Tenda dos Milagres
Capítulo 4
Em sombras se dissolve a luz da tarde; a Ladeira do Tabuão, quase vazia, ainda não se refez do Carnaval. Mestre Lídio Corró, debruçado sobre o papel, desenha e pinta, risca o milagre. Começou antes do entrudo, deve terminar ainda hoje. Apesar do cansaço e da preguiça, a fisionomia se abre num sorriso.
O milagre foi famoso, digno de promessa e gratidão, gratidão que Lídio Corró, artista do pincel, expressa sob encomenda, usando para tanto sua tinta de cola e seu talento. Mas Lídio não pensa na grandeza da graça concedida, na categoria do prodígio, do próprio quadro decorrem seu sorriso e seu contentamento: da luz obtida, das cores e da composição difícil, com as figuras, a fuga dos cavalos, o santo e a mata virgem. Gosta da onça, sobretudo.
Uma pincelada aqui, outra mais além, para acentuar o verde da floresta, o negro céu noturno, o palor das criaturas; a cena é patética e o mestre vai chegando ao fim de seu trabalho. Talvez devesse colocar um raio ou dois, cortando as trevas, para dar mais força ao drama.
Quando tomou do pincel para retocar e concluir o milagre, Lídio Corró, quarentão baixo e troncudo, mulato de viveza e de malícia, o fez de má vontade. Na véspera bebera além de todas as medidas; ele e Budião tinham perdido a conta no batuque em casa de Sabina. Lídio, a partir de certo instante, de nada se recorda: de como terminou a festa e ele veio parar na Tenda, quem o trouxe — quando acordou, quase às duas da tarde, viu-sede roupa e de botinas no estrado onde dormia e derrubava quengas, num cômodo ao fundo da oficina. Oficina e residência, ao mesmo tempo, com cozinha, uma torneira para banho que dá gosto, e um pedaço de quintal onde Rosa planta e colhe flores. Se Rosa de vez se decidisse,ah! que jardim não cresceria ao toque de suas mãos! Lídio preparou um café bem forte. Naquele carnaval ninguém vira Rosa de Oxalá.
O desejo do milagreiro era voltar para a cama e dormir até a noite; só então abriria as portas da Tenda para receber os amigos e conversar. Muito tema e enredo os espera: os acontecimentos da véspera, ampliados numa esteira de rumores, balelas e notícias absurdas. Alguém chegara .à casa de Sabina, trazendo uma baita novidade: o diretor interino da Secretaria da Polícia, doutor Francisco Antônio de Castro Loureiro, fora acometido de mal súbito, ao saber que um afoxé de negros e mulatos desobedecera a seu édito e saíra às ruas.
Doutor Francisco Antônio, de família nobre e descendência ilustre, voluntarioso e mau, inflexível — ordem sua era para cega obediência, para rápida e integral execução. Não pudera supor que alguém se atrevesse a desconhecer e violar a lei por ele imposta; que um afoxé se organizasse e saísse a desfilar. Para cúmulo, com aquele enredo de desafio e insulto. Audácia imprevisível, impossível façanha, árdua e complexa, com múltiplas facetas, exigindo tempo, dinheiro, organização e o máximo segredo. Resistia o doutor a crer que apenas a canalha imunda, a malta de mestiços houvesse concebido e ousado o inacreditável feito. Ali devia ter funcionado o dedo corrupto e solerte dos monarquistas ou a subversiva trama da vil oposição. Mas se realmente foram apenas os mestiços, a negralhada, então só lhe restava a morte, ou, ainda pior, a demissão do cargo.
Na presença do doutor Francisco Antônio, com sua fama de coragem e crueldade, medonhos bandidos perdiam a pabulagem, os criminosos mais temíveis de medo se mijavam. Pois esse herói da polícia, esse capitão-do-mato, fora posto em ridículo nas ruas da cidade, em praça pública, alvo do assovio e da gaitada, fit-ó-fó na boca de capadócios e moleques. Ferido em sua soberbia, envolto em ódio e humilhação, e demissionário, ei-lo recolhido ao leito com médicos e mezinhas.
Riscando o milagre portentoso, Lídio deixa a imaginação correr: quem sabe naquele mesmo instante estaria a família do diretor interino da polícia a fazer promessa ao Senhor do Bonfim para lhe salvar vida e emprego, e ainda caberia a ele, mestre Corró — embaixador do afoxé, secretário de Zumbi, mestre-sala a comandar a dança pintar o doutor na cama, verde de raiva e de impotência, o coração doente de sambas e cantigas em nagô, um coração onde só cabiam a vaidade, a arrogância o desprezo pelo povo. Nunca se fizera troça tão bem feita, nunca se enfrentara com tanto garbo e valentia as regras e as imposições dos poderosos. Quando Archanjo — lendo o decreto no jornal, a proibição dos afoxés, do samba e do batuque — lhe propôs a brincadeira, também ele, Corró, dissera: “é impossível”. Mas quem pode resistir a Archanjo, língua de ouro, um monte de razões e argumentos? Coubera a Lídio grande responsabilidade em todo o sucedido. Ele, Budião, Valdeloir e Aussá tinham sido as peças mestras da organização. Sem falar em Archanjo, o principal.
Tomara do pincel e da tinta, com preguiça e má vontade: como pode um folião trabalhar nas cinzas da quarta-feira morta, dia de descanso? Mas o prazo da entrega era fatal: antes das nove da manhã da quinta-feira, sem o menor atraso, pois para as onze o dono da encomenda, o beneficiário do milagre, um nomeado Assis,homem do interior e de dinheiro, plantador de fumo e cana, já contratara padre e missa com sermão e cantoria. Fizera promessa de verdade, ia gastar um bom pacote, uma safra de tabaco: só de velas de um metro, encomendara duas dúzias. E o foguetório, seu Corró? Toda a família há uma semana na cidade, gastando hotel, um ror de gente. O senhor está convidado, depois da missa vamos festejar, se Deus quiser.
— Ah! meu prezado, para quinta é impossível, não dá mesmo. Tem o carnaval no meio, e no carnaval ninguém conta comigo, ainda menos neste ano Se o senhor tem tanta pressa assim, procure outro.
Mas o fulano nem quis ouvir falar em outro; para ele só servia Lídio Corró — seu nome de riscador chegara ao Sul e ao Sertão. De Ilhéus a Cachoeira, de Belmonte e Feira de Santana, de Lençóis e até de Aracaju e Maceió desembarcavam fregueses para a Tenda. Seu Assis foi categórico: “Só me serve o senhor; me disseram que não existe ninguém mais competente, e eu quero, meu amigo, do bom e do melhor; foi milagre de primeira, seu Corró, aquilo não era uma onça, era um despropósito de bicho sem entranhas, os olhos, acredite, uma iluminação !“ A crer no sertanejo, daquela vez Senhor do Bonfim se superara.
Da verde mata de arvoredo espesso, sob um triste céu de mau presságio, surge a fera, ágil e faminta, de raias negras e amarelas — domina o céu e o campo, domina o quadro inteiro; junto a seu imenso corpanzil os homens são pigmeus, e as árvores, arbustos de jardim. Fuzilam os olhos do bichano, aqueles olhos de iluminação, única luz presente, pois, tendo refletido, mestre Corró. desistiu dos raios, por falsos e excessivos. Para o susto bastam os olhos do animal, de brilho incandescente e hipnótico — varando a escuridão, paralisando os caminhantes.
O urro do felino despertou os quatro adultos e as três crianças do sono na clareira. Lídio os representou estáticos de pavor. Num galope de relinchos dispararam os cavalos, veem-se apenas as ancas no salto e na corrida. Milagre de categoria, prodígio de arromba, coisa demais a colocar nos limites de um quadro: por isso mesmo — por difícil —, capaz de arrancar Lídio Corró da preguiça e do cansaço e de prendê-lo ao trabalho apaixonante. O fácil não o comove, é um artista e tem orgulho e altivez — ou apenas o doutor Francisco Antônio tem direito a amor próprio, a brio, a altanaria?
