Tenda dos Milagres
Onde se conta de livros, teses e teorias de catedráticos e trovadores, da rainha de sabá, da condessa e da iaba, e, em meio a tanto ipicilone, se propõe uma adivinha e se exprime ousada opinião
Onde se conta de livros, teses e teorias de catedráticos e trovadores, da rainha de sabá, da
condessa e da iaba, e, em meio a tanto ipicilone, se propõe uma adivinha e se exprime ousada
opinião
1
CONTAM, amor, que, certa feita, estando uma iaba de passagem na Bahia, arreliou-se e ofendeu-se com a incontinência, o colossal deboche, a presepada imensa de mestre Pedro Archanjo, arrendatário de mulheres, macho de tantas fêmeas, pastor de dócil e fiel rebanho, mais parecendo um soba cercado de comborças, pois as puxavantes se conheciam e visitavam e juntas eram vistas cuidando dos meninos paridos de umas e de outras, todos dele, e davam-se o trato de comadre e mana, tudo em meio a gaitadas, a la vontê, em cavaqueira e patuscada, quando não reunidas no fogão a preparar quindins para o tirano.De todas cuidava Pedro Archanjo, cada uma sua vez, e a todas satisfazia como se outro emprego não tivesse além daquele de cama e vadiagem, folguedos de meter e mandar vara, doce ofício. Um lorde, um paxá, um presunçoso tirado a zarro e a pé-de-mesa, numa vida de regalo. Bem de seu, tranquilo, a la godaça, de mulher nenhuma sofrendo as agonias, martírios, o medo de perdê-la ou de não tê-la, pois as desavergonhadas, as desbriosas viviam atrás dele em dengue e adulação; não cogitavam abandoná-lo, lhe fazer ciúmes ou lhe pôr os cornos — nem por brincadeira pensar nisso. Na maciota, Pedro Archanjo, o bom de bico e de xodó.
Tal situação parecendo intolerável à iaba, por humilhante para o femeaço inteiro, decidiu ela castigar severamente mestre Archanjo, dando-lhe lição amarga e dura que lhe ensinasse o mal do amor na súplica e na espera, no pedido e na recusa, no desprezo e no abandono, na traição e na vergonha, na dor de amar e não ser correspondido. Dor de amar assim jamais sofrera o femeeiro, sedutor espalhado em leito sem limites, colchão fofo de lã de barriguda ou catre de madeira, o areal ou o mato, na barra da manhã ou no cair da noite. Pois agora ia sofrer, aprender na própria carne — jurou a iaba ante o escândalo a nonchalança do beltrano: serás exposto ao mundo e à Bahia, de estrovenga murcha, de coração em chagas e a testa florescida em chifres, exposto ao debique e à troça,na lona, no alvéu e na brochura.
Para tanto a iaba virou a negra mais formosa até hoje vista em terras da África, de Cuba e do Brasil, narrada em história, caso, relato ou xeretice: um destempero de negra, um deslumbramento de azeviche. Perfume de rosas desabrochadas para não se sentir o cheiro de enxofre;sandálias fechadas para esconder os pés-de-cabra. Quanto ao rabo, em bunda se desenvolveu, escorreita e insubmissa, do resto do corpo independente, a requebrar por conta própria Para dar-se pálida ideia da beleza da negra basta dizer que no percurso entre as profundas e a Tenda dos Milagres, ao seu passar, enlouqueceram seis mulatos, dois negros, doze brancos e uma procissão se dissolveu quando ela a atravessou. Viu-se o padre arrancar a batina e renegar a fé; e santo Onofre em seu andor voltou-se para ela e lhe sorriu.
Numas saias engomadas, a iaba ria contente: o pedante pagaria seu orgulho de pai-d’égua, de invicto garanhão em campo de mulheres. Para começo de conversa,rapidamente lhe deixaria pururuca a alabada estrovenga e, em seguida, murcha e morta, sem serventia para o bom, pelanca mole de Museu. Aqui jaz o mangalho de Pedro Archanjo, era famoso e uma iaba acabou com sua fama e valentia.
Da vitória no busílis a arrenegada tinha certeza e segurança: é público e notório que as iabas podem virar mulheres de invulgar beleza, de encanto irresistível, amantes ardentíssimas, sábias de carícias; é também de geral conhecimento que elas não conseguem desembocar no gozo
— não o alcançam jamais, sempre insatisfeitas, a pedir mais, em furor crescente. Antes que atinjam e atravessem as portas do néctar e do paraíso, o vencido mangalho do parceiro se desmancha em reles muxiba. Jamais se soube de estrovenga capaz de romper esses muros de ânsia vã e danação e de conduzir sáfara e maldita iaba a tempo e a termo do hosanas e aleluias.
Mas o castigo não se restringiria à impotência, ao fiasco no doce e violento ofício, quiçá pior seria o coração roto e ferido. Porque a iaba pensava fazer dele gato e sapato, mísero suplicante, desinfeliz escravo, traído e desprezado. Entre as duas vergonhas, qual a mais horrenda, amais mesquinha?
A falsa vinha satisfeita pela rua, com seu plano traçado: após lhe fazer provar mil vezes o gosto da quirica e do desmaio, quando o visse no visgo do xodó preso e vencido, se tocaria mundo além, indiferente, sem lhe dizer adeus. Para vê-lo — para que todos o vissem — de rastros a seus pés, pedinte; a língua lambendo a poeira do caminho, beijando-lhe as pisadas, todo ele um trapo vil, por fora um rebotalho, por dentro um corno manso a suplicar-lhe a graça de um olhar, de um riso, de um gesto, o dedo mínimo, o calcanhar, ah por caridade o bico do peito, uva negra e intumescida.
