Tenda dos Milagres
Capítulo 5
De costas, mestre Lídio recua, aproxima-se da porta para enxergar melhor. A claridade é pequena, a noite desce.
— Bonito — diz a voz de Archanjo. — Se eu fosse rico, meu bom, todas as semanas lhe encomendava um milagre, pelo menos. Para ter em casa e olhar quando quisesse.
Voltou-se o riscador, a sorrir na sombra e deu com a estrangeira: sua brancura de louça, transparente, sua aparência de menina.
— Kirsi — apresentou Archanjo, e era visível sua satisfação.
— Muito prazer — disse Corró, e estendeu a mão. — Entre, a casa é sua — e para Archanjo acrescentou: — Mande ela sentar e acenda a lamparina.
Não demonstrou surpresa ante a forasteira, a inesperada hóspede. Colocou o quadro contra a luz e longamente o viu e o aprendeu de cor. A gringa, alta e esbelta, por sobre seu ombro também olhou, aprovativa, entusiasta,numa veemência de palmas e exclamações inteligíveis. Agora, só falta Rosa, a peregrina, e quem sabe ei-la de repente, em carne e osso. Ali, na Tenda dos Milagres, tudo pode acontecer e acontece.
5
Se durante o dia era intenso o movimento, de noite muito mais. A animação cresce na Tenda dos Milagres desde que o acender das lamparinas anuncia a hora do espetáculo. Depois, apenas os amigos e as formosas, a conversa desatada, ao deus-dará, a la godaça.
Nem sequer em dia de cinzas, na quarta-feira após o carnaval, faltam fregueses para a lanterna mágica, a marmota armada na cozinha. De quem a ideia do rudimentar cinematógrafo? De Lídio Corró, de Pedro Archanjo? Difícil precisar, mas certamente são de Corró as figuras recortadas em forte papelão, articuladas, vistas de perfil. De Archanjo será a movimentação, o jogo de cena, o palavrório, o sal e a pimenta.
Extintas as luzes, resta apenas o brilho fosco do fifó sob o pano preto, de onde as sombras ampliadas dos ingênuos e devassos personagens se projetam na parede branca de cal. É tudo muito simples e primário e custa dois vinténs. Atrai moços e velhos, ricos e pobres, marítimos, ganhadores, caixeiros e comerciantes. Até mulheres se atrevem a ir às escondidas.
Para assistir, refletidos na parede, os dois amigos íntimos, Pinguelinho e Zé Piroca, em juras e abraços de amizade. Toda assanhada, Lili Chupeta surge em cena, e vai- se ao beleléu a amizade eterna e franca. Os dois disputam a sirigaita a socos, palavrões, bofetes, umbigadas, rasteiras, pontapés, rabos-de-arraia, a briga arrancou aplausos da plateia.
Finda tudo na mais grossa patifaria, quando Zé Piroca, de piroca acesa, tendo posto fora de combate a Pinguelinho, atira-se sobre Lili Chupeta, abre-lhe as pernas e lhe manda vara. Delira o público com o barruncho estapafúrdio, em desvairado ritmo, momento supremo, cume emocional da superprodução. Mas não o fim do enredo, nem a sequência de maior comicidade, a que sozinha paga os dois vinténs da entrada. Essa acontece na hora extrema dos amantes, no melhor do gôzo: eis Pinguelinho, refeito e vingativo, de retorno à cena, e Zé Piroca só se dá conta quando sente o rival que lhe monta às costas e lhe põe nas pregas.
Termina a função, saem os fregueses em gaitadas, daqui a pouco outros chegarão. Das seis da tarde às dez da noite, a marmota funciona. Por dois vinténs até que não é caro.