Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 73 de 77

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Tenda dos Milagres

Capítulo 4

— À noite, em casa, é melhor.

Archanjo punha-se de pé, Fraga Neto levantou-se também, tirava a carteira para pagar a despesa: — Qual é o seu emprego na Energia Elétrica?

— Entregador de contas de luz.

Baixando a voz, um tanto emocionado, o professor perguntou: — Posso lhe ajudar em alguma coisa, Archanjo? Será que você aceitaria... — puxava uma cédula da carteira.

— Não me ofenda, professor. Guarde o dinheiro, junte ao que vai dar para a greve. Felicidades no concurso. Se eu não estivesse proibido de entrar na Faculdade, viria torcer pelo senhor.

Com o olhar, Fraga Neto o acompanhou: diabo de velho irredutível. Intranquilo, em passo hesitante, saiu do bar em direção ao automóvel. Diabo de velho sem juízo, reduzido a entregador de contas. Um concurso é um concurso, cátedra é cátedra. Um jovem candidato à docência,recém-chegado da Europa, tem direito a ser louco e a proclamar-se marxista. Um professor da Faculdade de Medicina, às vésperas de disputar a cátedra enfrentando dois competidores, um competente, o outro protegido de Ministros, só irá a um Sindicato de grevistas se quiser perder

o concurso, encerrar a carreira. É o mesmo que atirar a cátedra pela janela, Archanjo. Título de bedel é uma coisa,título de catedrático é outra, não tem comparação, você mesmo disse. Pobre bedel, miséria e orgulho. Rico catedrático, cadê o orgulho e a decência? Só o bedel pode ser decente, pode ter orgulho? Adianta o passo, quase a correr atrás do velho:

— Archanjo! Archanjo! Espere!

— Professor...

— O Sindicato... A que horas, me diga, a que horas devo ir?

— Agora mesmo, se quiser, professor... Venha comigo, meu bom.

O professor Fraga Neto não perdeu a cátedra, brilhantíssimo impôs-se no concurso, derrotou com distinção o competente e o protegido. Pedro Archanjo, sim, perdeu o emprego, pois o demônio do velho não se contentou em levar gente solidária ao Sindicato. Meteu-se a agitador, conversou, convenceu, foi um dos que deflagraram a greve na Companhia de Energia Elétrica, logo seguida pela Telefônica. Greve geral, vitoriosa, na ocasião ninguém foi despedido. Um mês depois começaram as demissões. Entre as primeiras, a de Pedro Archanjo.

Desceu o Pelourinho a rir, Desempregado. Sim, Zabela, chomeur.

4

Longa e mesquinha relação de empregos, todos de pequena permanência e menor salário. Trabalho para velho já era difícil e o diabo do velho não cumpria horários, largava o serviço pelo meio, chegava tarde, saía cedo, não vinha, esquecido em conversas pelas ruas. Impossível conservá-lo, apesar da boa vontade geral.

Foi reserva de revisor na oficina de um matutino. No começo da noite ia saber se precisavam de seus serviços, hoje falhava um dos efetivos, amanhã outro não vinha, o velho tinha certa prática, bom de gramática e de acento. Pela madrugada, no sarapatel e na cachaça, distribuía as notícias do mundo e do país aos amigos, a Miguel, ao Major, a Budião, a Mané Lima, os primeiros a saber. Ia mal o mundo, de confusão em confusão. Os fascistas matando negros na Abissínia, derrubando o trono de Sabá, ai Sabina dos Anjos, Sabá, o teu rei foi posto em campo de concentração! Sucediam-se os massacres de judeus, houve a proclamação oficial do arianismo, a guerra mundial aproxima- se no rufo dos tambores. No Brasil, aquela coisa, o Estado Novo, as bocas cerradas, as prisões cheias. Não tardou e o velho não só foi despedido, teve o nome na lista negra dos jornais.

