Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 6 de 77

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Tenda dos Milagres

Da morte de Pedro Archanjo, Ojuobá, e de seu enterro no Cemitério das Quintas

 

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LADEIRA acima, trôpego, o velho sustenta-se nas paredes dos casarões, quem o visse pensaria em bebedeira, sobretudo se o conhecesse. A escuridão era total, todas as lâmpadas apagadas nas ruas e nas casas, nem uma nesga de luz — medida de guerra, os submarinos alemães rondavam as costas brasileiras, onde se sucediam os afundamentos de pacíficos navios de cargas e passageiros. O velho sente a dor crescer no peito, tenta apressar o passo, se chegasse em casa acenderia a lamparina e anotaria na caderneta o diálogo, a prodigiosa frase; sua memória já não era a mesma de antes, quando guardava uma conversa, um gesto, um fato com todos os detalhes durante meses e anos, sem necessidade de notas. Feito o apontamento do debate, então poderia descansar, aquela dor viera e se fora por mais de uma vez. Nunca tão forte, porém. Ah! se vivesse ainda alguns meses, uns poucos, o suficiente para completar suas anotações, pôr os papéis e mordem e entregá-los ao moço simpático, sócio da gráfica!Uns meses, apenas.

Apalpa a parede, procura ver em torno, a vista se reduzira, não tinha dinheiro para novos óculos, nem para um trago de cachaça tinha dinheiro. A dor mais funda o encosta ao sobrado, arfante. Basta, no entanto, um esforço para chegar em casa, uns quarteirões adiante, ao quartinho dos fundos do castelo de Ester. À luz da lamparina escreverá com sua letra miúda — se a dor se aquietar e permitir. Lembra-se de seu compadre Corró, caído morto em cimado risco do milagre, um laivo de sangue no canto da boca. Tanta coisa fizeram juntos os dois, ele e o riscador de milagres, tanta correria nestas ladeiras, cabrochas derrubadas nos portais. Lídio Corró morrera há muito tempo: uns quinze anos, talvez mais. Há quantos, meu bom? Dezoito,vinte? Já lhe falha a memória, mas a frase do ferreiro ainda a retém, íntegra, palavra por palavra. Apoiado à pare-de, tenta repeti-la, não pode esquecê-la, deve apontá-la quanto antes na caderneta. Apenas uns poucos quarteirões, umas centenas de metros. Num esforço murmura a imprecação final do ferreiro, que a sublinhara com um murro na mesa, a negra mão igual ao malho na bigorna.

Fora ouvir rádio, as estações estrangeiras, a BBC de Londres, a Rádio Central de Moscou, a Voz da América; seu amigo Maluf adquirira um aparelho que pegava o mundo todo. As notícias daquela noite davam gosto, os “arianos” apanhando de criar bicho. Todo mundo xingava os alemães, “os nazistas alemães”, “os monstros alemães”, o velho, porém, só se referia aos “bandidos arianos”, assassinos de judeus, negros e árabes.Conhecia alemães ótimos, seu Guilherme Knodler casara com uma negra e tivera oito filhos, Um dia foram lhe falar de arianismo, ele puxou o cacete para fora das calças e retrucou: