Tenda dos Milagres
Capítulo 8
Soam as palmas das formosas, abre-se a roda do samba, vibra a flauta, cresce o violão. Cada qual com seu segredo, sua ânsia, seu tormento. Aos pés de Archanjo,reclinada, a sueca, toda branca e loira. Mas não está sozinha. Ao lado, ergue-se Sabina dos Anjos, dos anjos o mais belo, Rainha de Sabá, no dizer de Mestre Pedro, com o bucho empinado, à espera de menino; com prenhez e tudo na véspera sambara sem parar e agora mesmo cai na roda, onde já volteia Rosenda Batista dos Reis, a de Muritiba, a mandingueira, legatária dos mandês e dos feitiços.Estendeu-se aos pés de Ojuobá na festa das quartinhas de Oxossi e ele, ao levantá-la, tocou-lhe com a ponta dos de-dos os peitos rijos. Próximo à cadeira, de pé, junco flexível, flor da nação muçurumim com mistura de branco e de ijexá, Risoleta desabrocha num sorriso: na Sé, por detrás da igreja, viu Archanjo e o reconheceu.
A única, porém, a ter ciúmes da gringa marinheira, a única entre todas, é aquela que em seus braços não esteve nunca e cuja boca ele jamais beijou; única a queimar o coração no ódio e a pedir a morte — morte para a branca e para todas elas, sem distinção de cor —, é Rosa de Oxalá,os seios soltos sob a bata, os quadris desatados sob as sete anáguas, dançando em frente aos dois. Lídio suspira num sorriso; daqui a pouco a terá nos braços, alta fogueira. Archanjo se tranca em seu enigma.
Milagre é isso, minha santa, milagre do Bonfim, milagre das Candeias, prodígio de Oxalá — Rosa em canto e dança na Tenda dos Milagres, em noite de aflições e adivinhas.
8
Um sonho desolado, um pesadelo: viu-se nas areias do porto, deserto ardente e ao mesmo tempo frio, igual à febre da maleita. Ele, Archanjo, com o coração à mostra e a estrovenga erguida, se transformara em Zé Piroca e Lídio Corró fez-se Pinguelinho. Entre juras e abraços de amizade eterna tocam flauta e violão.
Vinha Lili Chupeta, sem saia, sem anáguas, sem bata rendada, apenas os colares, as contas, as pulseiras, Rosade Oxalá nua, inteirinha nua, negra azulada, macia rosa, o perfume e o som da voz, tudo velado e grave, a noite imensa e álgida, um céu distante Dançava em frente aos dois, mostrando tudo, e de imediato se viram adversários, inimigos, fundos poços de ódio. Assassinos implacáveis, a morte em punho: flauta e violão e as espadas dos soldados a cavalo. O duelo teve lugar na esquina do trapiche e o corpo de Lídio Pinguelinho, para sempre morto, tombou nas ondas. Nasceu um sol na noite quando o irmão caiu, e requeimou a cal, no último som da flauta.
Era o momento de assumir a posse de Rosa, abrir- lhe as pernas, um musgo se deitar.. De suor coberto, em ânsia e desespero, o peito opresso em calor e frio, febre de maleita, Archanjo luta com o sonho quando já a amizade fenecia aos pés da tentadora.
Não me importa o nobre, não me importa o rico, Rosa, muito ao contrário. Fosse o fidalgo da Cachupeleta, fosse o português dos secos e molhados, lhe ornaria a testa com prazer. Mas entenda, Rosa, e não me olhe assim;se Lídio nascesse de minha mãe, nela posto por meu pai, não seria tão meu irmão, não lhe deveria eu tanta decência e lealdade.
Não, não pode ser — mesmo que de amor eu morra, mesmo que estoure o coração ou vá de porto em porto buscando errante em cada uma teu sabor noturno e teu perfume, em nenhuma decifrando tua adivinha.