no tombadilho, mas como enxergar se os grandes olhos estão embaçados e há tanta gente em torno? Tadeu!, geme em desespero, a voz se perde no rumor das despedidas. Ei-lo a seu lado, arfante. Durante um segundo infinito e breve, contidos em meio aos curiosos, fitam-se mudos, ele lhe beija a mão, recua para o barco. Tadeu! clama, patética e insensata, e lhe estende os braços e os lábios. Tadeu arranca-se do beijo, alcança a escada, adeus.
Na boca da barra o navio se despede em rolos de fumaça, um último apito. O lenço no derradeiro aceno, adeus amor, não me esqueça. Lentamente o cais se despovoou, nas sombras do crepúsculo apenas Archanjo e Lu.
— Pedro Archanjo? — a moça estendeu-lhe a mão fina, veias azuis, dedos esguios: — Me chamo Lu, sou a noiva de Tadeu.
— Noiva? — sorriu Archanjo.
— Entre ele e eu. O senhor sabe, ele me disse.
— É tão menina.
— Mamãe me oferece um noivo cada dia, diz que cheguei à idade de casar. — Era um feixe de nervos, incontida flama, e o riso semelhava água a rolar sobre leito de pedras, claro e límpido: — Quando eu lhe apresentar meu noivo, mamãe vai ter um chilique, o maior de sua vida. — Abrindo ainda mais os grandes olhos fitou Archanjo bem de frente: — Não pense que não sei como vai ser difícil. Quem melhor sabe sou eu, conheço minha família, mas não me importo. Não tenha medo.
— Dessas coisas, nunca tive.
— Quer dizer: por mim não tenha medo. Coube a Archanjo fitá-la nos olhos: — .Nem por você nem por ele, por nenhum dos dois — sorriu com o rosto todo: — Não terei medo, meu bem.
— Vou amanhã para a fazenda, quando voltar posso lhe ver?
— Sempre que deseje. Basta dizer a Zabela.
— Sabe até isso? Já me disseram que o senhor é feiticeiro, babalaô, não é? Tadeu me fala tanto a seu respeito, conta maravilhas. Adeus, não me leve a mal.
Aproximou-se e o beijou na face, o crepúsculo fulgia ouro e cobre no horizonte. Minha menina, vai ser o fim do mundo, se prepare. Era feita de nervos, fogueira em chamas.
9
Ao passar na Sé, em frente das vitrinas da Livraria Espanhola, de don Leon Esteban, e da Livraria Dante Alighieri, nome pomposo do sebo de Giuseppe Bonfanti, Pedro Archanjo espia com o rabo do olho os exemplares de “Influências Africanas nos Costumes da Bahia” em meio às últimas edições nacionais e a livros estrangeiros, importados por don Leon. Volume de quase duzentas páginas, as letras do título num luxo de tinta azul no centro da capa e, no alto, o nome do autor, em tipos que imitavam escrita manual, “um itálico lindo”, no dizer de mestre Lídio Corró. Dissolve-se a vaidade em pensamentos, meditativo Mestre Archanjo atravessa a Praça: o livro custara-lhe dez anos de esforço e disciplina; para escrevê-lo se transformou, já não é o mesmo.
Jogando dinheiro fora, don Leon comprara cinco exemplares em conta firme, pusera dois na vitrina, “para ello más importante es veer el libro en la vidreria”, enviara um para a Espanha, de presente a amigo dado a estudos de antropologia. Por curiosidade, não pelo valor científico na certa inexistente, livro de bedel mordido pelo micróbio da ciência. Maluquice bem mais comum do que se pensa; de poetas e filósofos está repleta a cidade da Bahia e don Leon possui vasta experiência desse tipo de autor. Aparecem-lhe diariamente na livraria, esgazeados, belicosos, a barba por fazer, originais sob o sovaco, sonetos e poemas, contos e romances, tratados filosóficos sobre a existência de Deus e o destino do homem.
De raro em raro, um desses gênios consegue dinheiro e meios, imprime a “obra imortal”, vem direto a don Leon vender exemplares. Entre os portadores do bacilo da literatura e os infectados pelo vírus da ciência, don Leon preferia os poetas, em geral pacatos e sonhadores,enquanto os filósofos exaltavam-se facilmente, dispostos a salvar o mundo e a humanidade com teorias originais e irrefutáveis. Archanjo, juízo fraco na convivência de doutores, dera em antropólogo e etnólogo mas possuía jeito de poeta, um dos mais simpáticos da estranha fauna, pobre diabo merecedor de melhor sorte.
Informado, lido, de trato discreto e agradável, don Leon recomendava autores a literatos e estudantes. Pusera em moda Blasco Ibañez, Vargas Vila, o argentino Ingenieros, o uruguaio José Enrique Rodó. Ingenieros e Rodo para professores, Vargas Vila popularíssimo entre os estudantes, Blasco Ibañez para as ilustríssimas famílias: variada era a freguesia de don Leon, eclético o gosto do livreiro.