Tudo leva a crer que o velho empastelou de propósito artigo de endeusamento a Hitler, assinado por grande do governo o coronel Carvalho, e distribuído às gazetas pelo Departamento de Imprensa e Propaganda com expressa advertência do maior destaque na publicação. Os gatos e pastéis sucederam-se por todo o corpo do artigo. Ainda se podia admitir, disse e repetiu o chefe da censura estadual ao diretor do órgão, aliás seu amigo, em boa fé ainda se podia admitir que saísse “Hitler, pus do mundo” em lugar de “Hitler, luz do mundo”, troca de uma letra, compreensível descuido do linotipista. Bem mais difícil aceitar “matador da humanidade” por “salvador da humanidade” como estava nos originais. Totalmente inaceitável aquela palavra chibungo por duas vezes repetida ao lado do no-me do Führer. A sorte é que, no Rio, ninguém sabia que chibungo significa a mesma coisa que puto. Ainda assim,as ordens vindas de lá eram terríveis e ele próprio jogava seu cargo ao reduzir escândalo e castigo à apreensão do número e a suspender a circulação por oito dias, oito dias úteis, além de ordenar aos censores do jornal rápido inquérito para apurar responsabilidades.

Os censores nada puseram a limpo, impossível descobrir as provas revistas, levaram sumiço total. Em arrasadora unanimidade ninguém sabia de nada, todos cegos e mu-dos. Sendo o velho apenas ocasional substituto, seu nome não veio sequer à baila. Mesmo o proprietário do jornal, furioso com a suspensão e os prejuízos,. ainda :mais furioso com a ditadura, calou o nome do maluco, embora o inscrevesse na lista negra da imprensa: “Se continuar a rever provas, acaba nos botando, a todos, na cadeia”. “Velho porreta !“, diziam os linotipistas. O exemplar da gazeta,vendido às escondidas, alcançou bom preço.

Copista de traslados em cartório do Fórum, se apenas não trabalhasse não teria importância, conforme explicou o escrivão Cazuza Pivide ao major Damião de Souza. O Pior é que não trabalha e não deixa ninguém trabalhar, apenas ele chega e para tudo, o diabo do velho é um porrão de historias, cada qual mais embrulhada, mais cativante, Seu Major. Até eu largo o que fazer para ouvir.

Bedel de ginásio, durou um dia no emprego: os meninos internos pareceram-lhe prisioneiros, arrancados do lar e da rua, sujeitos a intolerável disciplina, em permanente fome de comida e liberdade. Na primeira e única noite de guarda, ofereceu aos garotos uma função lítero-musical: poemas e cavaquinho. Chegariam à aurora a cantar se o Diretor, chamado às pressas, não fizesse valer sua autoridade pondo fim àquela “baderna indescritível”. Porteiro de hotel, saía porta a fora ao menor convite. Porteiro do cinema Olímpia, na Baixa dos Sapateiros, deixava os moleques entrarem de graça nas matinês dos domingos. Apontador de obra em construção, ao sol e à chuva, puxava conversa com os operários, o ritmo do trabalho caía, o velho não nascera palmatória do mundo, muito menos capitão do mato, capataz de trabalhadores. Afinal, mal pagos, explorados, por que haviam eles, pedreiros, carpinteiros, oficiais e serventes de se matar para os outros ganharem dinheiro fácil? O velho jamais cumprira horários: mesmo a disciplina no estudo fora interior, não a controlara nos ponteiros do relógio; não se sujeitou jamais a folhinha e calendário.

As roupas gastas, as camisas puídas, os sapatos rotos. Um único terno, três camisas, duas cuecas, dois pares de meias: impossível manter-se bem-posto. Ainda assim, no horror à sujeira, lavava ele próprio aquelas poucas peças,e Cardeal, engraxate no Terreiro há mais de vinte anos, escovava-lhe os sapatos, gratuitamente:

— Venha, meu pai, dar um brilho nas botinas.

Contente, de um lado para outro. Na Livraria Dante Alighieri. a chamar Bonfanti de ladrão, “cadê o dinheiro de meu livro de cozinha, seu calabrês?” “Me chame de ladrão, não me chame de calabrês. io sono toscano, Dio merda!” Na tenda de Miguel, nas oficinas do Pelourinho,nas barracas do Mercado do Ouro, do Mercado Modelo, do Mercado de Santa Bárbara, passava manhãs e tardes em conversas. Comia aqui e ali, alegre convidado. Permanente na mesa de Terência, agora servido pela sobrinha Nair, jovem de vinte e cinco anos e mãe de seis filhos pequenos. O primeiro, neto de Terência, pois Nair o tivera do primo Damião que não era tolo de deixar para nenhum ousado aquele pitéu familiar. Os outros cinco, um de cada pai numa escala de cores que ia do loiro ao negro, Nair não tinha preconceitos nem perdia tempo.

— Assim nunca vi... Não pode ver calça... — queixava-se Terência, a cabeça branca, os olhos postos no compadre. — Não tem o seu orgulho, compadre.

— Meu orgulho, comadre? Por que diz isso?

Nós olhos dolentes leu a resposta: tantos anos à espera de uma palavra, de um pedido, de uma súplica. Não foi orgulho, comadre, foi respeito. Tanto você falava no Torto Souza, voz de raiva, coração de espera. Eu comia seu pão, ensinava o moleque a ler, respeitei a cama vazia pensando que... O compadre tão inteligente, o compadre que é os olhos de Xangô, ah! compadre por que não soube ver? Agora é tarde, dois velhos sem remédio. Tão sem remédio assim, comadre? De quem é o penúltimo de Nair, o capeta reinador? Ainda não completou dois anos, e o pai, comadre, fique sabendo, se não sabe, é esse seu criado às ordens...

Nas escolas de capoeira, a discutir com Budião e Valdeloir, nos pastoris, na sede do Afoxé dos Pândegos da África, nos terreiros, nas madrugadas nas Sete Portas,em Água dos Meninos. De conversa em conversa, tomando notas na pequena caderneta preta, fazendo rir e chorar com casos e acontecidos, numa correria, viveu o velho Pedro Archanjo os últimos anos de sua vida. Tanta corrida, tanta gente, tão sozinho.

Sozinho desde a morte de Lídio Corró. Demorara a se recuperar, foi preciso a energia inteira, a paixão de viver. Aos poucos, o compadre ressuscitou no. herói predileto de mil histórias. Tudo quanto o velho vira e realizara, fizera-o em companhia de Lídio, obra comum. Irmãos,mabaças, xifópagos. “Uma vez, há muitos anos, o compadre Lídio e eu fomos a uma festa de Yansan num caminho longe, para os lados da Gomeia, no tempo do delegado Pedrito quando o pau comia solto nas costas da gente de santo. Compadre Lídio...”

Vendo-o tão pobre e necessitado, mãe Pulquéria, a quem ele tanto auxiliava na solução dos problemas do Terreiro, lhe propôs função remunerada. Precisava de alguém que se ocupasse de cobrar as mensalidades dos membros do axé, renda e foro de casebres erguidos em terras da roça, habitações de parentes e aderentes de filhas-de-santo. Alguém de confiança que fizesse as contas, ela não tinha tempo. A paga era pequena mas sempre servia para alguma coisa, um dinheirinho para o bonde. Bonde ele não pagava, desde a greve. Comida tinha farta, em muitas mesas, variada escolha. Tomo a incumbência, mãe Pulquéria, obrigação de Ojuobá e prazer de amigo; com uma condição: faço de graça, não aceito pagamento, não me ofenda, minha Mãe. Pensou consigo: se ainda acreditasse no mistério, se não houvesse penetrado o segredo da adivinha, talvez pudesse, crente e convicto, receber dinheiro do santo. Agora não, mãe Pulquéria: quem cumpre o encargo é apenas amigo devotado. Paga-se ao irmão de crença, não se paga ao amigo, a amizade não se aluga, não se vende, seu preço é outro, diferente: eu que o diga! Até o fim da vida, Pedro Archanjo se ocupou com as mensalidades dos membros da seita, filhos do Terreiro de Pulquéria, o foro e a renda dos inquilinos e moradores, levou com perfeição as contas do axé e ainda, quando os teve, pôs níqueis de seu bolso na cuia do orixá, no peji de Xangô, na morada de Exu.