Tenda dos Milagres
Onde Fausto Pena conta sua experiência teatral e outras tristezas
MINHA experiência teatral foi funesta. Não creiam que exagero. Funesta, trágica, fatal. Por onde examine, só encontro saldo negativo: decepção, desencanto e dor. Dor de corno, verdadeira. Não passei, no entanto, dos bastidores da dramaturgia, não atingi o palco, não me coube a emoção de luzes e plateias, de aplausos e noticiário. Em dias de febril entusiasmo, sonhei com tudo isso e muito mais. Meu nome nos cartazes, na fachada do Teatro Castro Alves,em gás neon em teatros do Rio e de São Paulo, junto ao de Ana Mercedes, vitoriosa primeira atriz, singular e soberana, a desbancar a jato as estrelas estabelecidas.Salas .repletas, público em delírio, crítica entusiasta,féria alta e direitos pagos na hora: o início da triunfal carreira de um novo autor. A verdade é muito outra: neres de dinheiro, de badalação, de nome impresso ou luminoso. O nome na polícia, segundo me informam, sob suspeita. Gastos os últimos níqueis. Perdido o único bem que eu possuía. Aprendi algo, sem dúvida, e dos meus companheiros de aventura não guardo ressentimentos; nem mesmo de Ildásio Taveira me fiz inimigo. Aqui entre nós, confesso que não o suporto e espero ocasião de dar-lhe o troco: para tudo há tempo e não tenho pressa. De imediato, é-me impossível romper com o judas: o Instituto Nacional do Livro encomendou-lhe uma Antologia da Jovem Poesia Baiana, na qual prometeu incluir poemas de minha autoria, mais de um, não disse quantos. Se lhe nego o cumprimento, arrisco-me a ser expulso da coletânea,posto à margem da literatura. Conservo-lhe o melhor de meus sorrisos, elogio-lhe os versos com insistência e alvoroço. Por um lugar ao sol das letras, faz-se das tripas coração.
Éramos quatro, os coautores do espetáculo. Os meus três parceiros ostentam todos eles alta categoria intelectual: geniais e para a frente. Sendo o mais conhecido dos quatro, com poemas publicados no Rio, em São Paulo e até em Lisboa, Ildásio Taveira, de costeletas bastas e camisas berrantes, fazia sua estreia no teatro. Os dois outros eram estudantes de Direito. O compositor Toninho Lins cursava o terceiro-ano, tinha um samba gravado e vários inéditos, à espera da consagração de um Festival. Estácio Maia, renitente primeiranista, exibia diferentes predicados: a cachaça agressiva e radical, uma sapiência carismática, e o tio general. Em confidências de porrista, no segredo dos pequenos grupos, renegava o parentesco, destratando o tio. Literato muito avançado, de ilimitada suficiência,cheio de frustrações, instável e imprevisível, vivia representando: ora implacável terrorista, ora místico a pedir perdão de suas faltas, reles ator, pífio galã. Ana Mercedes, ao vê-lo aproximar-se, logo identificava a máscara do dia: “hoje vem de guerrilheiro.” Na véspera fora heróide Dostoiewsky, Raskolnikov em versão barata. Curioso indivíduo.
Antes de mais nada, requeremos pauta no Teatro Castro Alves, providência a cargo de Estácio Maia, nessas horas o sobrinho de seu tio. Depois iniciamos as infindáveis discussões sobre a peça, com gritos, xingamentos, ameaças físicas e muita cachaça.
As divergências referiam-se ao conteúdo do espetáculo e à figura de Pedro Archanjo. Estácio Maia, declarando-se irredutível partidário brasileiro do Poder Negro norte-americano, transformava Pedro Archanjo em membro da organização Black Panther a declamar no palco discursos e palavras de ordem de Carmichael, advogando a separação de raças, o ódio irremediável. Uma espécie de professor Nilo Argolo às avessas. Negros de um lado,brancos de outro, proibida qualquer mistura e convivência, em luta mortal. Jamais consegui saber onde o violento líder da negritude nacional situava os mulatos.
Não recordo se já disse ser esse Maia moço branco de cabelos loiros e olhos azuis, pouco afeito inclusive a negras e mulatas. No particular, devo-lhe gratidão: excluindo as oito bichas comprovadas, dezenove homens tinham a ver com o espetáculo, entre diretor, atores, iluminadores, cenaristas, figurinistas etcetera e tal, e dos dezenove foi ele o único a não cantar Ana Mercedes.
Ildásio não lhe aceitava as teses, tampouco Toninho Lins. Este último, um cara sério, de prestígio no meio estudantil, desejava mostrar sobretudo o Pedro Archanjo grevista, de pé contra patrões, trustes e polícia; fazia da luta de classes o centro do espetáculo. “O problema racial, camaradas, é consequência do problema de classes” — explicava, citando autores, calmo, sem exaltar-se. “No Brasil, camaradas, negros e mulatos são discriminados em sua condição de proletários: branco pobre é negro sujo, mulato rico é branco. puro” “A luta de classes e o folclore”, eis sua receita para um espetáculo ao mesmo tempo militante e popular. Compunha sobre temas folclóricos e de tudo o que se fez para a projetada função só se salva a bela melodia de Toninho Lins sobre o enterro de Pedro Archanjo. Concorreu com ela, posteriormente, ao Festival Universitário, no Rio, ganhou o segundo prêmio. Merecia o primeiro, na opinião do público.
Quanto a Ildásio, tenho de confessar parecer-me sua posição a mais próxima do verdadeiro Archanjo, se é que existe uma única verdade “arcanjiana” (para usar uma palavra em moda), tantos Archanjos têm surgido nessas comemorações do centenário. Podemos vê-lo até nos muros da cidade, anunciando Coca-Coco: “Nos costumes da Bahia do meu tempo só faltava Coca-Coco”.
Ildásio Taveira, concordando com Toninho na primazia da questão de classes sobre a de raças, concedendo a Estácio Maia a existência no Brasil de preconceitos de cor e de racistas em quantidade, propunha um Archanjo sem sectarismo, consciente de sua força e da força do povo, a defender a solução do problema brasileiro, a miscigenação, a mistura, os mestiços, as mulatas e, antes de tudo e sobretudo, Ana Mercedes, a quem repetia propostas nos cantos do Teatro, o infame.
Discutíamos em botecos e boates, nas madrugadas do Xixi dos Anjos. Ildásio escolhera, com minha ajuda, frases dos livros de Pedro Archanjo, para base dos diálogos. Estácio Maia não as aceitava: “esse tipo é um reaça”. Punha na boca de Archanjo falas terríveis, tenebrosas ameaças de destruição da raça branca e do Ocidente em geral: “Nós, os negros, liquidaremos russos e americanos, brancos assassinos, uns e outros”. Toninho Uns e eu intervínhamos temendo ver o debate findar em corpo-a-corpo tal a exaltação dos contendores. De humor grosso, Ildásio apelidou o loiro Maia de “Piolho de Carmichael”, foi o diabo.
Insultavam-se, faziam as pazes, com abraços e juras de amizade eterna, reabriam o debate, xingos e tragos. Durou um mês, bebeu-se bares inteiros.
Quanto a mim, lutei para conciliar pontos de vista, falas, diálogos, dogmas, cismas, facções, ideologias e poderes. Queria apenas a peça, nome no cartaz, o meu e o de Ana Mercedes, juntos, autor e diva, oh! a gloriosa noite da estreia! Ana Mercedes faria Rosa de Oxalá, sobre isso não houve discussão, todos de acordo. Nessa altura dos debates, pouco me importava o póstumo destino teatral do Pedro Archanjo: líder operário em greve, Black Panther racista a recusar a miscigenação, a pregar a guerra santa contra os brancos, mulato baiano criador de civilização, tanto se me dava. Eu queria a peça em cartaz.
À custa de infinita paciência consegui que um texto, anárquico e contraditório, fosse posto de pé e enviado à censura. Aliás, na opinião idônea e para a frente de Álvaro Orlando, diretor convidado para montar o espetáculo, em teatro texto é coisa secundária, praticamente inútil. Assim sendo, as contradições não tinham importância alguma. Estácio Maia obteve promessas de subvenção e propôs à Universidade comprar, para os estudantes, a função de estreia. Nessas ocasiões, Estácio Maia fardava-se de sobrinho.
Decidimos não esperar o resultado da censura para iniciar os ensaios e o fizemos em semana de intensa agitação estudantil. Tendo constatado a presença de provocadores na Faculdade de Direito, os alunos entraram em greve e logo foram apoiados pelas demais unidades universitárias. A primeira passeata transcorreu em ordem mas a segunda foi dissolvida a gás e a bala pela polícia.Prisões em massa, estudantes feridos, o convento dos beneditinos invadido, o comércio fechado, violências brutais, um fim de mundo.
Toninho Lins foi preso na Rua Chile, conduzia um cartaz e o usou na luta contra os tiras. Levou uma semana no xadrez e comportou-se bem, um macho! Estácio Maia saiu de circulação nos dias de perigo; passeatas, brigas, cadeia não o atraíam: era um teórico. Seu nome, no entanto, constou da lista de agitadores publicada nos jornais.Desapareceu de todo, levou sumiço. Soubemos depois ter obtido transferência de matrícula para Aracaju. Anda por Sergipe, um tanto murcho, recaiu no misticismo.
A censura proibiu a peça e, segundo me disseram, enviou o nome dos autores à polícia para as competentes fichas. Onde fui parar! Para não perder a pauta no Teatro, Ildásio escreveu em tempo recorde uma peça infantil e convidou Ana Mercedes para o papel de Borboleta Cintilante. Opus-me com firmeza e palavrões. Para compensá-la da oportunidade perdida, levei-a de passeio ao Rio e a São Paulo, empregando na tardia lua de mel os derradeiros dólares do grande Levenson.
Dissolveram-se, um a um, nas butiques de Copacabana e da Rua Augusta, em restaurantes e boates, no trato de literatos, preciosas e caríssimas amizades. O mercado das promoções anda pela hora da morte: a simples citação do nome de um poeta provinciano em coluna de letras custa almoço no Museu de Arte Moderna ou rodadas de escocês nos bares de Ipanema.
Regressei a zero e de nada valeu o sacrifício. Ana Mercedes, vestida com modelos de Laís, tornou-se áspera e fugidia. Certo domingo, abro o suplemento literário do “Diário da Manhã” e deparo com dois poemas sob sua assinatura: não os havia submetido à minha revisão. Li os versos: sei algo de poesia, na primeira estrofe reconheci o estilo de Ildásio Taveira. Passei a mão na testa, ardia em febre e em chifres.
Sofri e sofro ainda, sonho com ela pelas noites, mor-do o travesseiro, o leito guarda intacto o perfume de alecrim. Não demonstrei, no entanto, a dor de corno a roer-me as entranhas quando de supetão topei com os dois na rua, abraçadinhos. Ildásio falou-me da Antologia, deu-me urgência nos poemas, ia mandar os originais para o Instituto. A meretriz tratou-me com distância e indiferença.
Naquele dia nem a cachaça confortou-me: no fim da noite, lúcido e torpe, cometi um soneto de adeus para Ana Mercedes. Para certas dores só o suicídio ou o soneto. Camoniano.