Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 44 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 2

— Afinal estamos aqui para homenagear Pedro Archanjo ou para sacar dinheiro de portugueses. Vocês só pensam em faturamento.

— Pedro Archanjo é a chave... — disse Arno, até então calado — a chave do cofre. Gastão Simas interveio:

— O professor Calazans tem razão. A ideia de Hipólito é brilhante mas devemos guardá-la para uma promoção ligada à colônia lusa. As comemorações cabralinas ou o centenário de Gago Coutinho: “De Camões a Fernando Pessoa, de Cabral a Gago Coutinho”. Que tal? — pavoneou-se um instante — Disso, porém, falaremos depois. Agora vamos resolver de uma vez esse cabuloso prêmio. Já devíamos tê-lo lançado, não podemos perder nem um minuto mais. Caro professor, faça uma proposta concreta.

Tirando do bolso uma porção de papéis o professor Calazans espalhou-os na mesa, conseguiu encontrar o regulamento do Prêmio Pedro Archanjo, estabelecido por ele e Edelweiss Vieira, do Centro Folclórico. Arno Melo comoveu-se ao ver a papelada: “Nem pasta de couro, mala 007, o coitado possui, como pode trabalhar? Notas em pedaços de papel deformando os bolsos do paletó, forma típica de subdesenvolvimento. Compre uma 007, professor, e com ela adquira nova personalidade, forte e audaz,empresarial, apta a criar e a desenvolver ideias, a impor opiniões”.

Retado da vida, o professor não precisava de pasta de couro, de mala 007, para impor sua opinião: ou aprovam o prêmio como está nesses papéis, tema, regulamento, comissão julgadora, ou façam-no sozinhos os senhores, usem Archanjo de chave ou de gazua.

2

Gastão Simas conquistara a gerência baiana da Doping S.A. devido antes de tudo à capacidade de conciliar, de quebrar galhos, de colher sorrisos e concordância onde outros só obtinham caras amarradas e desacordo. “É um vaselina genial”, resumia Arno, seu admirador. Quando um cliente, farto das trapalhadas dos rapazes, em fúria devido à repetição de erros nos anúncios, dispunha-se a encerrar a conta, então GS se agigantava, demonstrando inestimável serventia.

Acalmou o professor, “será como o senhor ordene”, e finalmente estabeleceram o plano completo do Prêmio Pedro Archanjo. A proposta inicial do ínclito doutor Zezinho Pinto foi alterada em dois ou três pontos. Ampliou- se a faixa dos concorrentes: além dos secundaristas, também os universitários. Em lugar de simples redação, um trabalho com um mínimo de dez páginas datilografadas sobre qualquer aspecto do folclore baiano, à escolha do candidato: capoeira, candomblé, pesca de xaréu, samba de roda, afoxés, pastoris, a Procissão dos Navegantes, os presentes a Yemanjá, os abecês de Lucas da Feira, o capoeirista Besouro, o pintor Carybé, Nosso Senhor do Bonfim e a lavagem de sua Igreja, a festa da Conceição da Praia e a de Santa Bárbara. Foi mantido o prêmio de uma viagem ao estrangeiro para o primeiro lugar. Não mais a Portugal, porém, e, sim, aos Estados Unidos, pois companhia de aviação norte-americana oferecera as passagens.A viagem a Portugal, GS a reservou para aquela outra promoção, reunindo Pedro Álvares Cabral e Gago Coutinho, já em estudos sob o patrocínio da televisão e de companhia aérea e agência de turismo portuguesas.

Criaram-se novos prêmios: viagem ao Rio de Janeiro, aparelhos de tevê, gravadores, rádios, os sete volumes da “Enciclopédia Juvenil e alguns dicionários. Sentiu-se o professor Calazans compensado, em parte ao menos, de tanta trabalheira e de ouvir tamanhas estultices. Em entre-vista ao “JC” afirmou que “o. Prêmio Pedro Archanjo estimulará nos moços o espírito de pesquisa, o gosto pelo folclore, o interesse pelas fontes da cultura brasileira”.

O professor terminara a leitura da entrevista estampada na primeira página da gazeta e sorria satisfeito quando o telefone o reclamou: Gastão Simas solicitava- lhe o favor da presença nos escritórios da Doping para uns minutos de conversa. Viesse quanto antes; tinha boas novas.

Cancelando o curto tempo de descanso, lá se tocou o sergipano. Gastão Simas e seu estado maior irradiavam contentamento: o júbilo daqueles que comprovam sua competência.

— Caríssimo professor! Deixe-me dizer-lhe: caríssimo colaborador da Doping! Foi sua a ideia inicial.

— Que ideia? –- perguntou Calazans de pé atrás: aqueles especialistas, tão atrevidos e sem escrúpulos em matéria de promoção, publicidade e faturamento, deixavam-no inquieto.

— Recorda-se de nossa reunião de quarta-feira passada, quando decidimos os últimos detalhes do Prêmio Pedro Archanjo?

— É claro que sim.

— Recorda-se de uma referência que o senhor fez a marcas de cachaça?

— Gastão, não me venha dizer que vocês vão botar Pedro Archanjo a recomendar cachaça. Basta com a Coca-Coco, aquela indignidade!

— Não vamos discutir novamente esse pormenor, meu querido mestre. Quanto a anunciar cachaça, fique descansado, os donos da Crocodilo não aceitaram a ideia, exatamente por já ter sido usada pela Coca-Coco. Em compensação, dispõem-se a patrocinar um prêmio a ser disputado entre os alunos das escolas primárias, das públicas somente, a quem até agora, nessa promoção do centenário de Pedro Archanjo, nada oferecemos. Que lhe parece?

— Como é esse tal prêmio?

— Muito simples: cada criança escreverá umas linhas sobre Pedro Archanjo, as professoras selecionarão as melhores, entre as quais uma comissão de pedagogos e escritores escolherá as cinco vencedoras do Prêmio Aguardente Crocodilo.

— Prêmio Aguardente Crocodilo, que coisa!

— Sabe de que constará, professor? Bolsas de estudo,num bom colégio, válidas para todo o curso secundário dos cinco vitoriosos. A Crocodilo oferece as bolsas.

Calazans amoleceu: cinco meninos pobres teriam a possibilidade de cursar o secundário.

— Afinal, a cachaça se comporta melhor do que o refrigerante. Explora o nome de Archanjo mas ao menos oferece alguma coisa. Os da coca, nem isso. Não vejo, no entanto, onde eu entro nesse assunto.

— Entra com o pequeno texto que devemos fornecer às professoras para que possam contar algo sobre Archanjo aos meninos. Meia página, no máximo uma, breve notícia biográfica do nosso herói, que as mestras estudarão, transmitindo depois às crianças uma ideia de quem foi Archanjo. Os meninos a interpretarão, cada qual à sua maneira. Não é uma beleza? É esse texto que queremos lhe pedir, ou melhor: lhe encomendar.

— Não é fácil.

— Nós o sabemos, professor, e por isso mesmo recorremos ao senhor. Aliás, a ideia inicial partiu do professor ao citar marcas de cachaça; E por falar em cachaça, aceita um gole de uísque? É legítimo escocês, não é igual ao do nosso ilustre doutor Zezinho.