Arrastando-o no desprezo e no debique, a iaba mais baixo ainda o afundaria: na desonra — ao oferecer-se a outros em léria e em promessa, em sua cara se fretando com os vizinhos. Para que todos o vissem roendo beira de sino, tampa de pinico; para que o vissem fora de si, de punhal erguido, de navalha aberta: volta ou te mato, desgraçada; se deres a outro a flor agreste, morrerás em minhas mãos e morrerei também.
Assim, de rastros exposto na cidade, em pleno dia, à vista de todos, em pranto e súplica, chifrudo sem decoro, despido do último resquício de decência, de orgulho, verme na lama, na vergonha, na morte, na dor de amar. Vem! e traz todos os teus fretes, todos os teus machos, prega-me os chifres que quiseres, coberto de excremento e fel te desejo e te suplico, vem! e te aceito agradecido.
As iabas não gozam, já sabemos; mas também não amam e não sofrem porque, como está provado, às iabas falta coração — vazio o peito, oco e sem remédio. Por isso, por imune e por maldita, vinha ela rindo no caminho, a bunda mais atrás em remelexo, e os homens se matando só de vê-la. Pobre Archanjo.
Sucede, porém, amor, que Pedro Archanjo, esparramado na porta da Tenda dos Milagres, a esperou mal a noite se acendeu na estrela vespertina e a lua saiu de casa em Itaparica e veio debruçar-se sobre o mar, um mar de óleo, verde-escuro. Encomendara lua, estrelas, aquele mar silente e uma canção:
“Obrigado minha senhora
Pela sua cortesia;
Tenho visto que é formosa
E cheia de bizarria”.
Apoiava-se na estrovenga como se ela fosse seu bastão de obá, tanto crescera na impaciente espera; tão-só com seu olor de macho descabaçava virgens, léguas adiante, e as emprenhava.
Perguntarás, amor: que novidade é essa, como soube Archanjo dos malignos, dos esconsos propósitos da iaba — mate-me logo esta adivinha. É muito simples: por acaso não era Pedro Archanjo filho predileto de Exu, senhor dos caminhos e das encruzilhadas? Era também os olhos de Xangô — sua vista alcança longe e vê por dentro.
Foi Exu quem lhe avisou da prepotência e dos péssimos desígnios da perversa filha do Cão, de peito oco. Lhe avisou e lhe disse o que fazer: “tome primeiro um banho de folhas, mas não de uma qualquer; vá a Ossain e lhe pergunte quais, só ele penetra no âmago das plantas.Depois prepare água de cheiro de pitanga, misture com sal, mel e pimenta e nela banhe o pai-do-mundo, junta-mente com os quimbas, os dois mabaças — vai doer bastante, não se importe, seja homem, aguente; verá em breve os resultados: será a estrovenga principal do mundo pelo volume, em inchaço e longitude, pelo deleite, pela formosura e pela arreitação. Não haverá quirica de mulher ou de iaba capaz de abalar sua estrutura, quanto mais deixá-la vacilante e frouxa.”
Para completar o encantamento lhe entregou um kelê, colar de sujeição para o pescoço, e um xaôrô para sujeitar o tornozelo. “Quando ela dormir ponha-lhe o kelê e o xaôrô e estará presa pela cabeça e pelos pés, cativa para sempre. O resto Xangô vai lhe dizer”.
Xangô ordenou-lhe um ebó com doze galos brancos e doze galos pretos com doze conquéns pintadas e uma pomba branca, de imaculada alvura, de túmido peito e mavioso arrulho. Ao final do ebó, num sortilégio de mandinga, do coração da pomba em sangue e amor, Xangô fez uma conta que era branca e era vermelha, e a entregou a Archanjo, dizendo-lhe com sua voz de raio e de trovão:“Ojuobá, escute e aprenda este despacho: quando a iaba já estiver ‘sujeita pela cabeça e pelos pés, dormida e entregue, enfie essa conta em seu subilatório e aguarde sem medo o resultado: aconteça o que aconteça, não fuja, não arrede lugar, espere.” Archanjo tocou a terra com a testa e disse: axé.
Depois foi tomar o banho de folhas, escolhidas uma a uma por Ossain. No mel e na água de pitanga, no sal e na pimenta malagueta preparou a arma e a viu crescer, descomunal bordão de caminhante. No bolso escondeu o kelê, o xaôrô e o coração da pomba, a conta vermelha e branca de Xangô. Na porta da Tenda, ele a esperou chegar.
Apenas surgiu na esquina e começaram, não houve fuleragem nem fricotes; mal a iaba apareceu e a estrovenga foi ao seu encontro e lhe subiu as saias engomadas, ali mesmo metendo, na exata medida do chibiu: fogo com fogo, mel com mel, sal com sal, pimenta com pimenta e malagueta. Contar essa batalha, essa guerra das duas competências, o assalto da égua e do cavalo, o miar da gata em desvario, o uivo do lobo, o ronco do javali selvagem, o soluço da donzela na hora de mulher, o arrulho do pombo, o marulho das ondas, contar, amor, quem poderia?