Tenda dos Milagres
Capítulo 5
— Excelente. Com as férias do doutor Natal e a viagem do doutor Humberto, ando em falta. Sente-se, a casa é nossa. O que é que toma? O mesmo que nós? Recomendo. Para abrir o apetite não há melhor — dirigiu-se ao espanhol: — Paco, sirva mais uns pinguelos e venha conhecer o doutor. Benito que hoje nos honra com sua presença.
Por pura, nímia gentileza o doutor Benito aceitou o cálice e provou a medo a impossível mescla, ah, estupenda! Simas e Arno já iam longe, na quarta ou quinta dose, percorrendo os caminhos de Archanjo. O Major, impertérrito, puxava da fumaça do charuto fétido:
— Contam que, certa feita, uma iaba, sabendo da fama de mulherengo de Pedro Archanjo, resolveu lhe dar uma lição, fazendo dele gato e sapato e para isso virou na cabrocha mais catita da Bahia.
— Iaba? Que é isso? — instruía-se Amo.
— Uma diaba com o rabo escondido.
Jantaram ali mesmo, no bar, peixe frito no azeite amarelo, cerveja gelada e copiosa para regar o dendê; lamberam os beiços. Por duas vezes, em meio à refeição, o Major propôs rodadas de cachaça para “desfeitear a cerveja”.
Mais tarde foram ver, bem pertinho, o primeiro andar onde funcionara o castelo de Ester, hoje de Rute Pote de Mel, no qual ainda se bebe um ínclito conhaque do tempo de Archanjo. Pelo meio da noite Gastão Simas cantou “Chão de Estrelas” para uma plateia participante e romântica e Amo Melo fez um discurso, de ideologia um tanto confusa porém violento contra a sociedade de consumo e o capitalismo em geral.
Às duas da manhã, o doutor Benito, num supremo esforço de vontade, conseguiu arrancar-se dali. Meteu-se num táxi, abandonando seu carro estacionado no Terreiro: nunca bebera assim em toda sua vida, nem nos tempos de estudante, nunca se encontrara em meio de tanto contrassenso e inconsequências. “Perdoa, querida, vi-me envolvido num mundo absurdo e de Archanjo só fiquei sabendo que durante uns tempos viveu amigado com o diabo.”
— Com o diabo? — a esposa mexia o sal de fruta.
No outro dia, ao chegar ao consultório, encontrou os três primeiros clientes do Major, cada um com seu bilhetinho: “o major Damião de Souza apresenta o indigente portador deste cartão ao bondoso facultativo, pedindo a caridade de uma chapa do dito cujo que Deus lhe pagará com juros”.
Duas chapas dos pulmões, uma dos rins, as três primeiras; infinita é a torrente dos necessitados.
5
Entre as contribuições mais entusiásticas às homenagens ao centenário de Pedro Archanjo, deve-se destacar ada Faculdade de Medicina da Bahia. Um porta-voz da tradicional Escola, em entrevista ao J.C. logo após o lançamento da campanha, ainda na fase inicial das declarações de apoio, afirmou: “Pedro Archanjo é um filho da Faculdade de Medicina, sua obra é parte de nosso sagrado patrimônio, esse patrimônio inigualável que nasceu no secular Largo do Terreiro de Jesus, no precípuo Colégio dos Jesuítas e se afirmou com os ovantes mestres da Faculdade, erguida sobre os alicerces do primeiro estabelecimento de ensino do Brasil. A obra de Pedro Archanjo, hoje reconhecida até no estrangeiro, só pôde ser realizada por que seu autor, membro da administração da Faculdade,imbuiu-se do espírito da benemérita instituição que, sendo primordialmente de ciências médicas, não deixou, em momento algum, de cultivar as ciências irmãs e, em especial, as belas letras. Em nossa colenda Faculdade ergueram suas vozes oradores dos maiores do Brasil; afirmaram-se homens de letras admiráveis pela elegância do estilo e a pureza da linguagem — ciência e letras, medicina e retórica deram-se as mãos nos pátios e nas salas de aula. Pedro Archanjo forjou seu ânimo nesse clima de alta espiritualidade, na doutrina da veneranda Escola temperou sua pena. É com justificado orgulho que afirmamos por ocasião desta efeméride gloriosa: a obra de Pedro Archanjo é produto da Faculdade de Medicina da Bahia”.
No que, apesar de tudo, não deixava de ter certa razão.