Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 70 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 23

E os Araújos? Repetia a pergunta de Zabela: por que falava tanto o professor nos Argolos e silenciava os Araújos? Para esconder, quem sabe?, o Negro Araújo, aquele magnífico coronel Fortunato de Araújo, herói da guerra da Independência, mulato do Recôncavo, sem dúvida o mais nobre entre todos os nobres do açúcar pela inteligência, pela coragem, pela ilustração.

Nos “Apontamentos”, mestre Archanjo expôs a verdade completa e as famílias finalmente puderam conhecer de onde provinham, contemplar não apenas uma face mas o rosto inteiro, o trigo e o carvão, e saber quem se deitou na cama. O mundo veio abaixo.

23

Os estudantes manifestaram a favor de Pedro Archanjo discursos candentes no Terreiro de Jesus contra a discriminação e o racismo. Juntaram-se os de Medicina aos de Direito e Engenharia, promoveram o enterro do professor Nilo d’Ávila Argolo de Araújo, Nilo Oubitikô. Um caixão de defuntos, faixas e cartazes, discursos em cada esquina, pelas ruas da cidade em comentário e riso os estudantes protestaram contra a perseguição a Pedro Archanjo. A polícia dissolveu o enterro no Campo Grande e o caixão ficou ao abandono, não chegou a ser queimado no Terreiro de Jesus em simbólica fogueira “erguida pelo ódio bovino do próprio professor Argolo, um energúmeno”, na frase do bacharelando Paulo Tavares, desde mocinho numa cadeira de rodas, paralítico, nem por isso me-nos agitado e turbulento líder e orador.

Cercaram e aplaudiram o bedel quando ele, sorridente e tranquilo, deixou a Faculdade, na tarde em que a Congregação, reunida em pleno, decidiu demiti-lo do cargo humilde, exercido a contento durante quase trinta anos, e proibir sua entrada no recinto da Escola.

Imensa vaia recebeu o professor Nilo Argolo, à saída da reunião. Atravessou a Praça aos gritos de “Monstro!" "Nilo Oubitikô!” “Carrasco!” Reclamou a presença de guardas, garantias da policia. Oswaldo Fontes, Montenegro, alguns outros igualmente comprometidos com a triste causa, receberam idênticas manifestações de desagrado. Fraga Neto, em troca, foi aclamado e ocupou improvisada tribuna para mais “uma vez lavrar meu protesto contra a injusta e mesquinha vingança exercida contra um funcionário exemplar, um estudioso de elevados méritos; protesto agora em praça pública como o fiz na Congregação, com indignação e revolta !“

Detalhes da reunião vieram a público. O professor Isaías Luna, voltado para Argolo perguntara-lhe: “Vai o senhor professor permitir que toda a Bíblia dê razão àquele estudante que certa feita o classificou, em aula, de Savonarola? Novamente o senhor vem de estabelecer o Tribunal da Inquisição na Faculdade de Medicina da Bahia”. Histérico, o professor Argolo tentara agredir o livre-docente. Ao final da assembleia, antecedendo a votação, foi lida carta de Silva Virajá, enviada de São Paulo, onde tomara conhecimento das medidas propostas pela secretaria da Faculdade à Congregação com o fim de “desagravar o professor Nilo Argolo, agredido em sua honra pelo bedel Pedro Archanjo”. Silva Virajá escrevera: “Expulsem o bedel, se assim lhes parecer, cometam a injustiça, exerçam a violência. Jamais conseguirão, no entanto, apagar dos anais da Faculdade de Medicina o nome de quem criou, na humildade e no trabalho, obra redentora do conceito de nossa Escola arrastado tão baixo pelos pregadores do ódio de raças, falsos cientistas, pequenos homens”

Demitido e aclamado, Pedro Archanjo desceu a Ladeira do Pelourinho. Na Tenda dos Milagres esperavam-no Lídio Corró e dois secretas da polícia.

— Esteje preso! — disse um dos agentes.

— Preso? Por que, meu bom?

— Aqui está escrito: desordeiro, capadócio, mau elemento. Vamos, toque em frente.

— Não me deixaram sair daqui, compadre, dar aviso — informou Lídio.

Entre os dois secretas seguiu preso Pedro Archanjo Ojuobá. Na Polícia Central foi trancafiado no xadrez. Ao chegar à esquina do Pelourinho, cruzara com uma patrulha de soldados que tomou o rumo do Tabuão.

Apenas os agentes partiram com Archanjo, Lídio Corró saiu em busca do doutor Passarinho. Não o encontrou no escritório, no Fórum, em casa, em parte alguma. Conseguiu avisar o doutor Fraga Neto, voltou à casa do advogado, foi tirá-lo da mesa. Doutor Passarinho prometeu ir à polícia assim terminasse de jantar: aquela prisão era um absurdo, ficasse tranquilo, ele poria Archanjo em liberdade daí a pouco. Prometeu e cumpriu, pelo menos em parte. Foi à polícia, e ali já encontrou o professor Fraga Neto. As ordens, porém, eram severas: o pardo há muito merecia uma lição. Veja: um prontuário enorme.

A notícia se espalhou e, sem prévia combinação, de toda parte começou o povo a se dirigir para a Praça em frente à Central de Polícia. Homens e mulheres, mulatos,brancos e negros, velhos e jovens, Terência e Budião, o santeiro Miguel e Valdeloir, Mané Lima e a Gorda Fernanda, Aussá. Gente pobre, de todos os lados, cada vez mais, crescente romaria. Marchavam sozinhos ou em grupos de três e quatro, por vezes uma família inteira, mães com filhos ao colo, todos no rumo da Praça.

Diante da Central se juntaram, primeiro algumas dezenas de pessoas, logo centenas e centenas, cada vez mais, cada vez mais. Onde a notícia chegava punha o povo a caminhar. Saíam dos becos, das vielas miseráveis, das oficinas, das tendas, dos botequins, das casas de mulheres, de toda a parte vinham para a Praça. À frente de todos era visto o major Damião de Souza, de terno branco por ser filho de Oxalá, colarinho de ponta virada, charuto na boca, o verbo em cólera.

Sobre um caixão de gás, a mão ao alto, as palavras de fogo, o discurso interminável. Descia da tribuna, atravessava a porta da Central, sumia no corredor, voltava exaltado. Novamente em cima do caixote recomeçava a falação. Iniciou seu discurso no crepúsculo, penetrou noite adentro: que crime cometeu Ojuobá, de que acusam Pedro Archanjo, a quem matou, a quem roubou, que crime cometeu?

Que crime cometeu? — perguntava o povo.

Lá dentro discutiam delegados, o advogado Passarinho, o Chefe de Polícia, o professor Fraga Neto. Sem uma palavra do Governador, nada posso fazer, repetia o Chefe de Polícia. Foi ele próprio quem deu a ordem de prisão, só ele pode mandar soltar. Do destino do Governador ninguém sabia, saíra após o jantar sem deixar recado.

Ainda cedo, Lídio Corró recebera más notícias, partira às carreiras para a Tenda dos Milagres, quando chegou e viu o estrago os soldados tinham ido embora.

Do alto do caixão de gás, a voz rouquenha erguida contra a violência, o major Damião de Souza perorava, no fim e no recomeço do discurso: liberdade para o homem bom que jamais mentiu, que jamais utilizou o saber para fazer o mal, liberdade para o homem que sabe e ensina, liberdade

Noite alta e ainda vinha gente pelas ruas, a Praça plena. Vinham de longe, de ínvios caminhos, traziam lanternas e fifós. Luzes pobres penetravam a Praça da Polícia ocupada pelo povo. Uma voz cantou: Ojuobá, outra respondeu, mais outra e outra, o canto andou de boca em boca, se elevou aos céus, foi ecoar no xadrez. Voz numerosa e única, terno cantar de amigo. Archanjo estava contente, fora um dia divertido. Estava cansado, fora um dia fatigante. Voz inumerável, doce cantiga de amor. Pedro Archanjo adormeceu no embalo do acalanto.

