Tenda dos Milagres
“Do território mágico e real.”
NO CARNAVAL de 1969, a Escola de Samba Filhos do Tororó levou às ruas o enredo “Pedro Archanjo em Quatro Tempos”, obteve grande sucesso e alguns prêmios. Ao som do samba-enredo de Waldir Lima, vitorioso sobre cinco ótimos concorrentes da ala dos compositores, a Escola desfilou pela. cidade a cantar
“Escritor emocionante
Realista sensacional
Deslumbrou o mundo Oh!
Pedro Archanjo genial
Sua vida em quatro tempos
Apresentamos neste carnaval.”
Finalmente Ana Mercedes pôde ser Rosa de Oxalá e nada ficou a lhe dever em requebro e dengue. A bunda solta, os seios livres, sob a bata de cambraia e rendas, o olhar de frete a pedir cama e estrovenga competente — porque essa mulata, ai, não é para qualquer bimbinha de fazer pipi — enlouqueceu a Praça e o povo. Quem não sonhou com as coxas altas, o ventre liso, o oferecido umbigo? Bêbados e caretas arrojaram-se a seus pés de dança.
Exibia-se Ana Mercedes entre os principais passistas das gafieiras e cada um deles figurava um personagem do enredo: Lídio Corró, Budião, Valdeloir, Manuel de Praxedes, Aussá e Paco Muñoz. No carro alegórico, o Afoxé dos Filhos da Bahia, o Embaixador, o Dançador, Zumbi e Domingos Jorge Velho, os negros de Palmares, os soldados do Império, o começo da luta. Despedaçavam-se no canto:
“Do território mágico e real Grandeza da inteligência nacional Extraiu dos aérea e das coisas Um lirismo espontâneo.”
Kirsi de neve e trigo, vestida de Estrela d’Alva, à frente do pastoril, tão loira e branca, linda sarará da Escandinávia. Dezenas e dezenas de mulheres, grande parte da ala feminina onde se acham inscritas beldades, estrelas, princesas e domésticas da mais alta qualidade, todas em poses sensuais num leito colossal a ocupar sozinho um dos carros alegóricos, talvez o de maior impacto. Precedendo-o no tablado, o Mestre-de-Cerimônias exibe um cartaz com o título daquela alegoria de tantas mulheres reunidas em leito comum e infinito: O DOCE OFÍCIO DE PEDRO ARCHANJO. Lá estavam todas elas em conversê e risos, as comborças, as comadres, as raparigas, as casadas, as cabaçudas, as negras, as brancas, as mulatas, Sabina dos Anjos, Rosenda, Rosália, Risoleta, Terência pensativa, Quelé, Dedé, cada uma sua vez. Do leito partiam seminuas para a roda do samba:
“Glória glória Do mulato brasileiro Contemporâneo Glória, glória.”
Nos atabaques, agogôs, chocalhos e cabaças, o candomblé de feitas, iaôs e orixás. Procópio apanha de chicote no balé sinistro dos secretas, Ogun, imenso negro do tamanho de um sobrado, bota o delegado auxiliar Pedrito Gordo a correr na rua, a se mijar de medo. Prossegue a invencível dança.
Os capoeiristas trocam golpes impossíveis, Mané Lima e a Gorda bailam o maxixe e o tango. A velha, de sombrinha aberta, saia de babados e ritmo de cançã, é a condessa Isabel Tereza Martins de Araújo e Pinho, para os íntimos Zabela, princesa do Recôncavo, mundana de Paris.
Com chifres de diaba, envolta em chamas de papel vermelho, Doroteia anuncia o término do cortejo, desaparece num fogaréu de enxofre.
“Louvemos pois as glórias alcançadas
Nas suas grandes jornadas
Nesse mundo de meu Deus
E tudo que expomos nas avenidas
São histórias já vividas
Contada nos livros seus.”
Capoeiristas, filhas-de-santo, iaôs, pastoras, orixás, o Terno de Reis e o Afoxé, passistas e formosas cantam,dançam e abrem alas. Mestre Pedro Archanjo Ojuobá pede passagem:
“Glória glória Glória glória.”
Pedro Archanjo Ojuobá vem dançando, não é um só, é vário, numeroso, múltiplo, velho, quarentão, moço, rapazola, andarilho, dançador, boa-prosa, bom no trago, rebelde, sedicioso, grevista, arruaceiro, tocador de violão e cavaquinho, namorado, terno amante, pai-d’égua, escritor, sábio, um feiticeiro.
Todos pobres, pardos e paisanos.
Vila Moreira,
na casa fraternal de Nair e Genaro de Carvalho.
Bahia, de março a julho de 1969.
FIM
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Jorge Amado
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