Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 7 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 2

— Só se eu cortar o pau.

Quando Maluf, para comemorar as vitórias do dia, serviu uma pinga, a discussão começou: se Hitler ganhasse a guerra poderia ou não matar tudo que não fosse branco puro, acabando de vez com o resto do povo? Opina daqui, opina de lá, pode, não pode, ora se pode, o ferreiro se alterou: — Nem Deus, que fez o povo pode matar tudo de uma vez, vai matando de um a um e quanto mais ele mata mais nasce e cresce gente e há de nascer, de crescer e de se misturar, filho-da-puta nenhum vai impedir! — a mão ao bater sobre o balcão emborcou o copo e lá se foi o resto da cachaça. Mas o turco Maluf era boa praça, compareceu com outra rodada antes da despedida.

Tenta o velho prosseguir sua subida, remoendo as palavras do ferreiro, “há de nascer, de crescer e de se misturar...” Quanto mais misturado, melhor: o velho quase sorri em meio à dor posta em cruz sobre seu lombo, dor mais pesada de carregar. Sorri ao lembrar-se da neta de Rosa, tão igual à avó em sua boniteza e tão outra: os cabelos lisos e sedosos, o corpo esguio, os olhos azuis, a pele morena, muitos se somaram para fazê-la assim perfeita. Rosa, Rosa de Oxalá, perdição de mulher, tantas o velho amara e tivera, nenhuma se lhe comparava no entanto, por ela sofrera o indescritível, fizera bobagens, papéis ridículos, pensara em morrer e em matar.

Quem dera ver a neta de Rosa outra vez, o riso, a graça, o requebro da avó — e os olhos azuis; de quem seriam? Ver também alguns amigos, ir ao terreiro e saudar

o santo, um passo de dança, uma cantiga, comer xinxim de galinha, moqueca de peixe na mesa do castelo com Ester e as raparigas. Não, não queria morrer, morrer para quê? Não valia a pena. Como foi mesmo que o ferreiro falou? Tinha de tomar nota no caderno para não esquecer, já estava esquecendo. O livro pela metade, devia concluí-lo, selecionar acontecidos, frases, histórias, o caso da iaba que veio de enxerida danar o mulherengo e se enrabichou pelo pachola, virou trapo em sua mão; desse caso assombroso quem bem sabe é ele. Ah! Doroteia! Ai Tadeu!

A dor o rasga em dois, rompe-lhe o peito, ai não alcançará a casa de Ester, perdida a frase do ferreiro, tão bonita e certa, ai a neta de Rosa.

Cai no passeio, rola devagar para a sarjeta. Ali seu corpo permaneceu, primeiro coberto só de escuridão; depois vieram os laivos da aurora e o vestiram de luz.

2

O santeiro aponta o corpo estendido, ri, e, firmando-se nas pernas, faz a divertida constatação:

— O colega ali está mais cheio do mel do que nós três, juntos. Arriou de borco, vomitou as tripas. — novamente ri e tropeça no ar, numa pirueta de circo.

O major Damião de Souza, fosse por menor cachaça, fosse por maior contacto com a morte — rábula de profissão, às voltas com crimes e cadáveres, habituê do necrotério —, desconfia e aproxima-se, observa o sangue, toca com a ponta da botina as costas do velho, o esmulambado paletó: — Mortinho da silva. Ajudem aqui.

Que quantidade de álcool poderia o Major ingerir sem embriagar-se? — interroga-se o santeiro repetindo a pergunta unânime dos paus-d’água da terra, humilhados e perplexos ante aquele mistério, além de toda a compreensão. Até agora os alambiques da cidade e do Recôncavo haviam se revelado insuficientes, e, segundo Mané Lima, o Major podia “esgotar o estoque do mundo”. Lúcido até o fim.

Aos tombos e risos, acodem o santeiro e Mané Lima e entre os três dão volta ao corpo. Antes mesmo de vê-lo de frente, de fitar-lhe a face, o Major o reconhecera, desde o princípio alguma coisa se lhe afigurara familiar, quem sabe o paletó. Mané Lima, pegado de surpresa, de começo sem voz, solta depois um grito medonho: — É Pedro Archanjo!

De pé, reteso, o Major, apenas uma sombra em sua face de cobre. Não se enganara, era o velho; e o Major,com seus quarenta e nove anos bem vividos, sente-se abandonado, órfão de pai e mãe. Era o velho, sim, e ai, não tinha jeito, ai; por que não outro qualquer, um desconhecido, de preferência? Tanta gente ruim no mundo, merda de mundo, e era logo o velho Archanjo quem ia morrer assim, de noite, na rua, sem avisar ninguém, onde já se viu?

— Ai, que é o velho, que desgraça! — toda a cachaça desce para as pernas do santeiro e ele arreia-se na calçada,mudo e incapaz. Pôde apenas retirar da lama a mão do defunto e a mantém apertada entre as suas.

Uma vez por semana, às quartas-feiras, invariável, com sol ou chuva, Archanjo vinha buscá-lo em sua tenda de imagens, primeiro para as cervejotas geladíssimas no bar de Osmário, depois para o amalá no candomblé da Casa Branca. A conversa mansa, entremeada de casos,uma conversa antiga:

— Despeje o saco, meu bom, conte as peripécias.

— Não sei de nada, mestre Archanjo, de novidade nenhuma.

— Ora, se sabe... Meu bom, a toda hora acontecem coisas, coisas lindas, umas de rir, outras de chorar. Vá; desamarre a língua, camarado, que boca foi feita para falar.

Que maneira, que léria, que poder possuía ele para abrir a boca, o coração dos demais? Nem as mães de santo mais ciosas e estritas, tia Maci, dona Menininha, Mãe Senhora, do Opô Afonjá, as respeitáveis matronas, nem elas guardavam segredos para o velho, tudo lhe revelando de mão beijada — aliás os orixás. assim tinham ordenado, “para Ojuobá não há porta fechada”. Ojuobá, os olhos de Xangô, agora ali estirado morto junto ao passeio.

Se acabaram as cervejas, mestre Archanjo, três ou quatro garrafas; numa quarta-feira pagava o velho, na outra a despesa era do santeiro — se bem nos últimos tempos o velho andasse liso e teso, sem níquel. Valia a pena verse sua satisfação na semana em que obtinha uns trocados, uns escassos caraminguás — batendo com força na mesa para advertir o garção:

— Traga a conta, meu bom...

— Deixe comigo, mestre Archanjo, guarde seu dinheirinho...

— Em que lhe ofendi para você me desconsiderar, camarado? Quando eu não tenho dinheiro, você paga, não me aflijo, que não é por minha culpa e querer. Mas se hoje estou rico, por que você há de pagar? Não me tire meu dever nem meu direito, não diminua o velho Archanjo, me deixe inteiro) meu bom.

Ria um riso de dentes brancos, conservara perfeitos todos os seus dentes, chupava roletes de cana, mastigava jabá

— Não é dinheiro roubado, ganhei com meu suor.

Servindo de moço de recados em casa de putas, seu trabalho derradeiro, quem o visse tão alegre e satisfeito, não imaginaria nunca as limitações, os apertos, a infinita pobreza de seus últimos anos. Ainda na última quarta-feira não cabia em si de contente: na pensão de Ester conhecera um moço estudante, sócio de uma gráfica, disposto a imprimir seu livro — lera os anteriores e dissera em alto e bom som que Archanjo era um retado, desmascarara toda aquela corja de charlatães da Faculdade.