Filosofando sobre o talento e o sucesso, despede-se Fausto Pena: já era tempo.

É ÓBVIO que o talento e o saber não bastam para assegurar o êxito, a vitória nas letras, nas artes, na ciência. Difícil é a luta de um jovem pela notoriedade, áspero seu caminho. Lugar-comum? Certamente. Tenho o coração pesado e busco somente expressar meu pensamento sem me preocupar com pompas de estilo e fantasia.

Para obter-se pequeno aplauso, nome nas colunas, citação em jornais e revistas, vasqueiros bafejos do sucesso, paga-se alto preço em compromissos, hipocrisias, silêncios,omissões — digamos de uma vez a palavra exata: baixezas.Quem se nega a pagar? Entre os colegas de sociologia e musas, antropologia e ficção, etnologia e crítica, não sei de nenhum que tenha regateado. Em compensação, os de maior calhordice são os mais exigentes em matéria de integridade e decência — dos outros, é claro. Posam de incorruptíveis, proclamam-se de caráter sem jaça, vivem com a boca cheia de dignidade e consciência, ferozes e implacáveis juízes da conduta dos demais. Admirável desfaçatez. Dá resultados, há quem neles acredite.

Em nosso tempo industrial e eletrônico, de corrida aos astros e guerrilha urbana, quem não for vivo e caradura, quem não meter o peito com audácia e descaro, está campado. Inteiramente campado. Não dá para a saída.

De velho e quadrado literato ouvi, no entanto, há poucos dias, esdrúxula opinião, em amargo desabafo: segundo ele, os jovens de hoje encontram-se ante inúmeras e brilhantes oportunidades, multiplicadas opções, o mundo é nosso e a prova aí está, o Poder Jovem.

Aí está o Poder Jovem, não há dúvida, longe de mim negá-lo, considero-me parte do grande movimento. No fundo do meu ser dorme um inconformado, um marginal da sociedade, um radical, um guerrilheiro e disso faço praça nas ocasiões devidas (atualmente vasqueiras e perigosas, não preciso explicar os motivos, estão na cara, como se diz). Os jovens impõem sua Revolução, comandam o mundo, tudo isso é certo, mas a juventude passa e faz-se necessário ganhar a vida. Dizer que as oportunidades sobram e a vitória está ao alcance de qualquer um, ah, isso, não! Por um lugar ao sol, um lugarzinho pequenino, tenho feito o diabo, tenho lutado com obstinação e bravura, dói-me a cerviz. Aos trambolhões, pagando o preço que me foi exigido, onde cheguei? O que obtive? Melancólico é o balanço. De importante, a pesquisa em torno a Pedro Archanjo, encomenda do genial James D. Levenson, meu cartão de visita. O resto: nonadas, migalhas. A coluna da Jovem Poesia, adjetivos de elogio ao meu talento poético, elogio mútuo — toma lá dá cá — a promessa de um programa vesperal na TV, fora do horário nobre, “A Bossa Jovem”. O que mais? Três poemas incluídos na Antologiada Jovem Poesia Baiana, organizada por Ildásio Taveira e editada por órgão governamental, no Rio. Três poemas meus, cinco de Ana Mercedes — imaginem!

Eis aí, em resumo, o que até agora conquistei em dura competição e árduo esforço. Ao total não somei a fornicação de algumas poetisas, nem todas tão sinceras e limpas quanto necessário. Em verdade, vegeto pobre e inédito. De grande e belo, moeda de ouro verdadeiro, a vida deu-me apenas Ana Mercedes e a gastei por ciumento.

Vale consignar ainda, no saldo credor, a carta-contrato finalmente assinada pelo senhor Dmeval Chaves, dono de livraria e editora, graúdo do comércio e da indústria. Compromete a publicar em dois mil exemplares o trabalho sobre Pedro Archanjo, pagando-me direitos de autor: dez por cento sobre o preço de capa dos exemplares vendidos e prestação de contas semestrais; Parece-me bem, desde que ele preste realmente contas.

No dia histórico da assinatura da carta-contrato, no escritório da Rua da Ajuda, no primeiro andar do edifício da livraria, cercado de telefones e secretárias, o mecenas esteve cordial e acreditei-o generoso. Em minha vista adquiriu uma gravura original de Emanoel Araújo e a pagou ao contado, sem discutir o preço do artista esnobe e laureado, um desses protegidos da sorte. Explicou-me o editor estar reunindo quadros, gravuras, talhas, desenhos, para as novas paredes de sua casa no Morro do Ipiranga, a Colina dos Milionários, que acabara de reformar acrescentando-lhe terceiro pavimento: pai de oito filhos pretende ir aos quinze, se Deus lhe mantiver forças e caráter. Tanto desperdício encorajou-me a lhe fazer dois pedidos.

Solicitei, primeiro, modesto adiantamento sobre os direitos autorais. Nunca vi tão rápida transformação fisionômica. O nédio e aprazível rosto do editor, aberto até então em riso e euforia, fechou-se em decepção e tristeza ao ouvir a palavra “adiantamento”. Para ele, disse-me, tratava-se de uma questão de princípios. Firmamos um contrato, cláusulas explícitas, deveres e direitos. Apenas acabamos de assiná-lo e já o queremos destruir, agindo em desrespeito à letra expressa dos parágrafos? Se rompermos uma cláusula que seja, o contrato perderá qualquer valor e seriedade. Uma questão de princípios. Quais, não fiquei sabendo. Solidíssimos, porém, pois não houve argumento capaz de arrancar o editor da recusa terminante. Tudo o que eu quisesse menos o abandono dos princípios.

Encerrado o incidente, retornaram-lhe cores e sorrisos à face afetuosa, recebeu em festa o gravador Calazans Neto e sua mulher, Auta Rosa, pediu minha opinião sobre os diversos trabalhos trazidos pelo famoso artista. Vacilava na escolha, em dúvida e dois ou três. Pelo visto, aquele era o dia da gravura. Após a demorada opção e o respectivo pagamento — esses tipos recebem na ficha, aliás são as esposas que fazem preço e cobram, sabidas e careiras —, o casal partiu e eu tentei a segunda investida: conforme sabem, sou obstinado.

Abri o peito e confessei: não tenho outra ambição além de ver nas vitrinas e balcões das livrarias uma coletânea, um pequeno livro contendo meus poemas escolhidos, na capa o nome deste sofrido vate. Os poemas merecem certamente edição, festa de lançamento, tarde de autógrafos e leitores. Quem o diz não sou eu, são os mais importantes críticos jovens do Rio e de São Paulo. Possuo respeitável quantidade de opiniões, algumas impressas em colunas de literatura, outras inéditas, rabiscadas em restaurantes e bares por ocasião da viagem que fiz ao Rio em companhia de Ana Mercedes, ah! saudosos dias de festa e exaltação. Com o apoio de tais louvores, eu poderia tentar editor no Sul, mas tendo ele, Dmeval Chaves, contratado o volume sobre Archanjo, em prova de amizade resolvi lhe entregar para edição os originais desses “poemas de ubíqua conotação supra-social” na frase de Henriquinho Pereira, opinião suprema, indiscutível e carioca. Livro para sucesso, de crítica e venda. Venda segura, esteja certo. Um cético, esse senhor Dmeval Chaves. Duvidou da venda. Nem certa nem incerta. Agradeceu- me, ainda assim, a preferência, afirmando-se comovido com tal prova de estima. Curioso: sentia-se o predileto dos poetas — bastava ter poemas para um volume corriam a ele, destinavam-lhe as primícias.

Abri mão de direitos autorais, de graça lhe ofereci minha poesia, não a quis. Não me fechou de todo as portas, no entanto. Dispunha-se a estudar o assunto se eu, tão bem relacionado no Rio, lhe trouxesse um compromisso, melhor: um empenho de verba, do Instituto Nacional do Livro, para a compra de quinhentos, no mínimo trezentos exemplares da coletânea. A tiragem dependeria da compra: de seiscentos a oitocentos volumes.

A ideia não é má, vou tentar, fiz relações no Rio, apliquei os dólares em almoços, jantares, uísque e boates, veremos agora se pagam juros. Quem sabe se não voltarei em breve à presença dos leitores, não na qualidade de árido sociólogo e, sim, de libertário cantor do tempo novo, mestre da Jovem Poesia? Ao ver-me vitorioso autor de livros publicados, poeta federal, talvez se comova Ana Mercedes e a flama do amor novamente lhe queime o peito ardente. Mesmo para dividi-la com a música popular e os compositores, com outros jovens poetas, mesmo para carregar os chifres do Universo, não me importa, ainda assim a quero, longe de seu corpo fenece a poesia.

Quanto a mestre Pedro Archanjo, aqui o deixo, na cadeia, não o acompanho adiante, não vale a pena. Que saldo positivo oferecem seus últimos quinze anos, à exceção do livro de culinária? Greve, operários, decadência, miséria. O doutor Zezinho Pinto convenceu-me a respeitar a integridade moral dos grandes homens, apresentando-os limpos de defeitos, vícios, tiques, pequenezas, mesmo se tais imperfeições existiram em vida. Não vejo por que recordar momentos maus e tristes quando a glória finalmente ilumina a figura do mestre baiano. Que figura? Para falar com toda franqueza, nem eu mesmo sei. Nessas festas grandiosas do centenário é tão estridente o barulho, as girândolas da louvação oficial espoucam com luz tamanha que se torna difícil enxergar os contornos exatos da figura. Da figura ou da estátua?

Ainda ontem, o dinâmico Prefeito deu a moderna rua da cidade o nome de Archanjo e novamente o autor de “A Vida Popular na Bahia” viu-se promovido a patrono de empresários, em discurso de vereador bastante analfabeto. Nem o Prefeito com toda autoridade conseguiu pôr as coisas no devido lugar, nem ele pôde restituir Archanjo ao seu tempo e à sua pobreza. Impressionante: ninguém se refere à obra e à luta de Archanjo. Artigos e discursos,anúncios e cartazes de propaganda, utilizam-lhe o nome e a glória para louvar terceiros: políticos, industriais, cabos de guerra.

Contaram-me que em recente homenagem à sua me- morta — instalação do Colégio Pedro Archanjo no bairro popular da Liberdade —, na presença de autoridades civis, militares e religiosas, o orador oficial da cerimônia, o doutor Saul Novais, funcionário responsável por assuntos Culturais, advertido a tempo sobre os inconvenientes de referências à democracia racial, mestiçagem, miscigenação, etcetera e tal, temas subversivos — tudo aquilo que é vida e obra do homenageado — não teve dúvidas, resolveu o problema de forma radical (e admirável) : eliminou mestre Archanjo do discurso. Sua magnífica oração, hino aos mais nobres .sentimentos de patriotismo dos brasileiros. versou sobre o outro Archanjo, “o primeiro, aquele que da Bahia partiu soldado voluntário para defender nos campos da guerra, no Paraguai, a honra e a grandeza da Pátria” Contou do heroísmo, da bravura, da cega obediência às ordens dos superiores, supremas qualidades que lhe valeram dragonas e citações antes de morrer no posto de combate, exemplo para o filho e para as gerações futuras. Assim, de passo, rápida e discretamente citou Pedro Archanjo, rebento do imortal soldado. Saiu- se bem, descalçou a luva, um finório.

Quem sou eu para me meter em tais cavalarias? Por que mostrar mestre Archanjo velho e maltrapilho, descendo o Pelourinho no rumo dos míseros castelos? O monumento cresce à luz das homenagens: na estátua, quase branco puro, sábio oficial de Faculdade, capado e mudo, vestido com a túnica de soldado, Pedro Archanjo, glória do Brasil.

Despeço-me, senhores, deixo Pedro Archanjo na cadeia.