Tenda dos Milagres
Do nosso vate e pesquisador em sua condição de amante ⠀攀 挀漀爀渀漀) com amostra de poesia
Do nosso vate e pesquisador em sua condição de amante (e corno) com amostra de poesia
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NECESSITANDO o grande Levenson da ajuda de Ana Mercedes para colocar em ordem, ainda naquela noite, algumas notas, e não sendo minha presença útil ou desejável ao sucesso da tarefa, ofereci ao sábio minhas despedidas no hall do hotel. Almejou-me bom trabalho e pareceu-me cínico.
Assim, chamei à parte sua novel colaboradora para lhe recomendar cuidado e firmeza, não fosse o gringo armar-se e conquistador barato, descambando a noturna ciência em patifaria grossa. Arrogante, ferida em seus brios,cortou-me ela preocupação e dúvidas com a pergunta ríspida e ameaça terrível: “acreditava eu ou não em sua lealdade e honradez? Porque, se tivesse a mínima dúvida, então era melhor...“ Não lhe permiti concluir, pobre de mim;assegurei-lhe confiança cega e obtive seu perdão, um beijo rápido e um sorriso dúbio.
Saí em busca de um botequim para a vigília cívica: encher a cara, afogar em cachaça os restos de ciúme que os dólares do americano e os protestos de Ana Mercedes não haviam liquidado.
Sim, ciúmes, pois deles eu morria e nascia a cada manhã, a cada instante do dia e sobretudo da noite — senão a tinha comigo —, ciúmes de Ana Mercedes, por quem briguei, bati e fui batido, por quem sofri o indescritível, em poço de humilhações e rancores, por quem me fiz trapo mísero e indigno, riso universal de literatos e subliteratos — e tudo isso valeu a pena, sendo ainda pouco, pois muito mais ela merecia.
Musa e baluarte da novíssima geração poética, Ana Mercedes participou do movimento “Comunicação através do Hermetismo”, fórmula genial, palavra de ordem cuja atualidade só mesmo os quadrados e invejosos poderão negar. Nessas hostes da nova poesia meu nome é admirado e aplaudido. “Fausto Pena, autor de ‘O Arroto’,um dos mais significativos líderes da jovem poesia”, escreveu no “Jornal da Cidade” Zino Batel, autor de “Viva o Cocô”, não menos líder nem menos significativo. Estudante de jornalismo na mesma Faculdade onde, dois anos antes, ou obtivera diploma de sociólogo, Ana Mercedes alugara, por vil salário, o brilho de sua inteligência à redação do “Diário da Manhã” (e em sua condição de repórter conheceu Levenson e com ele tratou) e concedera gratuitamente a este barbudo e desempregado vate as graças de seu corpo divino, incomparável. Ah! como descrever esta mulata de Deus, de ouro puro da cabeça aos pés, carne perfumada de alecrim, riso de cristal, construção de dengue e de requebro, e sua infinita capacidade de mentir!
No “Diário da Manhã”, dos donos aos porteiros, passando pela redação, pela administração e pelas oficinas, enquanto ela ali trafegou, saveiro em navegação de mar revolto, nenhum daqueles pulhas teve outro pensamento, outro desejo senão naufragá-la num dos macios sofás da sala da diretoria, ante o retrato do egrégio fundador, obrade Jenner; nas vacilantes mesas da redação e da gerência, em cima da velhíssima impressora, das resmas de papel ou do sórdido piso de graxa e porcaria: se Ana Mercedes estendesse seu corpo sobre o solo de imundície, em leito de rosas o transformaria, chão bendito.
Não creio ter ela consentido a qualquer daqueles patifes; falam que antes, sim: candidata ao emprego, facilitara ao doutor Brito, diretor executivo da folha, com ele vista nas suspeitas redondezas do Oitenta e Um, castelo de luxo entregue à competência de madame Elza. Jurou-me inocência; andara com o patrão em tais vizinhanças, é bem verdade, mas assim agira para provar-lhe aptidão, tino de repórter, numa história confusa que não desejo aprofundar — nem cabe fazê-lo aqui.
Aceitei a obscura explicação, essa e muitas outras, inclusive aquela de teor científico, na noite em que assumi o compromisso de sair em busca de Pedro Archanjo pelas ladeiras e becos da Bahia: meus ciúmes, atrozes e violentos, assassinos e suicidas, desfaziam-se em juras de amor, quando a víbora, arrancando a miniblusa e a saia, exibia o resto, estendendo braços e pernas, toda aquela paisagem doirada, cobre e oiro e o perfume de alecrim,mestra da fornicação: “contigo aprenderam e se formaram as prostitutas”, escrevi num dos múltiplos poemas que lhe dediquei, múltiplos e belos (perdoem-me a imodéstia)
A literatura foi o laço inicial a nos ligar e Ana Mercedes admirou este poeta e sua rude poesia antes de ceder ao cobra bárbaro, de barbas, cabeleira e calças Lee. Cobra bárbaro, perdoem-me outra vez a imodéstia; quem o dizia eram as poetisas, um cobrão.
Inesquecível momento, quando ela, tímida e medrosa, estendeu-me para julgamento o caderno estudantil com suas primícias: comovente beleza, o sorriso súplice, inteira de humildade. Foi a primeira e a única vez em que a tive humilde a meus pés.
