Tenda dos Milagres
Capítulo 3
“Tenho de agir rapidamente”, pensou Ápio Correia, retirando-se em busca de um táxi que o levasse à Biblioteca Nacional.
Foi um corre-corre até os jornalistas descobrirem e localizarem o professor Ramos, eminente por vários títulos e agora por conhecer a obra do tal Archanjo, cujo valor mais de uma vez afirmara e exaltara em artigos nas revistas especializadas, infelizmente de quase nenhuma circulação e menor leitura.
“Durante anos — contou ele — andei de editor em editor, numa via-crúcis, oferecendo os livros de Archanjo para que os reeditassem. Escrevi prefácios, notas de pé- de-página, explicações: nenhuma editora se interessou. Fui ao professor Viana, diretor da Faculdade de Filosofia, para ver se, com sua interferência, a Universidade colaboraria na publicação. Respondeu-me que eu “estava perdendo tempo com as baboseiras de um negro bêbado. Bêbado e subversivo”. Talvez agora se deem conta da grandeza da obra de Archanjo, já que Levenson lhe empresta a devida importância. Aliás, diga-se de passagem, ser a obra de Levenson igualmente mal conhecida no Brasil e esses que tanto o elogiam e adulam não leram sequer seus livros fundamentais, não percebem a essência de seu pensamento, são uns charlatães”.
Um tanto amarga, como se nota, a. entrevista do professor Ramos, mas, convenhamos: sobravam-lhe razões para sentir-se melancólico — tantos anos lutando por um lugar ao sol para o pobre Archanjo, sem nada conseguir,ouvindo recusas de editores, estultícias e ameaças de Via- na Dedo-duro, enquanto, com uma única entrevista, um estrangeiro pusera em movimento toda a imprensa e a matilha dos intelectuais a farejar os livros, a fuçar a memória do ignorado baiano intelectuais de todas as tendências e correntes, sem distinção de ideologia, os festivos e os soturnos, pois Pedro Archanjo entrara em moda e quem não conhecesse e não citasse suas obras não poderia considerar-se atualizado e para a frente.
Verdadeiramente sensacional o artigo de Ápio Correia, três semanas depois, “Pedro Archanjo, o poeta da etnologia”. Nele se encontra curiosa e brilhante versão do diálogo, travado no aeroporto, entre o sábio Levenson e o erudito Correia, onde um e outro demonstraram profundos conhecimentos da obra de Archanjo. Que os do crítico fossem maia antigos e extensos, é natural, em se tratando de um brasileiro.
3
Na Bahia, terra de Archanjo, local e motivo de seus estudos, fonte de suas pesquisas, razão de sua obra, o carnaval foi muito maior.
O desconhecimento do nome consagrado por Levenson não era aqui tão universal quanto no Rio e em São Paulo. Em São Paulo, vale recordar, os jornalistas obtiveram a muito custo uma única referência ao baiano se bem da mais alta significação: um artigo de Sérgio Milliet, escrito em 1929 para “O Estado de São Paulo”. Comentando com extrema simpatia e rasgados elogios o livro de Archanjo sobre culinária baiana (“A Culinária da Bahia — suas origens e preceitos”), o grande crítico modernista enxergou no autor um prócer “e dos maiores, dos mais autênticos” da Antropofagia, “o revolucionário e discutido movimento recém-lançado por Tarsila, Oswald de Andrade e Raul Bopp”. O “delicioso volume”, pela qualidade brasileira do conteúdo e pelo sabor da prosa, pare-cia-lhe o “exemplo perfeito do verdadeiro ensaio antropofágico”. Milliet concluía lastimando não conhecer os livros anteriores de ensaísta de tanto saber, o qual não tendo certamente ouvido falar dos antropófagos paulistas, a eles se adiantara.
Na Bahia, apareceu até quem o houvesse conhecido e tratado pessoalmente, como o atestam os jornais. Tal conhecimento reduzia-se, porém, a algumas pessoas e a umas quantas histórias. A obra de Pedro Archanjo, os quatro pequenos volumes sobre a vida popular baiana, publicados a duras penas, em edições mínimas, na precária oficina manual de seu amigo Lídio Corró, na Ladeira do Tabuão, essa obra cujos méritos empolgaram o sábio americano, era aqui tão ignorada e inexistente quanto no resto do país.
Não houvesse Archanjo, enviado exemplares para instituições, universidades, bibliotecas nacionais e estrangeiras, e de seus livros não se teria voltado a falar, pois Levenson não os teria descoberto. Em Salvador, apenas alguns etnólogos e antropólogos sabiam deles, a maioria por ouvir dizer.
Ora, de súbito, não só os jornalistas mas os poderes públicos, a Universidade, os intelectuais, o Instituto, a Academia, a Faculdade de Medicina, os poetas, os professores, os estudantes, a classe teatral, a numerosa falange da etnologia e da antropologia, o Centro de Estudos Folclóricos, a turma do turismo e outros desocupados, todos se deram conta de que possuíamos um grande homem, um autor ilustre, e o desconhecíamos, não lhe dávamos serventia sequer em discursos, relegando-o ao anonimato mais completo, sem nenhuma promoção. Começou então a corrida em torno de Archanjo e de sua obra. Muito papel, muita tinta e muito espaço em jornal foram gastos, a partir da entrevista de Levenson, para saudar, analisar, estudar, comentar, louvar o injustiçado escriba. Era necessário tirar o atraso, corrigir o erro, apagar o silêncio de tantos anos.
A obra de Archanjo obteve por fim a presença e o realce a que fazia jus, e em meio aos salafras e vigários que aproveitaram ocasião e tema para se promover, algo de sério se escreveu, páginas dignas da memória de quem trabalhou indiferente ao sucesso e ao lucro. Alguns depoimentos de contemporâneos, gente que conheceu Archanjo e com ele tratou, traziam também a marca de real emoção e a face do homem foi sendo revelada. Não estava Archanjo assim tão distante no tempo como se imaginou a princípio: batera as botas em 1943, há vinte e cinco anos, aos setenta e cinco de idade e, segundo consta, em circunstâncias singulares; encontraram-no morto, caído nu-ma sarjeta, altas horas da noite. Em seus bolsos, apenas uma carteira de anotações e um toco de lápis, nenhum documento de identidade. Dispensável, aliás, naquela zona pobre e imunda da cidade velha, onde todos o conheciam e estimavam.