Juizes, desembargadores, professores das diversas Faculdades, jornalistas de alto coturno, as figuras mais importantes da vida intelectual frequentavam-lhe a livraria e os conhecimentos: don Leon recebia catálogos da Argentina, dos Estados Unidos, de toda a Europa. Intermediário na importação de obras inexistentes no Brasil, aceitava encomendas. Também Pedro Archanjo utilizara seus bons serviços para trazer livros da França, da Inglaterra, da Itália, da Argentina. Acontecera, mais de uma vez, a encomenda chegar em ocasião tão comum de aperto de dinheiro, o espanhol fiava: “quede con los libros, pague cuando le sea más comodo”. “Fique descansado, don Leon, até sábado pagarei”. Don Leon apreciava no mulato a correção no pagamento e nos trajes, a limpeza de quem acabara de sair do banho, a educação a distingui-lo da maioria dos filósofos, em geral rudes pensadores, agitados, mal vestidos, sujos e facadistas.
De fala mansa e simpática presença, nem por isso menos maluco com a mania de cientista, a gastar dinheiro, um dinheirão! em obras estrangeiras, várias das quais nem mesmo os professores de Medicina conheciam — pensou don Leon quando Pedro Archanjo lhe apareceu com o livro. “Muy bien, mis felicitaciones”. Num excesso de generosidade, comprou cinco exemplares, colocou dois na vitrina mas não pensou sequer folhear a deselegante brochura, não tinha lazer nem senso de humor para tais compêndios de demências.
Contrastando com a organização da Livraria Espanhola, os volumes nas estantes, classificados por assunto,língua e autor, o grupo de vime ao fundo para o cavaco dos fregueses ilustres, o empregado de colarinho e gravata —, o sebo de Bonfanti era um mafuá, rumas de livros pelo chão, o balcão atulhado, espaço reduzido para a vasta freguesia de estudantes ruidosos, de pitorescos subliteratos, de velhos em busca de literatura frascária. Dois moleques insolentes e famintos despachavam entre chalaças. No caixa, Bonfanti, ostentando há sete anos, desde que ali se estabelecera, o mesmo sebento e gasto terno azul de casimira, a voz esganiçada, em compra e venda: — Dez tostões, se quiser.
— Mas, seu Bonfanti, comprei essa “Geometria” aqui mesmo, na segunda-feira e paguei cinco mil-réis — lembrava o estudante.
— Comprou livro novo, está vendendo livro usado.
— Usado? Nem abri, está novo em folha, como saiu daqui. Dê ao menos dois mil-réis.
— Livro que saiu da livraria é livro usado. Dez tostões, nem um vintém a mais.
Não adquiriu à vista nenhum exemplar das “Influências”: não levava a tais extremos a amizade pelo autor.Recebera vinte em consignação e espalhara uns cinco na vitrina pequena, a dos livros novos. Reservava a grande para os usados, base de seu lucro. Camarada de Archanjo, trocavam receitas culinárias em almoços domingueiros na Tenda ou em casa de Bonfanti, em Itapagipe, sob a presidência de dona Assunta, gorda e falastrona rainha da macarronada. Em se tratando de comida, transformava-se Bonfanti em cidadão amável e pródigo, comer era seu vício.
Aquela vaidade de autor de livro novo a namorar vitrinas durou pouco. Pedro Archanjo foi completamente absorvido pelas comemorações de seus cinquenta anos: sucessão ininterrupta de carurus, “dona Fernanda e seu Mané Lima mandam convidar o senhor para o caruru que dão no domingo pra seu Archanjo”, de batucadas, rodas de samba, encontros, reuniões, comilanças e pileques, to-dos queriam celebrá-lo. Mestre Archanjo mergulhou por inteiro naquele mar de cachaça, bailes e mulheres, no maior entusiasmo. Parecia querer recuperar de um golpe o tempo gasto, durante tantos anos, no estudo, no preparo do livro. Com fome e sede de vida, num desparrame de energias, era visto em toda parte, apareceu em lugares onde não voltara desde a juventude, reviu paisagens e refez itinerários esquecidos. Novamente vadio e ocioso, conversador em soltas gargalhadas, sempre disposto a um trago, em ronda de mulheres, a assuntar um tudo, a tomar notas com a ponta do lápis na pequena caderneta negra.Com gula e pressa, ávido.
O livro não lhe custara apenas mais de dez, anos de responsabilidade e contenção, pagou alto preço em crenças, pontos de vista, opiniões, preceitos, maneiras de ver e de agir; antes era um, agora outro, diferente. Quando se deu conta, fora virado pelo avesso, tinha nova medida de valores.
— Compadre Pedro, você está parecendo um senhor –disse-lhe Lídio Corró ao vê-lo sair de livro em punho no rumo da Faculdade.
— Senhor de que, meu bom? Já me viu dono de alguma coisa, camarado?
A opinião do compadre, seu mabaça, o alertou. Lídio Corró temia vê-lo partir. Não em viagem para outras terras de muda ou de passeio. Ir-se embora, simplesmente. Abandoná-los, a todos eles. Talvez fosse o único aperceber a mudança interior, o novo homem que crescera por dentro do antigo Pedro Archanjo bravo e um tanto irresponsável, libertário porém inconsequente, audaz, sem dúvida, mas de vistas limitadas. Para o povaréu do Tabuão e Pelourinho, para o pastoril e a gafieira, para a cantiga e a dança, para a capoeira e o candomblé, permanecia o mesmo mestre Pedro cercado de estima e de respeito: com ele não há quem se compare, até livro escreve, sabe mais do que doutor formado e é nosso igual.A benção, meu tio, diziam os ogans. A benção, meu pai Ojuobá na voz das feitas, a benção! Majé Bassan teria sedado conta da mudança? Se assim foi, ninguém o soube, nem Archanjo.
Aos cinquenta anos Pedro Archanjo mergulhou na vida com a avidez de um adolescente. Ademais das razões expostas, não o fazia também para cobrir a ausência de Tadeu?
Do livro ocupou-se mestre Lídio Corró,. dedicação e confiança. inabaláveis: para ele os livros do compadre eram uma espécie de nova Bíblia, O riscador de milagres adivinhava-lhes a importância porque conhecia em carne e osso a verdade expressa em suas páginas: na perseguição e na briga, na mentira e na verdade, no ruim e no bom. Não tinha mãos a medir na divulgação e na venda de exemplares. Despachara volumes para críticos, professores, jornalistas e gazetas. Faculdades do Sul e do Norte, Universidades estrangeiras, pusera dois pacotes no correio para Tadeu distribuir no Rio.
Tratando Pedro Archanjo de “distinto autor”, em nota de poucas linhas o “Diário da Bahia” anunciou a publicação do livro, e “A Tarde” considerou o volume “um relicário de nossas tradições”. Empolgado com a frase, Lídio exibira o jornal a meio mundo. Dois ou três críticos pronunciaram-se prudentemente sobre o valor da obra, em referências breves. Voltados para a Grécia e a França, últimos helênicos, espirituais leitores de Anatole France, não se sentiam atraídos pelos “curiosos e primitivos costumes da Bahia”, menos ainda por “ousadas e discutíveis afirmações sobre raças”, o elogio à miscigenação, explosivo assunto.
Sucederam-se, porém, alguns fatos significativos. Antes de tudo, registre-se alguma venda em livrarias — parca, é bem verdade — não só na Bahia mas também no Rio. Um jovem livreiro carioca, em começo de carreira, além de encomendar, por intermédio de Tadeu, cinco exemplares à vista, dispusera-se a receber cinquenta em consignação para distribuí-los às livrarias cariocas se “o editor lhe concedesse cinquenta por cento de abatimento”. Elevado a editor, no auge do entusiasmo, Lídio Corró mandou logo o dobro, cem exemplares, e concedeu ao livreiro metropolitano exclusividade nas vendas para todo o Sul do país. Quantos foram vendidos, Lídio não conseguiu apurar, por falta de prestação de contas. Em troca, o jovem mercador de livros fez-se íntimo amigo de Tadeu, nome frequente nas raras cartas a Archanjo: “Tenho visto sempre Carlos Ribeiro, o livreiro meu amigo que é um grande divulgador de seu livro”
Na Faculdade de Medicina tampouco a publicação passou despercebida. Sem falar nos estudantes amigos de Pedro Archanjo a quem Lídio empurrava exemplares, a preços variados, na dependência das disponibilidades do freguês — era preciso vender para pagar a despesa do papel —, o livro provocou debates entre os professores, na sala da secretaria. Arlindo, o outro bedel da cátedra de parasitologia, contou a Archanjo a medonha discussão entre o professor Argolo e o maldizente Isaías Luna. Só faltara sair pancada.
Fingida expressão de lástima no rosto, o professor Luna perguntara ao catedrático de Medicina Legal se era verdade o que os estudantes comentavam no Terreiro. Comentários de estudantes? Sobre o quê? Certamente calinadas, necedades. Não tinha Nilo Argolo tempo para tais sandices. Que diziam?
Diziam ter o bedel Archanjo provado em livro posto à venda naqueles dias a sobrevivência, em terreiros de candomblé da nação gêge, do culto da serpente, do orixá Danh-gbi ou simplesmente Dan. O professor Argolo, em trabalho anterior, negara peremptoriamente qualquer sobrevivência em terras da Bahia de tal culto: nem indício nem notícia. Agora, numa absoluta falta de respeito, ousava o pardo Archanjo exibir o inexistente orixá, Cobra,Serpente, Danh-gbi, Dan, com peji, obrigações, trajes e emblemas, dia de festa e legião de feitas, a dançar no Terreiro do Bongó. E a história dos cucumbis? Essa, segundo os estudantes, era antiga. já no primeiro livro o mestiço contestara afirmações de Argolo e agora encerrava o assunto com tal cópia de provas que...
Não, quanto às teorias sobre raças, ele, Isaías Luna, branco baiano, preferia não aprofundar o assunto, não ia meter a mão em cumbuca, não era doido. Mas, ao que dizem, seu Argolo, o bedel discute à base de autoridades de primeira ordem, exibe uma cultura...