Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 13 de 77

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Tenda dos Milagres

Onde se trata de gente ilustre e fina, intelectuais de alta categuria, em geral sabidíssimos

 

 

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AS declarações de Levenson colocaram as páginas das gazetas, os microfones das rádios, as câmaras de tevê a serviço da memória e da obra do baiano até então desconhecido — de súbito celebridade internacional. Reportagens, entrevistas, pronunciamentos dos bambambãs da cultura, artigos nos suplementos domingueiros, crônicas, mesas-redondas nos programas de maior audiência. Em geral os intelectuais, nas entrevistas e nos artigos, no rádio e na televisão, buscaram sobretudo provar íntimo contacto, de longa data, com a obra de Archanjo. Nenhuma diferença, como se vê, entre os daqui e os do Rio e de São Paulo: o progresso vem liquidando desigualdades e distâncias culturais, a distinguir anteriormente metrópole e província. Somos hoje tão adiantados, capazes, cultos e audaciosos quanto qualquer grande centro do Sul, e nossos talentosos rapazes nada ficam a dever a Ápio Correia e aos demais colossos dos bares de Ipanema e do Leblon, por mais argutos e audaciosos. Permanece uma única e violenta diferença: aqui os salários e os cachês mantém-se baixos, misérrimos — provincianos.

Surpreendentemente, descobriu-se que cada um dos nossos maiores talentos havia trombeteado, há longo tempo e por todos os meios, o inestimável valor da obra de master Pedro (até o promoveram de bedel da Faculdade de Medicina a “master” da Universidade), ante a ignominiosa indiferença dos colegas. Lendo-os, tinha-se a impressão de que o nome e os livros de Archanjo jamais se encontraram na obscuridade e no anonimato de onde os foram retirar as citações de Levenson, e, sim, em permanente evidência e brilho, proclamados aos quatro ventos, em ensaios, aulas, conferências e debates, por toda uma enorme coorte de continuadores da obra e dos conceitos do autor de “A Vida Popular na Bahia”. Emocionante unanimidade de pensamento, comovedora constatação: quem pudera prever a existência de tão grande número de discípulos de Pedro Archanjo, verdadeiro batalhão, sendo a Bahia, como é, extremamente rica em etnólogos, sociólogos, antropólogos, folcloristas e outros espécimes da mesma fauna, cada qual mais estudioso e competente, valha-nos o Senhor do Bonfim!

Vale a pena destacar, em meio a esse farto, erudito e burlesco material de imprensa, duas ou três contribui- cães realmente sérias e dignos de nota. A extensa entrevista concedida pelo professor Azevedo ao vespertino “A Tarde”, por exemplo.

Catedrático de sociologia, o professor nada tinha de comum com a urgente avidez de promoção dos intelectuais. Conhecia de fato a obra de Archanjo; colaborara com o professor Ramos, do Rio de Janeiro, no estabelecimento de notas capazes de atualizá-la e esclarecê-la; fizera esforços no sentido de interessar jovens especialistas naqueles pequenos livros, mas os especialistas estavam contentes de si e de seu saber, bastavam-se. Fez-se necessária a vinda de James D. Levenson, Prêmio Nobel, para que eles se convertessem e assumissem o comando da tardia glória de Archanjo.

A entrevista do professor Azevedo foi a fonte principal em que beberam os signatários dos brilhantes artigos nos suplementos e nas revistas, não sendo fácil encontrar os livros de Archanjo, de antigas e circunscritas edições.

Meticuloso, explicou, analisou, detalhou a obra do autor de “Influências Africanas nos Costumes da Bahia”, realçando seu autodidatismo, sua seriedade e sua coragem científicas, espantosas para a época. Citou títulos, trechos,locais de pesquisa, nomes, datas, disse alguma coisa sobre o homem, com quem tivera breve contacto e a cujo enterro comparecera.

Mais de vinte ensaios, artigos e crônicas brotaram dessa entrevista; alguns valeram a seus autores pingues elogios; nem um único fez menção ao catedrático, mas todos citavam as obras de Levenson, de vários outros autores ianques e europeus. Um, mais para a frente de todos, classificou a “mensagem arcangiana” como um “produto retroativo do pensamento de Mao”. Outro, não menos para a frente, escreveu sobre “Archanjo e Sartre: duas medidas do homem”. Uns portentos!

Curiosa matéria, a merecer destaque em meio a tanta bobageira, foi a crônica do colunista Guerra, um dos raros a não se proclamar etnólogo, a não se propor discípulo de Archanjo. Irreverente língua de trapo, esse Guerra só entrou no debate para denunciar os repetidos plágios de que vinha sendo vítima uma das obras do mestre, a única a obter certa divulgação quando exposta nas montras das livrarias há mais de trinta anos.

O professor Azevedo, em seu depoimento, dera contado imenso sacrifício feito pelo paupérrimo bedel, de ordenado parco e cachaça longa, para imprimir seus livros.Seu amigo e compadre Lídio Corró, riscador de milagres, flautista e festeiro, montara diminuta tipografia na Ladeira do Tabuão: imprimia volantes e anúncios para lojas da redondeza, para os cinemas da Baixa dos Sapateiros, compunha fascículos de trovadores, literatura de cordel vendida em mercados e feiras. (Sobre Lídio Corró, no quadro das comemorações do centenário de Archanjo, o ensaísta Valadares elaborou meticuloso trabalho, digno de atenção e leitura: “Corró, Archanjo e a Universidade do Tabuão”.) Ali, na tacanha oficina, foram compostos e impressos três dos quatro volumes do ignorado mestre, todos de péssima qualidade gráfica.

Um de seus livros, porém, teve editor responsável e tiragem de mil exemplares, grande para a época e enorme para Archanjo, cujas edições anteriores não ultrapassaram a casa das trezentas cópias, sendo que da última, a dos importantíssimos “Apontamentos Sobre a Mestiçagem das Famílias Baianas”, imprimiram-se apenas cento e quarenta e dois volumes, para mais não dera o papel. Cento e quarenta e dois, tão poucos, suficientes no entanto para provocar escândalo, horror e violência. Quando Corró obteve outras resmas de papel e quis reiniciar a impressão, a polícia chegou.

“A Culinária Baiana — origens e preceitos” mereceu melhor sorte. Um fulano Bonfanti, de procedência duvidosa e crédito suspeito, estabelecera-se na Praça da Sé com sortido sebo, especialista em artigos escolares e na exploração dos estudantes de ginásios e faculdades, a quem comprava barato e vendia caro os mesmos livros: antologias, tábuas de logaritmos, dicionários, tratados de medicina e direito. Pedro Archanjo frequentava-lhe o negócio, em prosas perdidas com o mafioso, e chegara mesmo a lhe dever uns cobres da compra de uma edição usada, porém completa, das “Memórias de um Médico”, de Dumas Pai, prova de grande estima por parte do livreiro, que não fiava a quem quer que fosse.

Bonfanti editara alguns livrecos destinados a ajudar estudantes relapsos nos exames do Ginásio da Bahia e dos liceus particulares: a tradução das fábulas de Fedro, obrigatórias na prova escrita de latim, soluções de problemas de álgebra e geometria, certas noções de gramática, análise de “Os Lusíadas”, tudo em volumes de tamanho reduzido para facilitar o transporte clandestino e a consulta proibida nas salas de exame. Para complementar a educação dos jovens, pela qual tanto interesse demonstrava, o italiano imprimia e vendia-lhes folhetos pornográficos, para os quais contava igualmente com seleta freguesia de graves senhores.

Quitutes e iguanas além dos livros, uniam o mulato baiano e o escuro peninsular, ambos de forte apetite e gosto apurado, ambos cozinheiros de mão-cheia. Archanjo não tinha rival em certos pratos baianos, sua moqueca de arraia era sublime. Bonfanti preparava uma pasta sciuta-ai-funghi-secchi de se lamber os dedos, reclamando contra a inexistência na Bahia de ingredientes indispensáveis. Das conversas e de almoços dominicais, nasceu a ideia de um manual de culinária baiana, reunindo receitas até então transmitidas oralmente ou anotadas em cadernos de cozinha.

Não foi pacífico o acerto da edição, querendo Bonfanti reduzir o texto às receitas, com meia página de prefácio, se muito, enquanto Archanjo exigia a publicação na íntegra, sem cortes: antes, a pesquisa, os comentários, o estudo extenso; depois, as receitas. Finalmente o livro saiu completo, mas a tiragem tardou anos a se esgotar, seja porque “manual de cozinha se destina a donas de casa e não deve conter literatura ou ciência”, como proclamava Bonfanti — queixando-se de prejuízo e negando-se a pagar os direitos de autor –; seja porque o “gatuno do italiano fez muito mais de mil exemplares”, seja por desinteresse do público. Quando Archanjo morreu, Bonfanti ainda tinha pequeno encalhe, uns poucos volumes.

Mas, se desinteresse houve, com o passar dos anos, com o crescimento da cidade, o progresso, a instalação de indústrias, com o turismo sobretudo, a culinária baiana ganhou fama e popularidade nacionais. Vários livros de receitas foram lançados no Rio e em São Paulo. Alguns em primorosas edições, de excelente trabalho gráfico, ilustrados com fotos coloridas dos pratos. Jornalistas, senhoras da sociedade, um francês dono de restaurante no Corredor da Vitória, improvisados em autores, todos eles,e seus editores, ganharam bom dinheiro com “A cozinha baiana”, “100 receitas de pratos e doces da Bahia”, “Dendê, coco e pimenta”, “Cozinha afro-brasileira”, “Os quindins de Yayá”, etc. etc.

Na opinião do turbulento Guerra, copiaram pura e descaradamente a brochura de Archanjo, sem nada acrescentar de novo e original. Ao contrário: abandonaram, por inútil e cacete — “uns imbecis !“, exclamava o cronista, irado — a parte de pesquisa, estudo, conclusões, furtando apenas o receituário. Um jornalista carioca, porém, de maior cancha e despudor, após curta semana na Bahia, roubou tudo — página por página. Pior ainda: teve o desplante de reescrever os conceitos de Archanjo, deturpando-os, degradando-os. O literato Guerra denunciou a safadeza — “conste porém que não sou nem etnólogo nem folclorista”.

Quanto à entrevista do major Damião de Souza, a popular figura das lides forenses e de tantas campanhas memoráveis, merece parágrafo à parte, tais as suas consequências, grandiosas e imprevisíveis.