Tenda dos Milagres
Capítulo 8
Apontou Caçula entre os assistentes: Aí está, Senhores Jurados, a maior vítima! A citada tinha o choro fácil e antes de sair de casa engolira dois tragos de cachaça para poder ouvir em silêncio os insultos a seu homem. Da primeira vez fora um horror. Ei-la, Senhores Jurados, a pobre e santa esposa, lavada em lágrimas, é ela quem exige justiça para o marido. Eu reclamo apenas, à vista das peças dos autos, a absolvição de meu constituinte.
Houve o bis proposto por Manuel de Praxedes. Ofendido em sua vaidade, vendo em perigo o renome a duras penas conquistado, o Promotor pediu os autos ao escrivão e replicou. Munido de leis, autores, citações, provas dos autos, levou a acusação a sério, não podia ser derrotado por um garoto que não era sequer estudante de direito, um recadeiro de meirinhos, cata-níqueis de escrivães, um João-ninguém. Tentou botar os pontos nos ii, desmentir a absurda fábula, era tarde demais, não houve jeito. Na tréplica, Damião fez do corpo de jurados o que bem quis e entendeu, o farmacêutico Filomeno Jacob soluçava alto.
Na assistência, “um mar de lágrimas” como constatou o repórter de “A Tarde”.
Por unanimidade, o Conselho de Sentença absolveu o réu. Coube ao juiz Santos Cruz ditar a sentença e mandar pôr em liberdade Zé da Inácia. “Pouco faltou para que eu também chorasse, nunca vi em minha vida coisa igual — disse o Meritíssimo ao Promotor em pânico — Vou lhe obter carta de rábula, nunca mais faltará advogado para os pobres”.
Assim se deu a formatura de Damião. Formatura sem anel de grau, sem canudo de doutor, sem quadro, sem retrato de beca, sem baile, sem paraninfo, sem colegas, ele só e único. Quando a função terminou, a pobre Caçula que, apesar de tudo, gostava de seu homem a havia perdido as esperanças de vê-lo em liberdade, veio até o rapazola imberbe e agradeceu:
— Deus que lhe pague, seu Major.
Por que Major? Só ela sabia, coisas do passado; major Damião de Souza para todo o sempre.
8
Ao reconhecer a voz do rapaz, na porta da mansarda, “com licença, padrinho”, Pedro Archanjo escondeu as provas tipográficas sob uns livros: — É você, Tadeu? Entre. Chovia lá fora, chuva miúda e persistente, tristonha: — Por aqui? O que houve?
Logo depois da formatura, Tadeu conseguira emprego na construção da Estrada de Ferro Jaguaquara — Jequié, na qualidade de engenheiro-auxiliar. Ordenado pequeno, precárias condições de trabalho, O moço, porém, preferia essa experiência concreta no interior do Estado a ficar mofando em escritório de engenharia, batendo pernas na capital, candidato a sinecura, a cargo público. Não me formei para isso.
— Preciso lhe falar, padrinho.
Da cama vinha a respiração de Rosália. Archanjo deixou a cadeira e foi cobrir a opulenta nudez da rapariga.Ela adormecera a sorrir, no calor das doces palavras de ternura, tão boas de ouvir e tão desejadas. Há mais de dez anos, apenas completara os dezessete, o indolente Roberto, filho do coronel Loureiro, segurou-lhe o queixo e disse: Menina, você está em ponto de cama. Depois do filho, foi a vez do pai. O coronel lhe deu um vestido e uns trocados, Rosália praticou em Alagoinhas, na pensão de Adri Vaselina. Veio para a Bahia com um caixeiro-viajante e Pedro Archanjo a encontrou no Terreiro de Jesus comprando laranjas. Só então Rosália soube com certeza que era um ser humano e não uma coisa, um trapo, uma puta tão-somente.
— Preciso lhe falar, padrinho — repetiu Tadeu, — Quero seu conselho.
— Vamos sair. — Archanjo sentiu um peso no coração. O jogo feito na manhã da formatura voltou-lhe à memória: trabalhos, viagens, penas de amor, disseram os búzios.
Subiram a ladeira, em passo lento, viram, de relance, Lídio Corró na Tenda às voltas com os tipos e o aprendiz. Tadeu falava, Archanjo ouvia de cabeça baixa. Conselho? Por que conselho, se já resolvera tudo e até passagem no navio reservara?
— Conselho não vou lhe dar nem você veio aqui pedir opinião. Mas acho que você pensa direito. Vou sentir muita falta — reafirmou: — Vou sentir demais. Mas não posso lhe prender aqui.
Tadeu decidira deixar o emprego na construção da Estrada e partir para o Rio de Janeiro, onde integraria a equipe de engenheiros que, sob o comando de Paulo de Frontin, transformava a capital do país numa cidade moderna. Devia o convite ao professor Bernard, amigo de Frontin. Tendo ido ao Rio, falara do talento de seu jovem protegido, trabalhador, ambicioso e capaz, aquisição valiosa para a turma do grande engenheiro. “Mande o rapaz,preciso de gente moça e disposta”.
— É minha oportunidade, padrinho. No Rio, o campo é vasto. Aqui, não tenho outro jeito senão terminar funcionário da Secretaria de Viação. Não me formei para ser burocrata, preso numa carteira, ganhando ordenadinho, à espera de promoção. No Sul, posso fazer carreira, sobretudo trabalhando com quem vou trabalhar. Poucos têm essa sorte. O professor Bernard mostrou-se um amigo de verdade.
— Só isso, Tadeu? Não tem mais nada a contar, outro assunto a discutir?
Mestre Archanjo sabia que o principal ainda não fora dito. Tadeu buscava as palavras e a maneira de dizer.
— Fale, meu filho.
Quase sempre Archanjo designava Tadeu pelo nome, às vezes pelo nome completo: Tadeu Canhoto. Quase nunca lhe dizia “meu bom” ou “camarado”, suas formas habituais de tratamento. Em poucas, pouquíssimas ocasiões disse “meu filho”.
— Padrinho, gosto da irmã de um colega meu. O senhor o conhece, é Astério, uma vez lhe apresentei, foi o orador da turma, se lembra? Agora está nos Estados Unidos, vai ficar uns dois anos por lá, especializando-se nu-ma Universidade. A família é muito rica.
— Cachos loiros, pele transparente de opalina, os olhos grandes.
— Conhece ela, padrinho?
— E essa família de brancos ricos, o que diz do namoro?
— Ninguém sabe nada, padrinho, só eu e ela e agora o senhor. Quer dizer...
— Zabela...
— Ela lhe falou?
— Fique descansado, não me disse nada. É parenta de Zabela?
— Parenta, não. São conhecidas. Quer dizer: a avó de Lu — chama-se Luiza mas a tratam de Lu — foi amiga de Zabela, quando moças, e às vezes vai vê-la para recordar coisas passadas. Daí, Lu conhecer e visitar Zabela. Mas, na família ninguém sabe de nada e não quero que saibam. Pelo menos por ora.
— E por que não quer? Receia que os parentes não consintam?
— Por eu ser mulato? Na família de Lu tem de tudo,não sei o que vai se passar quando souberem. Até agora sempre me trataram muito bem. Como me tratarão depois, não tenho ideia. A mãe tem fumaças de nobreza, a avó, a amiga de Zabela, essa nem se fala. Por vezes chega a ser divertido quando Dona Emília, a mãe, ao repreender uma empregada, a trata de “negra porca”. Olha para mim, sem jeito, só falta me pedir desculpas. Mas, padrinho, não é por isso que faço segredo, o senhor me ensinou a ter orgulho de minha cor. O que não quero é aparecer em casa dessa gente rica para pedir a filha em casamento, com as mãos abanando. Se me disserem não por eu ser mulato, vou dar meu jeito. Mas se permitir que me digam não, por eu não ser capaz de sustentar família, que direito terei a reclamar? Nenhum, não acha?
— Tem razão.
— Vou para o Rio, vou trabalhar, padrinho. Não sou burro e poderei vir a ser um bom profissional. Vou integrar a melhor equipe de engenheiros do país. Penso que,em dois ou três anos no máximo, terei uma situação sólida. Posso, então, voltar e bater palmas na porta da casa de Lu, tendo o que oferecer. É o tempo também que Astério regressa dos Estados Unidos, ele pode ser um alia-do importante para mim um apoio decisivo. Lembra-seque eu ia estudar muitas vezes em casa dele? Ele próprio diz que sem a ajuda que lhe prestei não teria se formado. É meu amigo.
— A moça que idade tem?
— Vai fazer dezoito. Quando eu conheci Astério, no primeiro ano da Faculdade, e ele me levou em casa, Lu tinha doze anos, imagine. Nós nos gostamos há muito tempo mas só no ano passado nos encaramos de frente e juramos.
— Juraram?
— Sim, padrinho! Um dia Lu e eu vamos nos casar.Com certeza! — disse entredentes, quase feroz.
— Por que acha que ela vai lhe esperar?
— Porque gosta de mim e é de uma gente obstinada.Quando querem uma coisa, querem mesmo. Lu saiu ao pai, nunca volta atrás. Sabe com quem o Coronel Gomes se parece? Com o senhor. Em muitas coisas são diferentes, mas em outras são iguais. Um dia o senhor vai conhecê-lo.
— Você se sente disposto e preparado para o que der e vier? Pode ser difícil e talvez terrível, Tadeu Canhoto.
— Não foi o senhor quem me formou, o senhor e meu tio Lídio?
— Quando pensa viajar?
— Pois hoje mesmo. Sai um navio à tarde, tomei passagem.
No fim da tarde, Pedro Archanjo e Lídio Corró acompanharam Tadeu ao cais de embarque. O rapaz almoçara em casa dos Gomes, fora despedir-se. Andara depois numa correria, a abraçar amigos. Majé Bassan lhe deu um colar de contas lavadas e um patuá, talismã retirado do peji de Xangô. Zabela, reumática, quase entrevada, ainda assim pensou levá-lo ao cais. Tadeu não consentiu: fique na cama lendo seus poetas. Zabela fez uma careta, triste fim de vida para quem foi dona de Paris. Manuel de Praxedes e Mané Lima apareceram na última hora, tinham acabado de saber. Dando pressa aos viajantes o navio apitou pela segunda vez.
A despedida era uma solenidade, as distâncias enormes, difíceis de transpor, o Rio de Janeiro ficava muito longe. Archanjo não resiste, abre o cofre do segredo:
— Não ia lhe dizer, queria fazer uma surpresa. O livro está quase todo impresso, falta pouco.
No rosto intranquilo do rapaz expande-se aquela alegria do aprendiz de dez anos atrás, as sombras desaparecem. Ah! padrinho, que notícia! Mande-me logo que saia,mande vários exemplares, vou espalhar no Rio.