Não é todo dia que se pinta um milagre assim, com essa perfeição. Caprichando a letra, escreve ao pé do quadro: “Grande Milagre que fez Nosso Senhor do Bonfim, no dia 15 de janeiro de 1904, à família de Ramiro Assis, quando, viajando o mesmo de Amargosa para Morro Preto, com esposa, irmã solteira, três filhos e mucama, viu-se à noite atacado por uma onça, na clareira onde dormiam. Gritaram pelo Senhor do Bonfim e a onça ficou inerte e mansa e foi embora”.
Escrita em quatro linhas, a história resulta muito simples. Ponha no quadro, mestre Corró, a ânsia, o medo, a aflição, o desespero da família, a mãe em desatino. Nas mãos de Ramiro Assis, apenas um punhal de picar fumo, pois a carabina ficara na garupa do cavalo.
Mostre a fera a mover-se em passos sutis e traiçoeiros. Dirige-se para a mais novinha das crianças, ainda a engatinhar, inocente a sorrir para o gato enorme. Foi quando Joaquina, esposa de Assis e mãe dos pequeninos, lançou seu grito atroz: — Senhor do Bonfim, valei meu filho!
Foi fulminante o santo em seu atendimento. A um passo do menino, a fera parou, como se mão celeste a contivesse. Em nova súplica, reuniram suas vozes adultos e crianças, à exceção do menorzinho ainda pagão e satisfeito, a rir para a onça, com intimidade. Num brado único apelaram ao santo onipotente: “Valei-nos, Senhor do Bonfim!” Ramiro Assis prometeu mundos e fundos.
“Vosmicê precisava ter visto, mestre Corró, para poder acreditar: a onça deu meia-volta, vagarosamente andou até o mato espesso e sumiu de vez. Me abracei com os meus. Todo mundo diz ser vosmicê o riscador mais afamado da Bahia. Quero um quadro com tudo que contei, tudo, sem tirar nem pôr”.
Quem lhe disse, seu Assis, acertou e fez justiça. Muitos são os riscadores de milagres na Bahia; só entre o Tabuão e o Pelourinho tem mais três, além de mestre Lídio, mas igual a ele nem aqui nem no país inteiro. Quem proclama é o povo e não o próprio, pouco dado a farromba e bolodório. “Vou caprichar no santo, ele fez por merecer”.
Demora-se mestre Corró na figura do Cristo do Bonfim, na cruz crucificado mas com um braço solto, apontando em direção à onça e à família. No alto do quadro, de onde o santo executa seu milagre, a claridade domina a escuridão, a aurora se antecipa.
Volta Lídio Corró, porém, à sua figura predileta e insubmissa: a onça rajada, inclemente, gigantesca, os olhos fuzilantes, e a boca, ai a boca a sorrir para o menino. O artista já fez tudo para apagar esse sorriso, essa ternura; deu à onça sertaneja porte de tigre e ares de dragão. É superior às suas forças, por mais feroz a pinte, ela sorri;existe entre a fera e a criança um pacto secreto, antigo conhecimento, imemoriável amizade. Lídio desiste e assina a pintura do milagre. Uma tarja vermelha circunda o quadro, e com tinta branca o riscador escreve seu nome e o endereço: Mestre Lídio Corró, Tenda dos Milagres, Tabuão, n° 60.
Na meia-luz do fim da tarde, ao roxo clarão crepuscular, mestre Corró, sincero e comovido, admira o trabalho terminado: uma beleza. Mais uma obra-prima a sair dessa oficina, da Tenda dos Milagres (se Rosa consentisse, ele mudaria o nome para Tenda de Rosa e dos Milagres), onde se esforça e luta um artista modesto mas competente em seu ofício. E não somente nesse ofício de riscar milagres, nesta arte de pintar ex-votos: também em muitos outros, basta perguntar na rua quem é Lídio Corró e quanta coisa inventa e realiza.
Ao demais, não é ele só: são dois. Lídio Corró e Pedro Archanjo, quase sempre juntos, e com eles juntos ninguém pode: compadres, irmãos, mais que irmãos, são mabaças, são ibejes, dois exus soltos na cidade. Se quiser saber, vá à polícia e pergunte ao doutor Francisco Antônio.