Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 49 de 77

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Tenda dos Milagres

Da batalha civil de Pedro Archanjo Ojuobá e de como o povo ocupou a praça

 

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NESTOR Souza fala um francês perfeito, impecável — afirmou o professor Aristides de Castro, referindo-se ao Diretor da Faculdade de Direito, jurista, eminente, membro de institutos internacionais. Repetiu o nome, num arroubo de admiração: — Nestor Souza, um crânio!

O professor Fonseca, catedrático de Anatomia, interveio: — Não há dúvida, a pronúncia de Nestor é muito boa. Não sei, porém, se pode competir com Zinho de Carvalho no trato da língua. Para Zinho, o francês não tem segredos. Sabe de memória páginas e páginas do “Génie du Christianisme”, de Chateaubriand, poemas de Victor Hugo, cenas inteiras do Cyrano de Bergerac, de Rostand — dizia Hugô e Cyranô, exibindo seus próprios conhecimentos: — Já o escutou, a declamar?

— Já e comungo nos elogios que lhe faz. Pergunto,no entanto: Zinho será capaz de improvisar um discurso em francês, como Nestor Souza? Os colegas recordam o banquete em homenagem a Maitre Daix, o advogado de Paris que nos visitou no ano passado? Nestor o saudou em francês, de improviso! Magistral! Ao ouvi-lo, senti orgulho de ser baiano.

— Improviso? Coisa nenhuma — escarneceu o magro livre-docente Isaias Luna, má-língua notório, popular entre os estudantes devido à maledicência nos conceitos e à generosidade nos exames: — Pelo que sei, decora as aulas de véspera e ensaia gestos diante do espelho.

— Não diga isso, não repita infâmias geradas na inveja.

— É o que dizem, é a voz do povo. Vox populi, vox Dei!

— Zinho... — o professor Fonseca repunha seu candidato na liça.

A conversa na secretaria, no intervalo das aulas, reunia os lentes da Faculdade de Medicina, cada qual mais ilustre e altivo, mais cioso de seus privilégios. Saboreando o cafezinho quente trazido pelos bedéis, descansavam das classes e dos alunos numa prosa vadia, ao sabor dos assuntos: do comentário científico à vida alheia. De quando em vez, frouxos de riso, uma anedota contada em voz baixa. “A melhor coisa da Faculdade é o cavaco na secretaria”, asseverava o professor Aristides Caires, um viciado, responsável pelo tema em debate naquela manhã: o domínio da língua francesa.

Língua de trato obrigatório a quem quisesse merecer foros de intelectual, instrumento indispensável ao ensino superior. Na época não existiam traduções em português dos tratados e livros básicos, necessários ao estudo das matérias dos currículos das Faculdades. A bibliografia da grande maioria dos professores era exclusivamente francesa; alguns conheciam também o inglês, raros o alemão. Falar francês sem erros e com boa pronúncia tornara-se motivo de vaidade, fator de prestígio.

Na discussão, outras autoridades vieram à baila: o professor Bernard, da Escola Politécnica, filho de pai francês, formado em Grenoble; o jornalista Henrique Damásio, com sucessivas viagens à Europa e curso completo nos cabarés de Paris, “esse não, por favor, seu francês é de buduar”; o pintor Florêncio Valença, doze anos de boemia no Quartier Latin; o padre Cabral, do Colégio dos Jesuítas, “esse também não conta, falamos de brasileiros e ele é português”. Quem, entre todos, o de melhor pronúncia? Qual o mais parisiense, o mais chique, o mais requintado nos erres e esses?

— Os colegas citam tanta gente e se esquecem que aqui, em nossa Faculdade, possuímos quatro ou cinco luminares na matéria — conceituou o professor Aires.

Houve um alívio geral: aquela estranha omissão das eminências da Casa começava a causar constrangimento. Na Bahia de então não existia título de maior prestígio do que o de professor da Faculdade de Medicina. Não significava apenas cátedra vitalícia, bom salário, importância e consideração. Garantia clínica rendosa, consultório cheio de doentes ricos. Muitos vinham do interior trazidos pelos anúncios nas gazetas: “Professor Doutor Fulano de Tal catedrático da Faculdade de Medicina da Bahia com prática nos Hospitais de Paris”. Mágica invocação, o título emérito abria as portas mais diferentes:das letras, da política, da agropecuária. Os catedráticos faziam-se membros das Academias, elegiam-se deputado estadual ou federal, compravam fazendas e cabeças de gado, latifúndios.

Concurso para cátedra vaga era acontecimento de repercussão nacional: abalavam-se médicos de Rio e São Paulo para disputar com os baianos o posto e as vantagens. A sociedade comparecia em peso às arguições, às defesas de tese, às aulas ditadas pelos candidatos, seguia com atenção perguntas e respostas, comentava frases de espírito e malcriações. Formavam-se partidos, dividiam-se as opiniões, os resultados davam lugar a polêmicas e protestos, já houvera casos de ameaças de morte e de desforço físico. Sendo assim, como esquecer na relação dos mestres do bom francês os grandes da Faculdade de Medicina? Um absurdo, quase um escândalo.