Zino Batel obtivera um quarto de página no suplemento dominical do J.C. para a “Coluna da Jovem Poesia” e quis que a organizássemos juntos: escravo numa agência de Banco oito horas por dia, à noite no copydesk do jornal, não lhe sobrava tempo para coletar e escolher poemas. Coube-me a tarefa, gratuita e difícil, mas de certa maneira compensadora, dava prestígio e gabarito. Assentei banca num bar de pouca luz e reduzidas proporções, ao fundo de uma galeria de arte, e vi-me às voltas com numerosa clientela de moças e rapazes — nunca imaginei existissem tantos jovens poetas e tão ruins —, cada qual mais inspirado e fecundo, todos ansiosos por uma polegada de espaço em nossa coluna. Os candidatos, em geral ricos de inspiração e parcos de posses, pagavam a batida de limão; alguns, mais empreendedores, ofereciam uísque. Reafirmo aqui não ter-me deixado influenciar no julgamento e escolha dos originais pela qualidade ou dose da bebida. Mesmo algumas assanhadas poetisas que me abriram as pernas magras, nem assim venceram minha reconhecida severidade crítica; quando muito a abrandaram.
Em poucos minutos, Ana Mercedes pôs fim a tanta firmeza de caráter e isenção. Apenas passei os olhos nas linhas do caderno e pude constatar: não nascera para aquilo; Senhor meu Deus, como era ruim! Os joelhos dela, porém, e mais um palmo de coxas, perfeições da natureza, e os olhos de medo: “Minha filha, eu lhe disse, você tem talento’. Como sorrisse grata, frisei: “Talento paca !“
— Vai publicar? — quis logo saber, sôfrega, semiabrindo os lábios e sobre eles passando a ponta da língua. Meu Deus!
— É possível. Depende de você. — respondi, a voz marota, cheia de insinuações e subentendidos.
Confesso que naquele momento ainda pensei velhacamente sair do embaraço com proveito e honra: dormindo com a poetisa e não lhe publicando as baboseiras.Ledo engano: no domingo lá estreava ela, a ocupar sozinha a Coluna da Jovem Poesia, entre elogios: “Ana Mercedes, a grande revelação literária dos últimos tempos”, e eu não conseguira ir além de uns beijos, da mão nos peitos e de promessas. É verdade também que os três poemas impressos sob sua assinatura eram praticamente de minha autoria. Num deles, de Ana Mercedes aproveitara apenas a palavra “subilatório”, belíssima e por mim desconhecida; significa ânus. Aliás, da produção poética de Ana Mercedes pode-se dizer ter sido toda ela obra minha, primeiro, e do poeta Ildásio Taveira, depois, quando a ingrata, cansada talvez das cenas de ciúme, abandonou-me o leito e iniciou, nova fase em sua literatura. Do poeta Ildásio partiu para a música popular, parceira do compositor Toninho Lins, mais na cama do que em letra e melodia.
Quando Levenson chegou à Bahia, meu caso com Ana Mercedes atingira seu momento culminante: paixão definitiva, amor eterno. Durante meses e meses não tive olhos nem forças para outra mulher, e se ela traiu algumas vezes nossas juras de amor nunca o consegui comprovar — por não querer realmente fazê-lo, quem sabe?De que me serviria tal prova senão para romper em definitivo, e isso, ah! nunca!, ou para não ter sequer, nas horas amargas, o benefício da dúvida, da menor, da mais ínfima parcela de dúvida?
Dúvidas e ciúmes, desejo de tê-la na cama e tendo-a deixado com o sábio no hotel, àquela hora da noite, crucificado em minha abjeção e pago em dólares, fui esconder-me e embriagar-me no “Xixi dos Anjos”, ignoto buraco de nenhuma freguesia.
Apenas acomodei-me ante a cachaça sem mistura, e quem é que vejo em íntimo colóquio com torpe megera, não sei se meretriz ou solteirona, indescritível estrepe? O acadêmico Luiz Batista, sustentáculo da Moral e da Família, o carola por excelência, o paladino das Boas Causas! Tremeu ao ver-me e não lhe coube opção: foi obrigado a vir afável e cordial dar-me explicações, numa história tão confusa quanto as de Ana Mercedes.
Sofri o professor Batista no ginásio, suas aulas chatíssimas, seus bestialógicos, seu reacionarismo bovino, seu mau hálito, sua gramatiquice; não nos demos bem nem então nem depois, nas raras vezes em que nos cruzamos. Mas eis que no infecto botequim de fim de linha, eu roendo minhas mágoas, minha dor de corno, ele descoberto em conúbio torpe, encontramos causa a nos ligar traço de comum interesse, inimigo a nos unir: Levenson, o sábio americano, e seu contraponto brasileiro, o anônimo Pedro Archanjo.
Expôs o ínclito acadêmico suas suspeitas a respeito de Levenson, dúvidas sobre sua missão no Brasil; eu silenciei as minhas por íntimas e pessoais. As dele eram de interesse público e atinentes à segurança nacional.
— Tanta gente egrégia na Bahia, pátria de gênios e heróis, a começar pelo imortal Ruy, a Águia de Haia, e esse estrangeiro elege para os seus louvores, como o único merecedor de seus encômios, a um negro bêbado e patife.
A indignação começou a possuí-lo e ele pôs-se de pé, em pose oratória, tão em transe quanto aos iaôs no Terreiro de Alaketu; voltado ora para mim, ora para o glorioso estrepe ou para o garção a palitar os dentes: