Tenda dos Milagres
Capítulo 6
Por vezes, ao término de um milagre riscado na arte e no capricho, mestre Lídio Corró experimenta o desejo de desistir da remuneração, de reter o quadro, de não entregá-lo, deixando-o na parede da oficina. Os mais bonitos, pelo menos. Na sala da Tenda dos Milagres, entretanto, há apenas um milagre na parede, pendurado.
Representa e mostra a figura de um indivíduo lívido e esquelético, vítima de tuberculose galopante, salvo da morte em certa ocasião, quando, na hora da hemoptise final, uma sua tia, descrente da medicina e devota da Virgem, recorreu a Nossa Senhora das Candeias e lhe entregou a sorte do sobrinho em mar de sangue.
A própria tia veio encomendar o trabalho: senhora gorda, de conversa cativante, mais faladeira do que o Assis das onças e ainda rebolosa. Manuel de Praxedes, presente ao encontro, ficou de olho cheio, chegado como era a uma gorda: “gosto de sentir carne na mão; quem gosta de osso é cachorro, você sabe; mas experimente dar lombo ou mal-assada e veja o resultado”.
Estava a agraciada feliz com seu milagre, contou vantagens, arrotou prestígio junto à Virgem. Manuel de Praxedes disse que ele também era muito devoto das Candeias, não perdia a festa, com sol ou chuva para lá se mandava todo ano. Santa macha, milagreira mesmo, com ela era ali, na batata, não falhara nunca.
A tia, toda dengosa com o frete do pachola, fez questão de pagar metade do preço da encomenda, e foi a sorte, pois nunca mais voltou. Segundo contam, em nova hemoptise a santa se absteve, vá se saber por que motivo, certamente relevante! Na opinião abalizada de Rosenda Batista dos Reis, a quem Corró narrou o episódio, a santa sentira-se insultada com aquela galinhagem da tia gorda e do estivador a se fretarem na sombra de seu nome e os castigou largando o tísico no alvéu, a botar sangue. Rosenda era de julgamento prudente, seguro e acatado, e entendia um bocado de milagres e ebós.
O quadro na parede representa um quarto soturno, sem horizonte as cores patéticas, o sangue em borbotões. Semierguido no leito de solteiro, magérrimo, exangue, o agonizante: feixe de ossos, pele de cera, em sua face lê-se a morte. A tia, beata e lépida, saia florida, xale vermelho sobre o coque, contempla a figura da Senhora das Candeias e roga compaixão. O sangue desborda do leito, dos lençóis, cobre o chão, atinge o céu. Um pouco à parte dessa sangueira, um urinol de louça, com flores em verde, em rosa e em vermelho. Flores idênticas na saia da tia, na cabeceira e nos pés da cama. Com elas, quisera talvez mestre Corró romper a mesquinha atmosfera de desespero e morte — ah! minha prezada, não há santo que salve esse infeliz. Basta olhar o quadro e ver-lhe a cara.
Por falso e falho, o único milagre a permanecer na parede da oficina, dependurado entre a oleogravura de São Jorge com seu cavalo branco, e o dragão de fogo, e um cartaz do Moulin Rouge, de Paris, assinado por Toulouse-Lautrec, cena de dança de cancã — francesas de saias erguidas exibindo coxas, ligas, meias e babados; como diabos viera ali parar?
Vontade, ah tanta!, de guardar consigo alguns de seus milagres, os mais bonitos, riscados na arte e no capricho, mas, como fazê-lo se precisa de dinheiro? De dinheiro e muito, urgentemente. Possui seu pé-de-meia; punha a féria a render em mãos de seu Herval, grossista da Cidade Baixa. Uma tipografia, por menor que seja, não custa dois vinténs, é preciso juntar montanhas de dinheiro.