Maior ainda por se encontrar presente, ouvindo em silêncio e certamente em expectativa; o professor Nilo Argolo, poliglota a dominar quantidade de idiomas, “o Monstro das sete línguas”. Não só falava e discursava: redigia comunicações e teses em francês. Ainda agora enviara a um Congresso em Bruxelas importante trabalho, “La paranoia chez les negres et métis”:

— Inteiramente redigido em francês, linha por linha, palavra por palavra! — sublinhou o professor Oswaldo Fontes, a reivindicar o primeiro posto para o mestre e amigo.

Sorvendo em pequenos goles o cafezinho, o eminente professor Silva Virajá, de real presença no mundo da ciência médica, pesquisador do esquistossoma, acompanhou divertido as mutações do rosto de seu colega Nilo d’Ávila Argolo de Araújo antes e depois das afirmativas de Aires e Fontes; sério, fechado, inquieto, de repente satisfeito, logo em seguida coberto de falsa modéstia, sempre petulante. O sábio era indulgente com a tolice humana mas a presunção o agastava.

Após o coro consagrador, a aclamação universal, o professor Argolo concedeu, magnânimo:

— O professor Nestor Gomes também excele na língua de Corneille. — Quanto aos outros nomes citados, não os considerou rivais.

Então mestre Silva Virajá, ante aquela exposta arrogância, pousou a xícara e disse:

— Conheço todos os citados e a todos lhes ouvi o francês. Pois mesmo assim, ouso dizer que não há em toda esta cidade quem melhor exercite a língua francesa, com absoluta correção e sem nenhum sotaque, do que um dos bedéis de minha cátedra, Pedro Archanjo.

Ergueu-se o professor Nilo Argolo, o rosto em fogo, como se o colega lhe houvesse aplicado um par de bofetadas. Fosse outro o autor da afirmativa e com certeza o catedrático de Medicina Legal teria reagido com violência ao ver-se comparado a um bedel, ademais mulato. Na Faculdade de Medicina e em toda a Bahia, porém, não existia quem ousasse levantar a voz diante do professor Silva Virajá.

— Refere-se por acaso o colega a esse melanoderma que publicou há uns quantos anos magra brochura sobre costumes?

— A esse me refiro, professor. É meu auxiliar há quase dez anos. Requisitei-o ao ler sua magra brochura, como o senhor a classifica. Magra de páginas mas forte de observações e conceitos. Vai publicar agora novo livro, me-nos magro e ainda mais rico: trabalho de real interesse etnológico. Deu-me capítulos a ler e os li com admiração.

— Esse... esse... bedel sabe francês?

— E como! Dá gosto ouvi-lo. Seu inglês é igualmente admirável. Conhece bem o espanhol e o italiano e, se eu tivesse tempo para lhe ensinar, acabaria falando o alemão melhor do que eu. Aliás, quem comparte essa opinião é sua prima e minha amiga, a condessa Isabel Tereza, cujo francês, diga-se de passagem, é delicioso.

A citação da parenta incômoda acentuou o rubor do ofendido lente;

— Sua bondade, professor Virajá, de todos conhecida,leva-o a superestimar os inferiores. O pardo certamente decorou algumas frases em francês e já o colega, com seu coração generoso, diploma-o mestre de línguas.

O riso do sábio era um riso álacre, de criança:

— Obrigado pelos elogios, não os mereço, não possuo essa bondade toda. É verdade que, no julgamento dos homens, prefiro superestimar, pois quem subestima em geral mede os demais por sua própria medida. No caso, porém, não exagero, professor.

— Um reles bedel, recuso-me a crer.

A presunção agastava mestre Silva Virajá, mas só a prepotência no trato com os pobres conseguia irritá-lo. “Desconfiem e se afastem dos indivíduos que adulam os poderosos e pisoteiam os desprotegidos, recomendava aos jovens, são de ruim caráter, falsos e mesquinhos, faltos de grandeza”.

— Esse bedel é um homem de ciência, pode dar lição a muito professor.

Numa rabanada, o catedrático de Medicina Legal abandonou a sala, seguido pelo professor Oswaldo Fontes. Mestre Silva Virajá riu, criança alegre após a travessura, um brilho de malícia nos olhos, uma nota de espanto na voz:

— O talento independe de pigmentação, de títulos, de condição social, tudo isso é tolice. Meu Deus, como é possível que exista ainda quem desconheça esta verdade?

Levantando sacode os ombros, livra-se de Nilo d’Ávila Argolo de Araújo, saco de preconceitos, monstro de vaidade, tão cheio de si e tão vazio. Encaminha-se para o primeiro andar onde o negro Evaristo o espera com material trazido do necrotério. Ah! pobre Nilo! Quando aprenderás que só a ciência conta e permanece, não importa a língua em que se expresse nem os títulos de quem a experimente e crie? No laboratório, os alunos cercam mestre Silva Virajá, as lâminas nos microscópios.