Tenda dos Milagres

Jorge Amado · Capítulo 43 de 77

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Tenda dos Milagres

Onde Pedro Archanjo é prêmio e assunto de prêmio, com poetas, publicitários, professorinhas e o gaiato Crocodilo

Onde Pedro Archanjo é prêmio e assunto de prêmio, com poetas, publicitários, professorinhas e o

gaiato Crocodilo

 

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NÃO! É demais, tenham paciência. — o professor Calazans estava a pique de abandonar a bonacheirice habitual e explodir: Fernando Pessoa, não, essa não! Encontravam-se reunidos no Gabinete de Gastão Si-mas, na Doping Promoção e Publicidade, para escolher o assunto a servir de tema ao Prêmio Pedro Archanjo. Quando, terminadas as comemorações do centenário, decepção e raiva se transformaram em risonho anedotário, o professor considerou um sinal dos tempos o fato de terem discutido e resolvido na sede da agência de propaganda os problemas da maior realização cultural do ano. Valia a pena ouvi-lo descrever as reuniões, uma comédia. — Fernando Pessoa é um tema apaixonante e, de certa maneira, Pedro Archanjo era um poeta — argumentou Almir Hipólito, emigrado da poesia para a publicidade, pondo no maciço sergipano os olhos românticos, de fundas olheiras. — O senhor não leu o artigo de Ápio Correia, “Pedro Archanjo, poeta da ciência”? O “Diário da Manhã” o transcreveu. Genial.

— E daí? O que foi que esse seu genial escriba encontrou de comum entre Archanjo e Pessoa? — o professor Calazans criticava o abusivo emprego do adjetivo “genial”. Ouvia-o a cada momento, repetido pela filha e suas amigas a propósito de tudo e, em especial, dos namorados: — Pedro Archanjo era dado a uma cachacinha e nem por isso vamos criar o Prêmio Siri ou o Prêmio Crocodilo, propondo aos concorrentes o tema da excelência desses paratis.

— Eis uma boa ideia! — riu Gastão Simas — O professor, se quisesse vir colaborar conosco, ia ser um portento na publicidade. Tem ideias colossais. O espanhol da Crocodilo é bem capaz de comprar a sugestão.

— Não estão satisfeitos com a indignidade do anúncio da Coca-Coco? Pedro Archanjo a serviço de refrigerantes! É o fim!

Segundo dona Lúcia, esposa do secretário-geral, seu marido perdia a calma no máximo duas vezes por ano. Em 1968, devido às comemorações do centenário de Pedro Archanjo, passou a perdê-la ao menos duas vezes por dia:aos gritos, exaltado, a discutir tolices. Tolices, somente? Também safadezas e das maiores. Utilizar o nome de Archanjo em anúncios, parecia-lhe horrível profanação, mas havia pior. Servir-se de sua obra, deturpando-a, para exaltar aspectos do colonialismo, como o fizera certo ensaísta de posições e artigos bem remunerados, isso, sim, era o cúmulo da salafrarice.

Ao sergipano não faltava vontade de mandar tudo aquilo às favas. Só não o fizera por ser de obstinada fidelidade aos compromissos e, ademais, se o fizesse, quem iria defender a figura de Pedro Archanjo, impedir que lhe reduzissem a obra ao levantamento folclórico, subtraindo de seu conteúdo exatamente a parte mais profunda e viva?Importante a descrição de hábitos e costumes, a pesquisa de folclore, mais importante ainda a polêmica contra o racismo, a proclamação da democracia racial.

Tomara-se Calazans de carinho pela figura do homem pobre, sem recursos, de instrução limitada, autodidata, que, superando todos os obstáculos, se fez sábio, empreendeu e concluiu obra original, profunda e generosa.

Seu exemplo ensinaria aos jovens integridade e coragem nas condições mais adversas. Por amor a Pedro Archanjo, o professor mantinha-se no cargo, no posto de combate.

— É engraçado... — confidenciou ao professor Azevedo, colega e amigo: — Tanto barulho, tanta corrida,tanto foguetório em torno das comemorações de Archanjo e, no entanto, deformam-lhe a figura e a obra. Erguem-lhe um monumento, é verdade, mas o Archanjo que honram não é o nosso, e, sim, um outro, transformado e diminuído.

— Sem dúvida — concordou o professor Azevedo: — Durante anos ignoram o homem e seus livros. Depois aparece Levenson e veem-se obrigados a retirar Archanjo do cômodo esquecimento. Escovam-no, colocam-no na mol-dura de seus interesses, vestem-lhe novas roupas, tentam elevá-lo socialmente para que melhor o possam usar. Mas, Calazans, tudo isso é secundário: a obra de Archanjo resiste a qualquer deformação. Esse barulho todo, aliás, tem sua utilidade: populariza o nome do mestre do Tabuão.

— Por vezes me desespero, perco a cabeça.

— Não tem motivo. Nem tudo é patifaria. Há gente direita metida nisso. Alguns rapazes excelentes estão pesquisando a obra de Archanjo, trabalhando sobre ela, estabelecendo novas coordenadas de nossa evolução. O livro do professor Ramos é um monumento, é o verdadeiro monumento a Archanjo. Nasceu de nosso proibido seminário.

Também o livro do professor Azevedo, em adiantada preparação, “O baiano Pedro Archanjo”, provinha do fracassado conclave. Frutificara em livros e pesquisas, mesmo proibido.

— Você tem razão. Só o prêmio aos estudantes paga qualquer dor de cabeça.

Exatamente a escolha do tema para o Prêmio Pedro Archanjo levara o professor a perder mais uma vez a calma no gabinete de Gastão Simas:

— Fernando Pessoa, tenham paciência, é demais! Se fôssemos escolher um poeta como assunto, nesse caso por que não Castro Alves que foi abolicionista e é brasileiro?

Desmunhecou Almir Hipólito em ademanes de indignação, tão galante e gracioso em seu inflamado protesto:

— Oh! por favor não estabeleça tal comparação! Quando falar em poesia não cite Castro Alves, versejador medíocre, e jamais o compare com o meu Fernando, o maior poeta da língua portuguesa em todos os tempos. — Castro Alves, mulherengo, femeeiro, provocava-lhe náuseas.

O professor Calazans engoliu vários palavrões, conteve-se:

— O maior? Pobre Camões! Mas, ainda que o fosse, não serviria para nosso prêmio.

— Teria certa utilidade — considerou Goldman, gerente do “Jornal da Cidade” — Poderíamos faturar um pouco mais na colônia portuguesa.