Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 37 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 5

“Mestre Archanjo foi dizer

Que mulato sabe ler

Oh! que ousada opinião

Gritou logo um professor

Onde se viu negro letrado?

Onde se viu pardo doutor?

Venha ouvir seu delegado

Oh! que ousada opinião”.

“Depressa seu delegado

Venha ouvir o desgraçado

Oh! que ousada opinião

Gritou logo um professor

Meta o pardo na prisão

Mestre Archanjo foi dizer

Que mulato sabe ler

Oh! que ousada opinião.”

5

Em 1904, o professor Nilo Argolo, catedrático de Medicina Legal da Faculdade de Medicina da Bahia, apresentou a um Congresso Científico reunido no Rio de Janeiro e publicou numa revista médica e em separata, a memória “A degenerescência psíquica e mental dos povos mestiços — o exemplo da Bahia”. Em 1928, Pedro Archanjo escreveu os “Apontamentos Sobre a Mestiçagem nas Famílias Baianas”, pequeno volume do qual somente cento e quarenta e dois exemplares chegaram a ser impressos, e uns cinquenta enviados, por Lídio Corró, a bibliotecas, universidades e escolas nacionais e estrangeiras, a sábios, a professores, a literatos. Durante essas duas décadas travou-se uma polêmica nos bastidores da Faculdade em torno do problema racial no mundo e no Brasil, envolvendo teses, teorias, autores, cátedras e autoridades científicas e policiais. Livros, memórias, artigos, folhetos, foram escritos e publicados e o tema obteve repercussão na imprensa, sobretudo na forma de virulentas campanhas a propósito de aspectos da vida da cidade e de sua condição religiosa e cultural.

Os livros de Archanjo, os três primeiros especialmente, encontram-se diretamente ligados a esse debate e assim se pode avançar uma afirmação categórica: houve, no primeiro quartel do século, no burgo da Bahia, uma luta de ideias e princípios entre certos professores da Faculdade, entronizados nas cátedras de medicina legal e de psiquiatria, e os mestres daquela universidade vital do Pelourinho muitos dos quais só se deram conta dos fatos — e ainda assim em termos restritos — quando a polícia foi chamada a intervir e interveio.

Nos começos do século, a Faculdade de Medicina encontrava-se propícia a receber e a chocar as teorias racistas pois deixara paulatinamente de ser o poderoso centro de estudos médicos fundado por Dom João VI, fonte original do saber científico no Brasil, a primeira casa dos doutores da matéria e da vida, para transformar-se em ninho de subliteratura, da mais completa e acabada, da mais retórica, balofa e acadêmica, a mais retrógrada. Na grande Escola desfraldaram-se então as bandeiras do preconceito e do ódio.

Triste época dos médicos-literatos, mais interessados nas regras da gramática do que nas leis da ciência, mais fortes na colocação dos pronomes do que no trato dos bisturis e dos micróbios. Em vez de lutar contra as doenças,lutavam contra os galicismos, e em vez de investigar as causas das endemias e combatê-las, criavam neologismos: anidropodotecas para substituir galochas. Prosa tersa, vernácula, clássica; ciência falsa, pífia, reacionária.

É lícito afirmar ter sido Pedro Archanjo, quem, com seus livros quase anônimos, com sua luta contra a pseudociência oficial, pôs fim a tão melancólica fase da gloriosa Escola. O debate em torno da questão racial arrancou a Faculdade da retórica barata e da teoria suspeita e a reintegrou no interesse científico, na especulação honrada e original, no trato da matéria.

Revestiu-se a polêmica de curiosas características.

Primeiro, porque a seu respeito falham registros e arquivos, inexistem informes, notícias de qualquer espécie, embora houvesse dado lugar a atos de violência e a manifestações estudantis, Só os fichários da polícia ainda conservam o prontuário de Pedro Archanjo, estabelecido em 1928: “mazorqueiro notório, rebelou-se contra os nobres catedráticos”. As notabilidades que dela participaram jamais admitiram bate-boca quanto mais polêmica com bedel da Escola. Em nenhum momento, em qualquer artigo, ensaio, estudo, memória, tese, os egrégios professores se referiram às obras de Pedro Archanjo para citá-las, discuti-las ou rebatê-las. Também só nos “Apontamentos” Archanjo se reportou de frente e claramente aos livros e folhetos dos professores Nilo Argolo e Oswaldo Fontes (e a alguns artigos do professor Fraga, jovem lente vindo da Alemanha, único em toda a congregação a contestar afirmativas das magnas eminências). Nos livros anteriores Archanjo não citara os dois teóricos baianos do racismo, tampouco seus artigos e opúsculos, não lhes dirigira sua resposta, preferindo contestar afirmativas e teorias arianas com aquela massa irrespondível de fatos, com a defesa ardente e o louvor apaixonado da mestiçagem.

Segundo, porque essa polêmica, tendo finalmente repercutido em toda a Faculdade, em seu corpo docente, em meio aos estudantes e até na polícia, não chegou a atingir nem a comover a opinião pública. A intelectualidade, em seus diversos setores, a desconheceu, deixando-a restrita aos limites da Escola: há referência apenas a um epigrama de Lulu Parola, jornalista de grande prestígio na época. Mantinha sessão diária, em verso, num vespertino, comentando os acontecimentos com graça e mordente humor. Chegara-lhe às mãos um exemplar dos “Apontamentos” e ele gozou, com divertida malícia, o desmascaramento do sangue-azul e da bazófia dos “mulatos escuros”(escuros porque escondida sua condição mestiça), louvando os “mulatos claros” (de clara, proclamada e orgulhosa mestiçagem). Teve assim Archanjo a poesia a seu favor: a popular, a redondilha de cordel, e a do bardo em voga na gazeta e nos salões.

Quanto ao povo, do caso pouco soube. Comoveu-se apenas com a prisão de Ojuobá, apesar de acostumado aos despautérios da polícia. Entre os freges, embelecos, encrencas e barulhos em que Pedro Archanjo se meteu, quiçá houvesse sido esse o de menor repercussão, o que menos tenha concorrido para sua legenda.

Simultaneamente com o debate sobre miscigenação, viu-se Archanjo envolvido na luta entre o delegado Pedrito Gordo e os candomblés. Até hoje narram nas casas de santo, nos mercados e feiras, no cais do porto, nas esquinas e becos da cidade, diferentes versões, todas heróicas,do encontro de Pedrito e Archanjo, quando a atrabiliária autoridade invadiu o Terreiro de Procópio. Repetem sua resposta ao delegado mata-mouros, na frente de quem to-dos se borravam. No entanto, a perseguição aos candomblés era natural corolário da pregação racista iniciada na Faculdade e retomada por certos jornais. Pedrito Gordo punha a teoria em prática, produto direto de Nilo Argolo e Oswaldo Fontes, sua lógica consequência.